A guerra secreta na África

A guerra secreta na África

Por Steve Brown

O Pacto de Varsóvia pode até não existir mais, mas a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) está expandindo seu papel perceptível - a aplicação do interesse ocidental - especialmente na África e em seus recursos. A expansão da OTAN na África pretende afirmar a influência corporativa ocidental, onde a França de Macron aparentemente deseja usurpar o lugar da Alemanha como a maior e mais influente potência européia.

Mas, o interesse corporativo não é o único motor da guerra da OTAN na África, já que a Russia também tem ambições significativas. Os contratos militares privados não-governamentais russos ou 'Chastnaya Voennaya Kompaniya' incluem:

- RSB Group 
- Centre R-Redut
- Antiterror-Orel
- Shchit (Escudo)
- PMC Wagner
- SlavCorps
- ATK Group
- Patriot
- MAR

Desses, o PMC Wagner e o Shield são grupos particularmente ativos na África.

A lista acima pode parecer impressionante, mas não se compara à lista de empreiteiros militares privados ocidentais que operam no Oriente Médio e no Afeganistão, que já existem há muito mais tempo, são maiores e mais bem financiados e, em muitos casos, diretamente empregados pelos estados que servem - incluindo especialmente os Estados Unidos. Por outro lado, esses empreiteiros russos operam em pequena escala, são flexíveis e empregam uma ampla variedade de nacionalidades e habilidades.

O grupo russo Chastnaya Voennaya Kompaniya (empreiteiros militares particulares, ou PMC) é chamado corretamente de "mercenários" porque eles não podem, por lei, agir em nome do governo da Federação Russa. Também está claro que esses grupos da PMC são empregados principalmente por interesses corporativos, onde esses interesses podem entrar em conflito com os interesses corporativos ocidentais. *

Independentemente disso, a revista Foreign Policy, apoiada pelos Neoliberais Clintons, já havia declarado o fim do PMC Wagner e de grupos militares russos relacionados no texto já famoso de Neil Hauer "The Rise and Fall of a Russian Mercenary Army" (A ascensão e queda de um exército mercenário russo).

O artigo na Foreign Policy apareceu em 6 de outubro de 2019, precisamente no mesmo dia em que Moçambique anunciou o sucesso da Exxon na obtenção de um contrato de gás natural líquido na província de Cabo Del Gado no valor de 30 bilhões de dólares. Sem dúvida, a inspiração da Foreign Policy para publicar a visão problemática de Hauer sobre os empreiteiros militares russos foi baseada no resultado da batalha da Exxon com a gigante de gás russa Gazprom pelo contrato.

E esse é o problema. Moçambique quase esmagou a gigante mineira Rio Tinto com seu escândalo do carvão em Riversdale quando o País se recusou a permitir o transporte de carvão pelo Zambeze. E a Rio Tinto não é a única gigante corporativa a sofrer em Moçambique. No País africano há também um grande problema de dívida com o FMI, com a pobreza generalizada e a insurreição em partes do país, onde uma das regiões mais problemáticas é Cabo del Gado - fonte de gás natural liquefeito.

Quando a Gazprom ainda não estava concorrendo ao contrato de gás natural líquido de Cabo del Gado, o governo de Moçambique decidiu que os terroristas takfiri, movidos a drogas, que vagavam pela província precisavam ir, e optou pelo grupo de segurança de menor lance para "limpar" o local.

A oferta do serviço de segurança de Moçambique resultou na contratação do PMC Wagner, que rapidamente encontrou uma ação policial em terreno extremamente difícil, contra os anarco-psicóticos muito mais perigosos e caracterizados como mais maníacos homicidas e loucos por drogas do que terroristas do ISIS.

Então, em novembro deste ano, o contrato de Wagner com Cabo del Gado se transformou em tragédia quando o Moscow Times noticiou a morte de sete mercenários russos no país. Segundo uma fonte, o PMC Wagner não está mais operando na província.

Os empreiteiros russos Chastnaya Voennaya Kompaniya também atuam na República Centro-Africana (RCA), supostamente protegendo minas de diamantes enquanto negociam com rebeldes no controle dos campos de ouro de Ndassima.

Três cineastas russos foram mortos tragicamente perto de lá enquanto investigavam as atividades de Wagner na RCA na época, provocando uma teoria da conspiração ocidental de que os repórteres foram mortos por seu trabalho de investigação. A verdade, porém, é muito mais mundana, que os repórteres cruzaram uma ponte muito longe no território rebelde sem proteção armada adequada.

Um outro relatório, ainda não confirmado, afirma que um integrante russo do PMC desapareceu em ação na Somália, enquanto duzentos agentes do grupo chegaram recentemente à Líbia. Enquanto isso, mais de 1.100 contratados do Grupo Wagner estão operando na Cirenaica e na Tripolitânia. Isso é feito pelo grupo e seus aliados em expansão na Líbia, Camarões, Uganda, Angola e Sahel ... tudo para grande consternação das forças armadas dos EUA, é claro.

Se os relatórios acima são ou não exagerados, é irrelevante. O quadro geral certamente será mal compreendido no ocidente. A intenção da Rússia na África - seja ela qual for - é certamente tão incompreendida agora quanto a que levou à crise de Suez, em 1956. Essa crise provocou uma invasão e ocupação perigosa e preventiva do Egito de Nasser, que ocorreu em uma conspiração maluca envolvendo Israel , França e Grã-Bretanha.

O potencial paralelo a Suez em 1956 em relação à OTAN versus a Rússia na África hoje não é totalmente absurdo. Isso porque existe outro lado da moeda no que parece ser uma tentativa nascente da Rússia de domar a África por seus próprios interesses corporativos - e talvez os da China! - sendo o efeito tóxico do AFRICOM / OTAN e sua abjeta má administração de recursos e subversão do direito africano à autodeterminação progressiva.

Isso ocorre porque os Estados Unidos e a OTAN operam a maior infraestrutura militar da África, com trinta e quatro bases (algumas secretas), além de trinta novos projetos de construção militar da OTAN ou dos EUA em andamento, abrangendo quatro países.

As forças armadas dos EUA têm mais bases no Níger - cinco, incluindo Niamey, Ouallam, Arlit, Maradi e uma base secreta em Dirkou - do que todos os outros países combinados na África Ocidental.

A base de drones Chebelley em Djibuti é a maior base do tipo no mundo, onde os EUA podem atingir qualquer alvo no Sahel ou no Irã. E o AFRICOM está construindo uma base maior, a Niger Air Base 201, em Agadez, capaz de atingir a Argélia ou qualquer outro local na região do Sahel, enquanto os americanos ainda operam uma base secreta de drones na Tunísia (Sidi Ahmed), agora contra o presidente Qays Sayed (Kais Saied). 

Existem mais cinco bases na Somália, incluindo bases secretas que apóiam a 'Lightning Brigade' do AFRICOM, também conhecida como Danab Advanced Infantry Brigade. Agora adivinhe quem está treinando o Danab? Empreiteiros militares privados dos EUA, é claro: a Bancroft Global Development.

O Quênia ostenta mais quatro bases militares dos EUA, incluindo Manda Bay e Mombasa, onde a base da baía de Manda lançou consistentemente ataques aéreos americanos contra Somália, Iêmen e Iraque. Existem mais três locais secretos dos EUA / OTAN localizados ao longo da costa da Líbia para realizar ataques de drones para uma área tão extensa quanto o Paquistão.

Há o acampamento Lemonnier, em Djibuti, onde estão estacionados aproximadamente 4.000 funcionários dos EUA e da OTAN. Alega-se que o Camp Lemonnier é a 'única base permanente dos EUA na África' - talvez porque tantas novas bases dos EUA / OTAN estejam em construção, enquanto muitas outras são secretas ou simplesmente tratadas por algum acrônimo conhecido apenas pelos militares.

Camarões, Mali e Chade também abrigam o que os militares dos EUA chamam de "locais de contingência", sem dúvida, alavancados pela OTAN em sua tentativa manca de controlar o Sahel. Incluem ainda a base de drones Garoua, Douala e Salak ... que treinam prestadores de serviços militares particulares e acompanham ataques de drones dos EUA contra os terroristas imortais e indestrutíveis do Boko Haram, é claro.

Outra base secreta dos EUA no Chade é o local histórico de Faya Largeau. O status operacional atual de Faya Largeau é, claro, oficialmente desconhecido. A base de Libreville, no Gabão, existe para permitir o acesso rápido das Forças Armadas dos EUA ou da OTAN a um rápido afluxo de forças americanas à base em Dakar, Senegal, que serve ao mesmo objetivo estratégico.

A lista de bases da OTAN e dos EUA na África (secreta ou não) pode continuar, no entanto, espera-se que esteja claro que a poderosa presença dos EUA / OTAN na África se estende muito além da imaginação, mesmo do seguidor mais dedicado dos assuntos militares.

Que essa enorme operação representada pela presença militar dos EUA / OTAN na África possa ser seriamente prejudicada pelo influxo de um pequeno número de contratados militares russos com armamento leve e com poucos recursos é não apenas risível, mas patentemente absurdo.

Pelo contrário, o que todo cidadão do mundo deveria realmente se preocupar é a influência inchada, perigosa, mortal, cara e destrutiva da OTAN e das forças armadas dos EUA e de seu Estado de Vigilância na África. Isso ocorre porque as forças armadas dos EUA estão lutando contra si mesmas - como Shiva, o destruidor.

A Argélia, agora uma democracia progressista com uma eleição presidencial em 12 de dezembro de 2019, certamente está ciente disso. O país tem um profundo entendimento do neocolonialismo ocidental e de seu governo, e evita o pântano da dívida do FMI.

Atualmente, a Argélia exporta mais petróleo para o resto do mundo que o Irã, tem uma economia estável e inflação baixa em comparação com outra nação africana, e potencialmente encara um futuro brilhante, sem interferências ocidentais. Daí a preocupação da Argélia de que seja cercada por todos os lados pelas ferramentas da hegemonia dos EUA e seu intervencionismo.

Em certo sentido, o país fornece um exemplo para o resto do norte da África, onde a Argélia está buscando seu direito à autodeterminação. A maioria das outras nações da África já não podem se dar esse direito já que foram subvertidas pelas guerras por recursos e lucros que favorecem a "corporação Washington".

O contrário disso é, obviamente, a Rússia, independentemente de quão frágeis seus esforços possam parecer e de como podem ser mal compreendidos seus objetivos na África. Mas, o contraponto russo à destruição e corrupção dos EUA / OTAN na África pode não ser tão direto quanto o leitor imagina.

Isso ocorre porque nossa fonte nos informa que a Rússia está abrindo o caminho para a China na África - uma suposição que faz todo o sentido. A China não é e nunca foi uma potência neocolonial. O gigante asiático está ciente da destruição causada pela perda do direito à autodeterminação quando a própria China foi colonizada pelos interesses ocidentais.

Que a Rússia e a China cooperem na África é tão inevitável quanto a incapacidade de Washington de manter perpetuamente seu gigante militarismo inchado em expansão.

Essa é a conclusão a ser comprovada pelo tempo e pelo fracasso contínuo de Washington em compreender os erros dolorosos e trágicos de seu passado hegemônico - erros que os EUA agora estão apenas construindo, exemplificados apenas em parte pela histeria raivosa anti-Rússia que agora os consome. E pelo o futuro da África ... só podemos esperar.

Steve Brown é autor de "Iraq the road to war
" (Sourcewatch) e de "Bush Administration War Crimes in Iraq" (Sourcewatch) 

Fonte: http://www.ronpaulinstitute.org/