AFRICOM: A bota norte-americana sobre o pescoço africano

AFRICOM: A bota norte-americana sobre o pescoço africano

Aliança Negra pela Paz

A África não pode demonstrar independência e poder porque todo o continente tem uma bota militar gigante dos EUA em seu pescoço.

Com relatos a cada semana de mais uma vítima negra da violência policial, há para muitos um desespero cada vez maior. Enquanto os ativistas buscam um caminho, a situação da África não encontra uma agenda para o movimento. Mas, há bons motivos para estarmos preocupados com o que acontece na África. Os problemas lá e os problemas daqui (EUA) estão relacionados.

A África tem sido há muito tempo o foco da exploração estrangeira da terra, dos recursos e das pessoas do continente. Como todos sabem, os africanos se encontram no Hemisfério Ocidental por causa da escravidão e a exploração do trabalho daqueles que foram escravizados. Mas o interesse na África daqueles estrangeiros no continente não se limitava ao tráfico de pessoas. Havia um interesse ainda maior pelo ouro, diamantes, cobalto, petróleo e outros recursos naturais da África, bastante numerosos para serem listados.

Como a África foi colonizada por interesses capitalistas ocidentais e teve roubada de sua riqueza, os africanos resistiram e expulsaram os colonizadores do continente, ou assim pensavam. Nos anos desde que a independência chegou à África, tornou-se dolorosamente claro que os colonizadores europeus conseguiram manter seu domínio sobre o continente por vários meios, incluindo a manipulação de funcionários públicos africanos corruptos.

Os Estados Unidos sempre tiveram suas mãos na África, mas nunca foram amplamente considerados como colonizadores. Os EUA gostam disso porque é útil para sua imagem global como uma nação democrática, amante da justiça e benevolente. Entretanto, sob o manto da escuridão, desempenharam um papel de liderança na manutenção de um controle ocidental férreo sobre a África.

Os observadores notam que em 2019, as Forças de Operações Especiais dos EUA foram destacadas em 22 países africanos e, nos últimos anos, essas tropas se envolveram em combate ativo em pelo menos 13. Além do combate direto, as forças militares americanas conduzem operações conjuntas de treinamento com as forças militares da maioria dos países do continente africano. Essas operações são cuidadosamente projetadas para atender aos interesses dos EUA. Se os interesses dos países africanos anfitriões também são servidos, é mera coincidência. Toda essa atividade militar é patrocinada e coordenada pelo Comando Africano dos Estados Unidos (AFRICOM).

As declarações públicas feitas pelo AFRICOM sobre seu trabalho são elaboradas para retratar o comando como um Corpo de Paz armado que escava poços, entrega medicamentos e constrói hospitais ao mesmo tempo em que protege as vilas africanas dos terroristas internacionais. A realidade é que a missão é avançar e proteger as operações das corporações ocidentais. Quando se trata desse trabalho, os Estados Unidos são eclipsados apenas pelos franceses.

A França mantém há anos uma presença militar ativa e agressiva na África, e os Estados Unidos tem sido um apoiador entusiasta. O AFRICOM não faz segredo deste fato. Seu comandante disse: "A França é o aliado mais antigo dos Estados Unidos e um líder na luta antiterrorista na África. Compartilhamos ameaças comuns, preocupações mútuas e um compromisso de lutar contra organizações extremistas violentas". Esse comentário traduzido significa que os EUA se unem à França para proteger os interesses corporativos ocidentais e rotular qualquer um que se meta em seu caminho como terrorista. Isto às vezes pode ter conseqüências fatais.

Em 2017, quatro soldados dos EUA foram mortos no Níger. A razão de sua presença naquele país não foi claramente explicada pelo Pentágono, mas é provável que sua missão estivesse relacionada ao fato de que durante décadas a empresa francesa Areva minerou urânio no Níger para consumo francês e estabeleceu operações extensivas na cidade nigeriana de Arlit. Em 2013, a França começou a temer ataques a essas instalações, e eles destacaram tropas para protegê-las. Os Estados Unidos também tinham tropas na região, provavelmente para ajudar os franceses. Quatro soldados pagaram o preço com suas vidas.

A Líbia também foi o local da intromissão militar francesa e americana que acabou mergulhando o país no caos total. O objetivo era frustrar os esforços do falecido líder líbio Muammar Gadhafi em estabelecer uma moeda pan-africana (que desvalorizaria o franco francês); e, para obter o controle dos campos petrolíferos da Líbia.

O domínio ocidental da riqueza da África pela força militar fere a África, mas também fere o povo africano nos Estados Unidos. Embora muitas pessoas acreditem que o povo da África não se importa com seus familiares africanos roubados nos Estados Unidos, o contrário foi provado dramaticamente pelo fluxo de apoio e solidariedade da África após o assassinato de George Floyd. Imagine as mudanças que teriam ocorrido se essas demonstrações de apoio tivessem sido acompanhadas de apoio financeiro ao movimento, do braço de ferro diplomático e de pressão econômica. A África não pode demonstrar esse tipo de independência e poder porque todo o continente tem uma bota militar gigante dos EUA em seu pescoço. Cabe àqueles de nós que estão próximos ao AFRICOM desatar os cadarços dessa bota e fazer com que as operações militares americanas na África tropeçem e caiam.

É isso que pretendemos com o Dia Internacional de Ação sobre o AFRICOM e nossa campanha em andamento para desativá-lo.

O Dia Internacional de Ação sobre o AFRICOM (1º de outubro de 2020) aumenta a conscientização do público sobre a existência do exército dos EUA na África, e como a presença das forças dos EUA exacerba a violência e a instabilidade em todo o continente.

Mais informações sobre a data em https://www.blackallianceforpeace.com/DayOfActionOnAFRICOM

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A Aliança Negra pela Paz é um projeto de direitos humanos centrado no povo contra a guerra, a repressão e o imperialismo.

Originalmente em https://www.blackagendareport.com/