China impulsiona a perda de hegemônia dos EUA | Pablo Jofre Leal

China impulsiona a perda de hegemônia dos EUA | Pablo Jofre Leal

Por Pablo Jofre Leal

O poder econômico da China, a influência política internacional e, sobretudo, o prestígio que ganha em sua luta contra os Estados Unidos, fazem hoje do gigante asiático um alvo permanente dos ataques de Washington, o que inevitavelmente mostra que a supremacia outrora global está em declínio.

Desde a Renascença até o início deste século XXI, levando em conta o calendário ocidental, a hegemonia do Ocidente foi mantida sem grandes choques - talvez com alguma disputa na supremacia desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando a antiga União Soviética adquiriu o posto de superpotência, até a queda dos socialismos reais. Mas, isso foi um lapso, efêmero no conjunto domínio ocidental.

Durante a última metade do milênio, o poder hegemônico foi exercido principalmente por um número muito pequeno de nações ocidentais. Primeiro, no quadro atlantista europeu, que foi dominado pela Espanha e França sobre vastos e extensos territórios em todos os continentes, e que no caso do Império Britânico conseguiu manter uma certa supremacia até à segunda década do século XX. Nessa fase, marcada pelo fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos começaram a se impor com todo o seu ímpeto econômico e militar, consolidando, após o colapso da Europa e do Japão, a marca de uma superpotência e liderando assim a formação de uma Nova Ordem Mundial, centrada em interesses e valores emanados de uma visão imperialista do mundo, numa medida nunca antes vista na história da humanidade.

Na verdade, essa onipotência é verificada em muitos aspectos: o número de bases militares no mundo, que no caso dos EUA chega a 800 bases militares e navais em todos os continentes. Invasões, seja para derrubar ou para fortalecer governos afins. Processos de desestabilização, para concretizar o domínio de recursos naturais, como petróleo, gás, urânio, rotas de navegação. Instalação de entidades políticas, como é o caso do sionismo, com o objetivo de criar zonas isoladas na Ásia Ocidental. Conformação de blocos regionais, domínio de instituições e recursos financeiros, que lhe permitem diversificar como não o tinha feito em impérios anteriores, a sujeição de grande parte dos países dependentes. A gestão dos meios de informação e a canalização do processo de globalização, como expressão máxima de um modelo neoliberal e de uma fase de McDonaldização do mundo que expressa a ideologia dominante.

Em qualquer caso, estou falando de uma cultura medíocre, baseada principalmente no consumo e onde elementos como posse de armas, o hedonismo e ignorância social costumam prevalecer. É sintomático, por exemplo, que o presidente norte-americano Donald Trump despreze intelectuais, cientistas, qualquer coisa que cheire a cultura. Um exemplo é seu conselho de que para " desinfectar-se" do vírus da COVID-19, deve-se tomar produtos desinfetantes como o Lysol e outros produtos de limpeza, que matariam os organismos virais por dentro do corpo. A mídia noticiou que "apesar dos alertas de médicos e especialistas americanos, alguns cidadãos levaram a sério as palavras do magnata nova-iorquino, pensando que estariam curados, quando na verdade estavam sendo envenenados".

Essa mesma ignorância, em um país onde seus líderes não costumam ser de alta estatura intelectual, permite que a China seja acusada de ser a causa da pandemia global resultante da COVID 19 O mesmo acontece com os Estados Unidos. O presidente Donald Trump, cujo país no momento em que escrevo mostra um enorme número de pessoas infectadas, 1,2 milhões de pessoas e 70 mil mortes, numa manobra para desviar a atenção da ineficácia de sua administração no combate ao vírus, atribuindo à China a responsabilidade por um mal que aflige todo o planeta.

Trump acusa a China de ter criado a COVID-19 em um laboratório em Wuhan (a cidade onde se localiza o primeiro contágio), inclusive chamando-a de Vírus Chinês e acrescentando a esta linha de confronto com países aliados como a França e o Reino Unido. Trump também esteve envolvido em uma amarga disputa com a Organização Mundial da Saúde (OMS), que ele acusa de agir complacentemente com o governo de Pequim e dar maus conselhos sobre como lidar com a pandemia. O governo dos Estados Unidos culpam tanto a China quanto a OMS pela pandemia e a crise da saúde em seu país, não havendo autocrítica às suas ações, uma vez terminada a pandemia, ameaçando até medidas judiciais e econômicas, no caso da OMS já suspendeu a contribuição financeira feita pelos Estados Unidos, que representa 16% do orçamento total desta organização internacional.
 

A China, através de uma declaração pública, não poupou palavras nem história para responder a Trump. Em vez disso, o colocou em seu devido lugar em questões de saúde e criticou sua linha exigindo responsabilidade, como se o governo chinês tivesse um plano para prejudicar os americanos. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Geng Shuang, disse: "Temos afirmado em várias ocasiões que a questão da COVID-19 é um assunto a ser estudado por médicos e cientistas e não deve ser politizado. Por enquanto, a OMS e a maioria absoluta dos especialistas consideram que não há provas de que o novo coronavírus tenha sido criado em laboratório".

Geng Shuang trouxe à tona questões que o oportunismo de Trump esconde. O alto funcionário chinês declarou sem rodeios: "Alguém culpou os Estados Unidos pela AIDS? Em 2009, a gripe H1N1 eclodiu em uma grande área dos Estados Unidos e se espalhou para uma dúzia de países, matando 200.000 pessoas. Alguém pediu aos Estados Unidos que pagassem por ela? Nos anos 1980, a AIDS foi detectada pela primeira vez nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo. Quantas pessoas têm AIDS hoje? Alguém culpou os Estados Unidos por isso? Os vírus são inimigos comuns de toda a humanidade e podem aparecer em qualquer país e a qualquer momento. A China, como outros países, tem sido atacada pelo vírus. A China é uma vítima, não uma cúmplice do vírus. Deve ficar claro para todos que o inimigo é o vírus, não a China.

O temor americano da China

Por quê os Estados Unidos estão tão determinados a desacreditar a China, por responsabilizá-la por uma pandemia cuja origem merece ser estudada sem preconceitos? A China apontou, por exemplo, que os soldados americanos que participaram dos 5º Jogos Militares Mundiais em outubro de 2019, na cidade de Wuhan, foram os portadores do vírus, cujos vestígios foram encontrados em mortes e exames post-mortem de causas respiratórias nos Estados Unidos. Por mais que solicitações fossem feitas, Washington não respondeu a esta informação. Fala-se de laboratórios ligados à guerra biológica e de uma aliança entre Washington e o regime de Tel Aviv para espalhar o vírus, o que também não foi negado pelo binômio acima mencionado. Há muitas conjecturas e "o que é claro é a falta de clareza" quanto à origem primária desta COVID-19. Vários tomos podem ser escritos sobre as acusações.

A resposta a tanta obstinação americana em culpar a China reside em fatores políticos e econômicos de forte confronto hegemônico, num momento em que a predominância americana está sendo questionada em todo o planeta. Uma preeminência que sucumbe junto à deterioração da autoridade do mandatário americano convertido em uma caricatura de si mesmo. A China está atingindo as bases do que tem sido a poderio americano após o fim da II GM. Está estabelecendo alianças comerciais com a maioria dos países do mundo, sem invasões, agressões militares ou chantagens dentro dos organismos internacionais.

A China entrou de cheio na África, com 250 mil trabalhadores dessa nacionalidade, milhares de empresas. Com investimentos que passaram de 85 milhões no ano 2000 para 400 bilhões de dólares atualmente, considerando somente os países subsaarianos, diversificados em infra-estrutura ferroviária, barragens, oleodutos, estradas e onde os chamados metais estratégicos são uma fonte muito valiosa para as indústrias tecnológicas modernas: ouro, coltan, vanádio, manganês, urânio, cromo, entre outros. Uma presença marcada também por diferenças notáveis em relação às antigas metrópoles e aos Estados Unidos. A diplomacia chinesa "em meio século fez uma mudança notável na sua relação com a África. Ela se distanciou do passado ideológico para empreender sua política externa no continente com enorme pragmatismo e um marcante viés econômico sobre princípios como confiança mútua, benefício recíproco, igualdade das partes, não-interferência nos assuntos internos e coordenação". Diante disso, os Estados Unidos têm muito pouco a oferecer.

Uma forma similar de trabalho tem sido realizada pela República Popular da China na América Latina. Um Estados Unidos que após a guerra civil americana na segunda metade do século XIX começou a penetrar nos países ao sul do Rio Grande, até consolidar seu poder político, econômico e militar após o fim da Primeira Guerra Mundial, transformando a América Latina naquilo que era depreciativamente chamado de  "quintal americano". Um mercado como local privilegiado de negócios para Washington, fechado a qualquer possível concorrente. E ainda assim, especialmente na última década, a China entrou de cheio no campo dos investimentos, da infra-estrutura e até do apoio a governos inimigos dos Estados Unidos, como é o caso da República Bolivariana da Venezuela, com a qual mantém fluidas relações políticas, comerciais e estratégicas, ligadas à indústria do petróleo e do ouro.

Em artigo escrito há cinco anos, mencionava o imenso impulso que a China estava promovendo com a América Latina, o que significou que entre 2005 e 2014 a República Popular da China concedeu 120 bilhões de dólares aos países da área, estabelecendo um fundo de investimento para cooperação bilateral nas áreas de biotecnologia, mineração e projetos de infra-estrutura que ultrapassou 15 bilhões de dólares. Na década de 2016 a 2026, foi definido um processo de investimento de 250 bilhões de dólares. Um crescimento do investimento de 70% contra 20% a menos nos Estados Unidos, que está em claro declínio e tem menos influência. A China ocupa hoje o espaço que Washington deixou de acordo com suas próprias realidades, seja porque suas preocupações como superpotência a têm focado em seus interesses na Europa, Ásia Ocidental e na área disputada do Mar Meridional da China.  Esta é uma visão estratégica dos governantes americanos com uma miopia crescente tão grande quanto suas infelizes intervenções em guerras de agressão no Magrebe e na Ásia Ocidental. Junta-se a isso os seus problemas internos, com uma sociedade dividida e um presidente que gera tensões e desconfianças em todos os continentes.

É esta perda de influência global, juntamente com a necessidade de desviar a atenção de seus problemas internos de saúde e políticos, é o que explica a política de Trump e sua administração para focar a direção de suas críticas à China. O país que Washington considera responsável pela produção e disseminação do vírus. Uma acusação que é feita, aliás, no contexto de uma guerra comercial e de um forte questionamento da hegemonia decrescente dos Estados Unidos. Um país mais determinado a cercar a República Islâmica do Irã, impedir o desenvolvimento e expansão a oeste da Federação Russa e tentar impedir o desenvolvimento da China no comércio global, tentando mergulhá-la em conflitos como o caso do Mar do Sul da China, onde incitou seus parceiros na região, a pressionar e tensionar as relações com Pequim.

Donald Trump, ao ser eleito, deixou claro que "nosso inimigo é a China" e deixou isso claro em seu mandato, inclusive gerando um forte sentimento anti-chinês na população, gerando ações judiciais movidas por advogados americanos, que pretendem fazer a China pagar milhões de dólares em compensação por "espalhar o vírus e ser culpado de milhares de mortes nos Estados Unidos". Também tem havido um chamado dos setores mais extremistas da sociedade americana para impor decisões de imigração que impeçam a entrada de estudantes e trabalhadores chineses. O chamado vem de políticos influentes, como o senador republicano Tom Cotton, do Arkansas, que pediu ao governo para evitar não só que as mentes mais brilhantes da China sejam treinadas pelos Estados Unidos, mas também para evitar que Pequim roube a vacina COVID-19, numa acusação que demonstra o medo atávico da China.

A sinofobia é galopante nos Estados Unidos, e o próprio Cotton confirmou suas alegações estereotipadas e enraizadas desde que os primeiros imigrantes chineses se estabeleceram no Ocidente americano, em meados do século 19. Cotton afirma que "os serviços de inteligência chineses estão tentando ativamente roubar a propriedade intelectual da América no que se refere ao vírus que liberaram para o mundo, porque, é claro, eles querem ser o país que leva o crédito por encontrar as medicações ou vacinas, e depois usá-las como alavanca contra o resto do mundo". Apesar desses ataques, que escondem o profundo temor de Washington ao avanço global da China, o Dragão chinês segue desperto e ansioso para permanecer acordado sobre os louros, que o colocam hoje como uma das maiores potências do mundo.

Geng Shuang, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, tem sido enfático em tornar conhecida a posição de seu governo: "Essas exigências americanas são extremamente absurdas e não têm base legal. Desde o início do surto, a China tem agido de forma aberta, transparente e responsável, e o governo dos Estados Unidos deve afastar tal litígio vexatório." Enquanto o contágio e as mortes são uma constante nos EUA, os ataques à China vão se intensificando, Trump faz com que seja uma prioridade encontrar um inimigo que oculte sua péssima administração.

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Pablo Jofre Leal é jornalista e escritor chileno. Analista internacional, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Complutense de Madri.

Originalmente em HispanTV