Ataque frustrado na Venezuela pode ser o prelúdio de uma invasão maior, alerta analista

Ataque frustrado na Venezuela pode ser o prelúdio de uma invasão maior, alerta analista

Por Ekaterina Blinova

No dia 3 de Maio, os militares venezuelanos frustraram a operação naval secreta da Silvercorp USA "Gideon" , capturando dois cidadãos americanos, Luke Alexander Denman e Airan Berry, juntamente com outros 11 militantes. Os analistas venezuelanos discutem se a Casa Branca esteve por trás do ataque frustrado e porque estava condenada ao fracasso.

Na quarta-feira, a mídia venezuelana transmitiu a confissão do mercenário da Silvercorp USA, Luke Alexander Denman. De acordo com Denman, o grupo militante planejava sequestrar o presidente venezuelano Nicolas Maduro e trazê-lo para os EUA.

Anteriormente, Jordan Goudreau, CEO da Silvercorp USA, um "boina verde" aposentado e três vezes ganhador da Estrela de Bronze por bravura no Iraque e no Afeganistão, reivindicou a responsabilidade pela incursão ao lado de Javier Nieto, capitão aposentado do Exército venezuelano, em um vídeo divulgado na mídia social no domingo. Os dois homens disseram que deram início à "Operação Gideon" a partir da Colômbia com o objetivo de instigar uma rebelião contra Maduro e capturar oficiais venezuelanos de alto nível.

Guaido e a Casa Branca estavam envolvidos no ataque ao frustrado?


Goudreau supostamente assinou um contrato de US$ 213 milhões com o autodeclarado presidente interino da Venezuela, Juan Guaido, em outubro de 2019, algo que Guaido negou veementemente. Uma cópia do suposto contrato foi publicada pela jornalista venezuelana Patricia Poleo, de Miami, que entrevistou Goudreau no domingo. Ela também divulgou gravações de uma suposta ligação telefônica entre Guaidó, Goudreau e o enviado sênior de Guaido, Sergio Vergara, sobre o assunto. Entretanto, de acordo com o Boina Verde aposentado, Guaido não pagou um centavo pelo trabalho.

Washington também rejeitou qualquer envolvimento no ataque naval. No entanto, a conservadora americana Barbara Boland sugeriu que pelo menos alguns funcionários atuais e ex-funcionários da Casa Branca poderiam ter conhecimento da operação, citando o tweet de John Bolton postado na véspera da invasão marítima, bem como a entrevista da TAC com Roger Francisco Noriega, um diplomata americano que serviu como secretário de Estado adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental na administração de George W. Bush.

A invasão mercenária foi organizada pelas forças políticas americanas e seus aliados, insiste o Dr. Angel Rafael Tortolero Leal, professor da Universidad Nacional Experimental de los Llanos Centrales Rómulo Gallegos, diplomata e ex-embaixador. Segundo ele, a incursão cai no padrão do bloqueio econômico de Washington e dos ataques políticos contra a Venezuela em meio à pandemia do coronavírus.

"Agora, estamos financeira e comercialmente bloqueados pelos [EUA], e isso não impediu que as políticas sociais e de saúde do país dêem resultados tangíveis na luta contra a pandemia e pela sobrevivência". E o nível máximo de alerta dos patriotas organizados em defesa da pátria também não diminuiu", sublinha o Dr. Tortolero.


O ataque veio na sequência de uma operação naval americana em grande escala perto das costas da Venezuela e de uma acusação do presidente Maduro por supostas acusações de narcoterrorismo, juntamente com outros 14 oficiais atuais e ex-funcionários venezuelanos por Washington.

"A Venezuela enfrentou uma nova agressão dos Estados Unidos", reforça Miguel Jaimes, cientista político, analista e especialista em geopolítica petrolífera venezuelano.

O analista destaca que não é algo novo os EUA usarem organizações mercenárias privadas para fazer o trabalho sujo, referindo-se à Blackwater, uma notória empresa militar privada que trabalhou em zonas de guerra no Iraque e no Afeganistão.

 

Porque a "Operação Gideon" falhou

O cientista político opina que a interferência dos EUA na Venezuela poderia ter tido duas razões: primeiro, a oposição venezuelana não conseguiu até agora fazer nenhum progresso tangível na tomada do poder; segundo, aqueles por trás da operação aparentemente acreditavam que os militares e a população venezuelana apoiariam a rebelião contra Maduro. Para ele, os mercenários e seus apoiadores na Colômbia, nos EUA e na oposição venezuelana se iludiram ao pensar que a Venezuela é um Estado fracassado e uma algo fácil de quebrar.

"A Venezuela está há muito tempo em alerta máximo", ressalta. "A Venezuela estudou todos os cenários [possíveis] e inclusive uma tentativa de violação de nossa soberania por um grupo de mercenários que ocorreu no domingo". Esperava-se que isso não pegasse de surpresa as forças de segurança venezuelanas e aqui analisamos todas as possibilidades de interferência estrangeira de uma forma muito violenta para derrubar o governo". Muitas coisas aconteceram aqui desde a tentativa de assassinato contra o Presidente da República, atos de sabotagem, compra de altos funcionários e outros militares pela CIA e pelo Departamento de Estado".

O trabalho coordenado entre todos os componentes das Forças Armadas venezuelanas, os serviços de inteligência e os habitantes dos pequenos centros populacionais (poblados) localizados no litoral do país garantiu uma resposta rápida e eficiente à invasão mercenária, ressalta.

"Certamente, a zona costeira norte da Venezuela é muito grande e a área com mais de 2.300 quilômetros em linha reta, está repleta de povoados, muitos centros populacionais, a maioria deles muito pequenos. Os colonos e pescadores que vivem nessas áreas têm uma relação muito direta entre si", diz o analista, explicando porque a operação secreta não poderia passar despercebida.

Ele não descartou que o ataque naval foi um prelúdio para operações maiores contra a Venezuela. Ainda assim, a forma como se desenrolou colocou os EUA e a oposição venezuelana em uma enorme desvantagem, já que o país agora se mobiliza em torno de Maduro com a oposição "moderada" desafiando abertamente qualquer tipo de intervenção militar estrangeira contra a Venezuela, de acordo com o cientista político.

"Nenhum país no seu perfeito juízo pode aceitar que seja utilizado como centro de desestabilização para toda a região", observa Jaimes. "Da América Central para a América do Sul: Brasil, El Salvador, Colômbia, Peru, Equador, Chile e Bolívia, agora têm governos muito desestabilizados e sem apoio popular; infelizmente as forças armadas [desses países] têm estado a serviço de grupos econômicos muito poderosos [lá]".

Agora o governo está dando instruções ao povo, aos conselhos comunitários, aos membros do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e a todo o "pólo patriótico", que está pronto para defender a soberania da Venezuela, enfatiza o analista político.

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*Ekaterina Blinova é jornalista 

Originalmente em Sputnik Mundo