As teses políticas sobre a Venezuela que fracassaram junto com a expedição mercenária

As teses políticas sobre a Venezuela que fracassaram junto com a expedição mercenária

Por William Serafino

Grupos de mercenários no estado de Zulia, na cidade costeira de Puerto Maya e na rodovia El Junquito-Carayaca, foram neutralizados pelas forças de segurança como parte da Operação "Negro Primero Aplastamiento del Enemigo", desencadeada pelas Forças Armadas da Venezuela (FANB) em unidade cívico-militar para salvaguardar a soberania nacional nestes momentos de alerta.

No total, 23 pessoas envolvidas na fracassada expedição armada ao longo da costa marítima já foram levadas à justiça venezuelana, segundo o ministro da Comunicação, Jorge Rodríguez. Entre as capturas estão Luke Denman e Airan Berry, dois ex-militares norte-americanos contratados por Juan Guaidó e os Estados Unidos através da empresa mercenária Silvercorp para realizar um golpe de Estado na Venezuela.

A confissão de Denman em 6 de maio, e a de Berry, revelam que a intenção da incursão mercenária em La Guaira era capturar e assassinar o presidente venezuelano Nicolas Maduro.

Os objetivos políticos e militares gerais da operação eram a sede da presidência da República Bolivariana (Palácio Miraflores), o serviço de inteligência SEBIN e o aeroporto de Maiquetía, em La Guaira.


O plano era simples no papel: controlar militarmente o aeroporto (por isso tentaram desembarcar por Macuto, a poucos quilômetros de distância), sequestrar Maduro em uma unidade de comando fortemente armada, liderada pelo vulgo "Pantera" e Antonio Sequea, e depois colocar o líder venezuelano em um avião com destino aos Estados Unidos ou matá-lo em sua captura.

Berry confirma que o avião viria dos Estados Unidos e que controlar Maiquetía era fundamental, assim como Denman fez em seu testemunho. Para isso, os caminhões de artilharia, armamento pesado e logística de combate que não pousaram em Macuto permitiriam em teoria um rápido e surpreendente avanço para Miraflores, garantindo o retorno a La Guaira.

Enquanto os mercenários revelavam a seriedade dos objetivos, o conselheiro de Juan Guaidó, o colombiano J.J. Rendón, que esteve ligado a uma trama de tráfico de drogas alguns anos atrás, confirmou a veracidade do contrato assinado com a Silvercorp.

Nos Estados Unidos, alguns senadores democratas pediram à Administração Trump que revelasse as informações que tinha sobre esse golpe de Estado fracassado, em clara violação à legislação que regula o estado de guerra e que é controlada pelo Congresso em ambas as câmaras.

As provas irrefutáveis do envolvimento do Guaidó e de Washington estão crescendo, moldando todas as peças da operação com nitidez cada vez maior.

 

Algumas idéias também fracassaram

Embora a agressão frustrada não tenha atingido seus objetivos, o próprio ato veio demonstrar as falhas em certas premissas políticas e teses que disputam a orientação ideológica do país.

Não só uma incursão mercenária impulsionada pelos Estados Unidos encalhou na costa venezuelana, como também um conjunto diverso (embora só aparentemente) de correntes políticas que posicionaram suas hipóteses como a única medida da realidade concreta.
A operação ocorreu num clima de debate político marcado por extremos ideológicos e desorientação intelectual, e demonstrou uma nova fratura nas teses políticas do momento.

Há um consenso comum sobre o impulso dado pelos Estados Unidos à operação do assassinato, mas as idéias que poderiam explicar as razões de seu fracasso pouco podem fazer para nos dar um relato coerente da situação política.

Com os acontecimentos de Macuto, as idéias construídas para responder à complicada resolução do conflito venezuelano fracassaram.

A teoria da "ruptura " marca Maria Corina Machado

A porta-voz do setor de ultra-direita venezuelano tem argumentado nos últimos anos que as iniciativas de diálogo promovidas pelo Chavismo e setores moderados da oposição representam uma perda de tempo.

Este discurso, embora não tenha seus direitos autorais, moldou o padrão de pensamento de promotores de golpes como Luis Almagro, Marco Rubio e o próprio Juan Guaidó.

Esta corrente, que liga elementos maias, crioulos e o fascismo espanhol (o caso do VOX) e a própria Casa Branca, tem uma presença política, organizacional e eleitoral bastante limitada em território venezuelano.

Seu aparato político cobre apenas algumas áreas furiosas do país, o que tem sido demonstrado pela escassa representação parlamentar alcançada nas últimas eleições de 2015.

Devido a essa fraqueza, eles têm usado mídias como o PanAm Post, intelectuais de direita, alguns think-tanks e influenciadores das redes sociais para expandir sua mensagem e influenciar a opinião pública.

Seus alterados porta-vozes  argumentam que o conflito não é mais político, mas questão de "segurança"; ou seja, deve ser resolvido com chumbo, não com diálogo.

São vítimas de um complô ilusório onde russos, militantes do Hezbollah e misteriosos delegados do Partido Comunista da China conspiram às escuras para manter a Venezuela subjugada como se fosse uma colônia tropical.

Eles propõem como fórmula de "resolução" do conflito a combinação de uma "ameaça credível" com uma intervenção cirúrgica para acabar com o "regime de Maduro". Eles propagaram a idéia de que se Washington mostrasse seus atributos de força, isso seria suficiente para fazer cair o Chavismo.

Nos últimos dias, esta fórmula foi parcialmente cumprida pela expedição por Macuto, demonstrando sua falha de origem. A falsa crença de que a força bruta é suficiente para derrubar o governo venezuelano está exposta.

Aconteceu o oposto do que foi teorizado: diante da agressão militar comandada pela Silvercorp, o Chavismo tem fortalecido o consenso geral de defesa e dignidade nacional, reduzindo o espaço político e narrativo da premissa de "ruptura" pela via armada.
 

A hipótese da "traição ao legado de Chávez"

Na calçada oposta, e também representando uma minoria em termos políticos e eleitorais, alguns setores irados da "esquerda" venezuelana implantaram a narrativa de que Maduro "entregou" o legado de Chávez, no marco de uma conspiração com tendências reformistas e empresariais que demoliram as conquistas do processo chavista.

Eles se autodenominam "Chavismo crítico".

Segundo sua perspectiva, apoiada por um rosário de complexos, afirmações confusas e dados escassos sobre a realidade material, Maduro estaria liderando uma "traição" em grande escala com o objetivo de entregar o país a capitalistas, burocratas e latifundiários.

Esta premissa não pára para refletir sobre o complexo panorama orçamentário da República após o bloqueio econômico de Washington e a apreensão de ativos nacionais que impediram o país de recuperar sua economia e lidar com a pandemia da Covid-19.

Para eles, esse quadro material terrível em que o país se encontra seria colocado em segundo plano, pois o fundamental é que Maduro, e o governo venezuelano em geral, parecem ter decidido que essa é a situação que melhor nos convém, como se nossa realidade concreta fosse o subproduto de uma manobra carregada de maldade e sadismo.

Mas se essa teoria fosse verdadeira, o mais lógico seria que Washington e a ala armada do anti-chavismo suspendessem suas tentativas permanentes de derrubar o governo venezuelano, agora recentemente com uma intervenção armada.

Afinal, se Maduro está entregando o país a seus inimigos dia após dia, seria de esperar que os Estados Unidos e até o próprio Guaidó, seus principais inimigos, celebrassem as ações do presidente ou o vissem com bons olhos.

É paradoxal e confuso. À medida que a "entrega do legado" aumenta, quanto maior a conspiração para acabar com a Revolução "por dentro", as tentativas de um golpe sangrento por incentivo de Washington estão se intensificando em periculosidade.

Não deveria ser o contrário? Em outras palavras, a "traição ao legado" não deveria significar a satisfação de Guaidó e da Casa Branca? Por que estariam interessados em derrubar um governo neoliberal e ultra-capitalista que, segundo eles, por decisão própria, mantém a população subsistindo com um salário de 4 dólares? Por que quereriam derrubar à força um governo que compartilha seus interesses?

Uma premissa que não tem coerência nem sentido.

A incursão armada de La Guaira veio demonstrar que a tese política de "traição" de Maduro tem uma base ideológica e material errada, pois anula um fator chave: a derrubada de Maduro pela força implica a derrubada de Chavismo e da nação venezuelana.

Estão resistentes a entender algo tão óbvio.

 

A premissa dos "dois lados"

Exceto por ilusões ideológicas que acrescentam nuances aos dois extremos, surgiu a idéia de que o conflito na Venezuela é uma espécie de batalha entre dois setores políticos. Simula um ringue onde somos levados a acreditar que é uma luta de 12 rounds entre Maduro e Guaidó.

Ver a situação como um conflito "entre políticos" desligado da realidade parte do pensamento neoliberal e tecnocrático que foi imposto há várias décadas para legitimar o papel dos empresários e dos yuppies financeiros na chefia do governo, do Estado e da sociedade.

Essa avaliação tem permeado amplamente nossa psicologia coletiva, nossa linguagem política como sociedade, deixando como resultado uma visão parcial e enganosa onde "ambos os setores" representam "o mesmo".

Visto sob esta luz, todos os políticos seriam pessoas ruins buscando ganhos particulares, por isso seria melhor colocar especialistas, banqueiros e tecnocratas à frente da sociedade.

Como conseqüência, a economia neoliberal tem triturado a política. O único filtro para dar sentido à nossa realidade vem dos números, das cifras e dos parâmetros inventados pelo capitalismo.

O plano fracassado de assassinato deixou claro que a Venezuela não é um país de espectadores diante de uma luta exaustiva entre "dois lados".

Confirma que o alerta à ameaça de intervenção gerou uma enorme mobilização social em todas as camadas da sociedade, incluindo os militares, a polícia e a população em geral organizada sob as milícias.

Mais uma vez, foi demonstrada a capacidade organizacional do Chavismo desde baixo, mas também como seus instrumentos de organização social são os únicos que o país tem para se defender diante da intensificação da guerra.

Em poucas horas, a pequena batalha entre "políticos" desapareceu de cena e tornou visível que a República Bolivariana e a dignidade nacional é mantida por centenas de milhares de braços que, organizados sob um plano de defesa territorial, administram em grande parte da geografia nacional as tensões econômicas e sociais que este momento apresenta.

Nenhuma das teses políticas que tentam explicar a realidade venezuelana pode oferecer uma opinião coerente sobre as razões que impediram o colapso da República Bolivariana diante da escalada da agressão.

Eles parecem cegos para a realidade à sua frente: o chavismo não caiu porque há centenas de milhares trabalhando no anonimato para evitar que isso aconteça.

Como balanço político, o fracasso da "Operação Gideon" nos deixou com uma coalizão de tendências anti-Chavistas que tiveram que recorrer à contratação de mercenários na ausência de uma estratégia política baseada na organização social e territorial de seus militantes.

Também tornou visível que o Chavismo não é apenas o governo constitucional da Venezuela, mas uma força política e territorial organizada, que trabalha em metas concretas e específicas e que responde a um objetivo geral comum que incorpora milhões de pessoas, promovendo sua mobilização em momentos de alto perigo.

Por isso, o objetivo da operação foi cirúrgico: capturar e assassinar o presidente venezuelano como um atalho para o fim do Chavismo. O problema é que eles não calculam ou têm uma estratégia para lidar com o dia seguinte, e o Chavismo sim.

Anos de preparação para o pior é uma vantagem organizacional e uma tese política eficaz para responder a uma realidade marcada pelo conflito. Essa tese é a única que pode organizar nossas idéias em um momento tão complicado como este.


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Originalmente em Misión Verdad