Ásia e Oriente Médio Iraque enfrentando a maior ameaça americana: China, al-Hashd e Irã fora, senão... (2/2)

Ásia e Oriente Médio  Iraque enfrentando a maior ameaça americana: China, al-Hashd e Irã fora, senão... (2/2)

Por Elijah J. Magnier 

Nenhum país poderia deixar de ser abalado pelo tipo de luta profunda entre todos os seus grupos políticos como prevalece atualmente no Iraque. Os EUA não precisam fazer nenhum grande esforço para semear a discórdia entre as partes, pois elas estão hoje intrinsecamente fragmentadas. A retirada do Major General Qassim Suleimani do cenário iraquiano - cujo objetivo pessoal era reunir os diversos partidos políticos - foi um grande evento, mas não algo para mudar o jogo. Não modificou profundamente o cenário político iraquiano porque ele já havia fracassado, dois meses antes de seu assassinato pelos EUA, em convencer os partidos a concordarem em um único candidato a primeiro-ministro, após a renúncia do primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi. Os políticos iraquianos colocam suas diferenças acima de tudo para proteger suas influências políticas, impassíveis pelo dever patriótico de unidade à luz dos sérios desafios que seu país enfrenta.

O primeiro-ministro Abdul-Mahdi não se enganou quando uma vez me disse: "Nós não sabemos como governar. Somos bons em nos opor ao governante". Nenhum governante no Iraque será capaz de tirar o país de sua grave crise financeira atual, do azedume político e da crise de saúde da COVID-19, porque faltam os meios financeiros. A pressão da rua, onde os manifestantes exigiam melhores condições de vida, vai voltar mais forte do que nunca. O baixo preço do petróleo bruto está minando a renda anual do Iraque. O déficit orçamentário do Estado está disparando; suas dívidas externas são persistentes e sua necessidade de ajuda do Banco Mundial, que está sob o controle dos EUA, é maior do que nunca. Os Estados Unidos não fornecerão assistência financeira até que suas demandas sejam atendidas e a influência iraniana seja removida do Iraque.

Os Estados Unidos rejeitam a política de equilíbrio do Iraque. O Iraque considera sua relação com os EUA tão importante quanto sua relação com o vizinho Irã. Washington quer o Iraque para si, adotando um princípio: "depois de mim, o dilúvio" (après moi le deluge), uma expressão dita freqüentemente usada por Luís XV da França para indicar que ele é o centro das atenções, nenhuma outra consideração importa além de sua própria auto-obsessão e que quaisquer outras considerações são irrelevantes.

Os EUA estão apoiando o Curdistão iraquiano, expandindo sua base militar "Harir" e estabelecendo outra grande base militar na fronteira com o Irã. A mensagem para Bagdá parece direta: as forças dos EUA permanecerão diante da resistência das partes do Iraque mais sujeitas à autoridade de Bagdá. No Curdistão, a autoridade do governo central não é tão eficaz quanto em outras partes do país. Os EUA apoiam a Peshmerga curda e os armam através de seus aliados, os Emirados Árabes Unidos, que estão fornecendo armas aos homens armados curdos: quatro cargas cheias de armas desembarcadas recentemente em Erbil.

Não se exclui, se Trump permanecer no poder, que sua administração ajude a região curda a se destacar do Iraque, pois pode também apoiar uma tentativa de secessão curda no nordeste da Síria. Na parte da Síria que os EUA estão ocupando com a ajuda curda, as forças norte-americanas estão roubando petróleo sírio bruto  - mesmo que seu preço não seja mais suficiente para pagar as despesas das tropas destacadas ao seu redor - indicando que há outra razão para sua presença, relacionada com o aliado norte-americano, Israel.

Os manifestantes iraquianos se referem aos Estados Unidos como o "Joker" (palhaço), uma força poderosa que exerce influência sobre os acontecimentos no Iraque, muitas vezes de forma dissimulada. Esta influência foi evidente nas manifestações do ano passado, mas mais conspícua no movimento de independência do Curdistão. As autoridades curdas já rejeitaram a decisão constitucional vinculante do parlamento iraquiano - em uma clara rebelião contra a autoridade de Bagdá - que exigia a retirada dos EUA do Iraque.

Os tomadores de decisão iraquianos em Bagdá acreditam que o presidente norte-americano Donald Trump age apenas de acordo com os interesses de seu próprio país. Ele agradeceu a Adel Abdul-Mahdi por sua proteção à embaixada dos EUA, pois ela foi atacada em Bagdá. O presidente dos EUA enviou uma mensagem positiva ao Irã através de Abdul-Mahdi e, poucos dias depois, matou o general iraniano Qassem Soleimani. O governo dos EUA também está trabalhando pelos interesses de Israel no Iraque - e não de acordo com o interesse "declarado" dos EUA em construir uma relação forte e amigável entre Iraque e EUA.

Trump não ouviu seus protestos quando Abdul-Mahdi o chamou pessoalmente e lhe disse que as ações dos EUA no ataque às forças de segurança estavam enfurecendo os iraquianos e que qualquer ação unilateral teria consequências catastróficas para todos. Ao contrário, Trump ouviu seus auxiliares que consideram os líderes do Oriente Médio como subordinados, não como aliados. Esta condescendência norte-americana serve aos interesses do Irã, que sabe como se beneficiar dos erros americanos, disseram as fontes.

Não há dúvida de que o Iraque está enfrentando uma crise, com graves conflitos internos somados à difícil situação econômica e sanitária que afeta todos os países. 

Mas o maior perigo para o país vem da administração Trump, que só consegue imaginar estados subjugados pela força. Os Estados Unidos certamente acabarão "colhendo tempestade" em vez de ganhar uma aliança robusta com o Iraque.

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Elijah J Magnier é correspondente de guerra veterano e analista de risco político sênior com mais de três décadas de experiência.