Como a COVID-19 está atingindo a economia brasileira

Como a COVID-19 está atingindo a economia brasileira

Por Ekaterina Blinova

O surto de Covid-19 atingirá drasticamente os trabalhadores do Brasil e os setores mais pobres da população, prevê Gustavo Guerreiro, editor executivo da revista Tensões Mundiais, explicando como as políticas neoliberais do governo Bolsonaro podem causar mais um golpe na queda da popularidade do presidente.

Embora o coronavírus continue a se proliferar, levando os Estados a tomar medidas de emergência e impor quarentenas em todo o país, Jair Bolsonaro apelida a crise de Covid-19 de "histeria" e "truque da mídia".

O tratamento em relação à pandemia pelo presidente provoca descontentamento público: desde de 19 de março, São Paulo e Rio de Janeiro brasileiros saíram às suas varandas batendo panelas e frigideiras contra o presidente.

Em 24 de março, o Ministério da Saúde registrou 1.891 casos confirmados de Covid-19 com 34 mortes.

A Covid-19 exacerba as tensões no Brasil

A pandemia aumentou as tensões sociopolíticas no país por mais de um mês durante o confronto de Bolsonaro com a Suprema Corte e o Congresso Nacional. O gatilho foi o uso de 30 bilhões de reais (US $ 6,2 bilhões) do orçamento impositivo.

Para romper o impasse, o presidente brasileiro exortou seus partidários a irem às ruas em 15 de março e atacar o legislativo e o judiciário. Em resposta à manifestação nacional organizada pelos apoiadores do presidente, parlamentares da oposição e grupos da sociedade civil submeteram Bolsonaro a duras críticas por realizar reuniões públicas "antidemocráticas" em meio ao surto de Covid-19.

"Bolsonaro sempre propôs ser o candidato 'anti-sistema', relacionando o 'sistema' à esquerda. E o sistema, para ele, significa instituições democráticas", afirma Gustavo Guerreiro, editor executivo da Revista Tensões Mundiais e membro do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (CEBRAPAZ), acrescentando que "o governo Bolsonaro não está apenas alinhado, mas completamente submisso ao governo de Trump".

Segundo Guerreiro, a descentralização do poder político é de extrema importância para o Brasil e seu povo. Para ilustrar seu argumento, ele lembra que foi o líder da Câmara, Rodrigo Maia, que alertou o presidente brasileiro contra a potencial aventura militar em relação à Venezuela após a tentativa de golpe de janeiro de 2019 em Caracas, apoiado pelos EUA.

"O Supremo Tribunal Federal, alguns líderes do Congresso Nacional, governadores e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também se posicionaram contra as declarações de seu filho, Deputado Federal Eduardo Bolsonaro, que, em tom ameaçador, falou em entrevista sobre a possibilidade da edição de 'um novo AI-5' - um ato institucional adotado na época da ditadura militar, e cuja primeira medida foi o fechamento do Congresso Nacional ", explica Guerreiro.

Ele expressa preocupação de que os movimentos que apóiam Bolsonaro estejam endossando o fechamento do Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, bem como o estabelecimento de um novo AI-5.

"Como chefe do Poder Executivo, ao pedir manifestações que tenham como agenda o fim do Poder Legislativo e do Judiciário, especialmente do Supremo Tribunal Federal, o presidente quebra o decoro do cargo e comete um crime de responsabilidade, conforme artigo 85, II, da Constituição Federal", observa.

Aprovação de Bolsonaro cai

Brasília declarou estado de emergência nacional em 20 de março, enquanto alguns governadores estaduais, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, optaram por restringir a circulação de pessoas antes.

A hesitação de Bolsonaro em implementar medidas duras pode ser parcialmente explicada pelo fato de a economia do país ter demonstrado taxas de crescimento lentas, mesmo antes da pandemia: qualquer suspensão das atividades comerciais ameaçava agravar ainda mais a situação.

Na semana passada, o governo brasileiro foi forçado a reduzir para zero sua previsão de crescimento econômico para 2020 e propor um pacote de 150 bilhões de reais (US $ 29,55 bilhões) para incrementar os negócios do país. A agência de classificação de crédito Moody's previu na segunda-feira (23) que é improvável que as medidas financeiras do governo impeçam danos ao crescimento e ao emprego.

"As políticas neoliberais adotadas como modelo, com cortes nos investimentos em saúde e serviços públicos, trarão muito sofrimento à população mais pobre e aos trabalhadores, que são a maioria da população", diz Guerreiro. "A Emenda Constitucional 95, implementada durante o governo de Michel Temer e mantida pelo governo Bolsonaro congelou os recursos orçamentários da União para despesas básicas por 20 anos. Não há caso semelhante em todo o planeta. É um crime contra a população mais vulnerável", acrescenta.

Enquanto isso, as taxas de aprovação do presidente continuam caindo, de acordo com o pesquisador, que prevê que o maior golpe na popularidade de Bolsonaro acontecerá quando as políticas neoliberais do ministro da Economia Paulo Guedes começarem a afetar mais fortemente os setores mais pobres da população.

"Em 10 de março, foi divulgada uma pesquisa realizada por uma empresa chamada Quaest Consultoria, na qual o rating negativo de Jair Bolsonaro aumentou de 32% em dezembro de 2019 para 35% hoje. Quando questionados sobre a possibilidade de impeachment do presidente, 39% se declararam a favor e outros 49% não o apoiam".

Em 23 de março, o Datafolha informou que o índice de aprovação de Bolsonaro atingiu o nível mais baixo desde que assumiu no ano passado: apenas 34% dos brasileiros agora acreditam que o desempenho do presidente no cargo é "ótimo" ou "bom".

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*Ekaterina Blinova é jornalista 

Originalmente em Sputnik Mundo