Armênia e Azerbaijão na linha de fogo | Valeria Rodriguez 

Armênia e Azerbaijão na linha de fogo | Valeria Rodriguez 

Por Valeria Rodriguez 


O conflito de Nagorno-Karabakh já se arrasta há pelo menos três décadas e voltou ao primeiro plano esta semana.

Na manhã de domingo (27), depois que as primeiras balas foram disparadas, a Armênia declarou sua prontidão militar. O presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, primeiro formou o Conselho Supremo do Comando Militar e depois declarou estado de guerra.

A ação de Aliyev ocorreu em meio a críticas à falta de mobilização militar nos confrontos de dois meses atrás.


"Não permitiremos que o sangue de nossos mártires seja pisoteado", disse o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev. Destruímos veículos militares do exército armênio. Estamos defendendo nosso território e Nagorno-Karabakh pertence ao Azerbaijão", finalizou.

Na segunda-feira, os dois países declararam lei marcial em face do confronto que deixou mortos e feridos nos dois países.

De acordo com o Ministro da Defesa da Armênia, Mikael Harutyuyan, as forças armênias destruíram dois tanques do Azerbaijão, derrubaram dois helicópteros e três drones em resposta a ataques contra alvos civis.

A República do Azerbaijão negou a declaração do Ministério da Defesa da Armênia, dizendo "Temos total superioridade sobre o inimigo".

Desafios de um velho dilema


O conflito de Nagorno-Karabakh é uma das disputas territoriais mais importantes na região do Cáucaso.

Em 1918, a Armênia e o Azerbaijão se separaram da Rússia e mais tarde o Exército Vermelho os anexou à União Soviética.Até então, a existência de um sistema central forte havia evitado suas diferenças, mas a situação especial de Nagorno-Karabakh trouxe novos problemas.

Isso porque os armênios que viviam em Karabakh foram conquistando o poder aos poucos, já que têm o fator população a seu favor, ou seja, a maioria são armênios que se recusam a fazer parte do Azerbaijão.

Ao assumir o controle de Nagorno-Karabakh e de sete outras áreas periféricas no território da República do Azerbaijão como zonas-tampão, os armênios conseguiram controlar cerca de um quinto do território da República do Azerbaijão.

Em 1991, após a dissolução do modelo socialista soviético, o Azerbaijão e a Armênia declararam sua independência, embora a questão do Nagorno-Karabakh permanecesse um obstáculo.

Da mesma forma, em 1994 ambos os países, sob os auspícios da Rússia e posteriormente do grupo de Minsk, declararam um cessar-fogo que durou de 1988 a 1994 e foi reativado posteriormente em 2016, quando novos confrontos militares começaram a ser vividos na região.

É importante destacar que nos referimos a uma área estratégica para o Azerbaijão por ser considerada a porta de entrada para a Geórgia e a Turquia, além de ser uma área por onde passam importantes oleodutos e gasodutos para a região.Um deles é o gasoduto Tanap, que transporta gás natural do campo de gás Shah Deniz no Mar Cáspio, através da Geórgia até a Turquia e de lá para a Europa.

O outro é o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan que conecta Baku, capital do Azerbaijão; Tbilisi, capital da Geórgia; e Ceyhan, que é um porto na costa sudeste do Mediterrâneo da Turquia, daí seu nome.

Cabe ressaltar que é o segundo mais longo oleoduto do mundo, depois do oleoduto Druzhba.

Se a Armênia dominar as montanhas do Cáucaso, isso poderá afetar a transferência de energia do Azerbaijão para a Turquia e causar uma crise econômica no Azerbaijão.

O principal problema no caminho da negociação

Um dos problemas políticos com isso é que a Armênia quer uma delegação de armênios de Nagorno-Karabakh participe das negociações como um terceiro.No entanto, a República do Azerbaijão se opõe fortemente a essa ideia e a considera uma estratégia inteligente para legitimar os armênios de Nagorno-Karabakh.

A República do Azerbaijão também se opõe à realização de um referendo. Porque a maioria dos azeris (povos turcos que se instalam do Cáucaso ao planalto iraniano) emigraram, e estão próximos dos armênios para que a vitória fosse para a posição destes últimos.A ideia de adesão foi também fortemente rejeitada pelo Azerbaijão, que apelou à libertação dos territórios e, em seguida, sob certas condições, à concessão de autonomia ao Governo central do Azerbaijão para Nagorno-Karabakh.

O dilema é que, do ponto de vista de Baku, o território disputado pertence ao Azerbaijão, histórica, legal e geograficamente, mas as pessoas que vivem lá são principalmente armênios que apóiam a soberania de Nagorno-Karabakh.

 

Posição de Teerã

É necessário mencionar que a política externa da República Islâmica do Irã nos últimos anos em relação ao conflito de Nagorno-Karabakh sempre foi uma política de compromisso, equilíbrio e reconciliação.

Nesta área, Teerã tem procurado seguir uma política de equilíbrio e resolução de conflitos entre os países vizinhos, uma vez que a estabilidade da região depende da resolução dos conflitos existentes. Além de evitar o surgimento de novos conflitos, o que é possível no âmbito da cooperação regional.

Rússia quer um cessar-fogo

Em sua primeira reação à retomada das hostilidades entre o Azerbaijão e a Armênia, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, emitiu um comunicado pedindo a cessação imediata das hostilidades e o início das negociações para estabilizar a situação na região.

O papel do Grupo de Minsk

Os esforços para mediar as tensões entre Baku e Yerevan falharam e em troca as críticas ao Grupo de Minsk estão crescendo.

O Grupo de Minsk  foi criado em 1992 pela Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (agora OSCE) para promover uma solução pacífica e negociada para o conflito de Nagorno-Karabakh entre o Azerbaijão e a Armênia.

O Grupo de Minsk é co-presidido pela França, Rússia e Estados Unidos. Além disso, os países participantes incluem: Bielorrússia, Alemanha, Itália, Portugal, Holanda, Suécia, Finlândia, Turquia, bem como Armênia e Azerbaijão.

O problema é que o Grupo de Minsk não só não considerou uma estratégia abrangente e viável para resolver o problema, mas também não usou os recursos de mediação para manter o cessar-fogo e encorajar negociações, apenas emitiu um pedido de cessar-fogo.


O que diz a Turquia?

A Turquia também é um ator importante na disputa entre a Armênia e o Azerbaijão.

Não é estranho que a Turquia apoie totalmente a República do Azerbaijão, pois tem uma história bastante sombria com os armênios, que remonta ao estágio de perseguição, assassinato e desaparecimento deles pelo Império Otomano.

No momento, há uma forte negação a este respeito, incluindo alguns meios de comunicação turcos acusam a Armênia de ter fornecido armas e instalações ao PKK (O partido dos curdos que é considerado pela Turquia como um movimento terrorista).

Outro ponto para o qual Ancara apóia o Azerbaijão é o energético deve-se notar que neste momento a família Erdogan tem muitos interesses, já que possui uma das empresas de energia mais importantes do país e o Azerbaijão tem uma enorme capacidade neste campo, prova disso é o projeto Tanap.

Outro ponto importante para a Turquia é o seu fortalecimento na Ásia Central e no Cáucaso e a utilização das capacidades políticas e econômicas do "Conselho Turco" e até mesmo a idéia de constituir um exército de países de língua turca, para isso dependem do fortalecimento das relações entre a Turquia e o Azerbaijão.

Finalmente, o conflito de Nagorno-Karabakh tornou-se uma questão complexa que deve ser resolvida diplomaticamente, mas que, no momento, parece exigir tempo e boa mediação.

***

Valeria Rodríguez é analista internacional e co-apresentadora do programa "Feas, Sucias y Malas" da Rádio Gráfica, de Buenos Aires, Argentina.