Coronavírus e biopolítica neoliberal

Coronavírus e biopolítica neoliberal

Por Gustavo Guerreiro

“Vai custar muito caro. Você está preocupado com os pobres? Você vai ver a vida devastada da humanidade na hora do colapso econômico, da recessão mundial, dos pobres não ter o que comer, das empresas fecharem, do desemprego em massa, não dá pra comparar com um “virusinho”, que é uma gripezinha leve para 90% das pessoas”. A fala é do empresário Roberto Justus, milionário que também é apresentador de TV. Como em um passe de mágica, para ele e para os outros endinheirados, o bem-estar social dos “pobres” se tornou preocupação recorrente. Mas qual seria o discurso, o “não-dito” por trás dessa afirmação?

A crise de pandemia global de Covid-19 traz consigo o surgimento de uma nova ética somática, pois requer obrigações imbuídas de dor e medo, mas também de esperança, mas exigindo ação drástica presente. Essa nova sociabilidade trazida pela pandemia nos impõe não apenas tarefas individuais e coletivas, mas profundas reflexões, na medida em que a biopolítica se enreda nas entranhas da economia. “Não importa que 5 ou 7 mil morram” diz o dono de uma rede de restaurantes que se preocupa com “as mortes que serão provocadas pela paralização da economia”. A vida importa menos do que o dinheiro.

O discurso do presidente Jair Bolsonaro na noite de 24 de março foi o cântico de morte de uma melodia genocida, mas não tem nada de estranho. Ele apenas fez o que o capital reclama: o sangue e a vida de seus explorados. O filósofo camaronês Achille Mbembe em sua grande obra intitulada “Crítica da Razão Negra”, argumentava que o uso do corpo negro, explorado como mão de obra escrava durante o colonialismo no continente americano gerou lucros astronômicos, constituindo a base do capitalismo moderno. Não haveria capitalismo sem a exploração e sem o controle da vida e da morte dos explorados. Era o que ele entendia a partir do conceito de necropolítica (a política da morte).

A preocupação do presidente e da classe empresarial que o apoia, nada mais é do que a manifestação pública da lógica de exploração pela morte. Os argumentos remetem ao escravismo colonialista, do qual senhores de escravos, após o Decreto da Lei Áurea, argumentavam que seria melhor que seus escravos permanecessem na segurança das senzalas, pois lhes era garantido pão, teto e água, a conquistarem suas liberdades, ainda que fajutas, e morrerem de fome e peste. Bolsonaro, ao afirmar que o coronavírus está “superdimensionado”, que não passa de uma “gripezinha” ou “resfriadinho” e que os efeitos econômicos de uma paralização são muito piores do ponto de vista da saúde e da vida das pessoas, aponta claramente para os interesses que lhe sustentam. O que ele diz para as massas de trabalhadores precarizados é: permaneça na senzala ou morrerá.

De fato, ela não está completamente equivocado, embora seu intuito seja a perpetuação da lógica da senzala.  A fome daqueles que não podem parar de trabalhar, representa um drama tão grave quanto o do vírus. O seu Zé da barraquinha da feira não pode passar 90 dias sem vender suas frutas e verduras. Quando a necessidade cobrar seu preço, haverá massas de trabalhadores voltando às ruas pagando pra ver. Até quando se sustentará o isolamento sem nenhuma política de compensação?

Fica mais fácil visualizar essa tragédia, uma vez que a força de trabalho é composta pela alta taxa de informalidade, com mais de 40% do total de empregados sem nenhum direito trabalhista que lhes permita enfrentar tal situação. São mais de 38 milhões de pessoas trabalhando precariamente. Não podem “se dar ao luxo do confinamento por causa de uma gripezinha”, porque o Estado optou pelos bancos, barões do capital financeiro e elites em detrimento dos trabalhadores dos mais pobres. Tanto que Bolsonaro resolver editar uma MP, retirando quatro meses de salários dos trabalhadores. Somente depois de muita pressão, voltou atrás. Repito, a culpa pelo grande número de mortes de dará pela aliança do vírus com as políticas neoliberais.

Há, no entanto um outro lado. A pandemia do Covid-19 expôs a contradição fundamental de um sistema que por muito tempo domina todos os aspectos de nossas sociedades, transforma a educação e a saúde em mercadoria, acumulando lucros às custas de trabalhadores subvalorizados e mal pagos. Nem todos os países e regiões serão afetados da mesma forma. A capacidade de se isolar, trabalhar e educar os filhos em casa, estocar produtos, acessar medicamentos e se reorganizar financeiramente e psicologicamente depende de classe, gênero, raça, idade e geografia.

Ironicamente, os mesmos que defendem o arrocho fiscal em nome do rentismo especulativo, dos cortes em programas sociais, educação, saúde, ciência e tecnologia e moradia, hoje reclamam de maior presença do Estado. É que os ricos descobriram que não são os únicos seres humanos. O Covid-19 unifica na tragédia pois, aos olhos das elites, transforma em seres humanos a parcela precarizada da sociedade, que já padece de hanseníase e tuberculose, doenças da extrema pobreza. Ora, se a elite não é contagiada pelas mazelas da pobreza, pra quê o Estado?

Não é à toa que a solidariedade internacional esteja sendo liderada não pelas grandes potências imperialistas e neocolonialistas, mas por Cuba e China. O pequeno país do Caribe cumpre papel fundamental no combate à pandemia, enviando brigadas de médicos a todos os cantos do mundo. O mesmo país também recebeu um cruzeiro britânico com diversos viajantes infectados, após passar vários dias no mar e ser rejeitado por outros países do Caribe. A Itália devastada homenageia a chegada dos médicos cubanos, os mesmos defenestrados no Brasil, já contaminado pelo vírus da ignorância e sua comorbidade ideológica.

O internacionalismo solidário atesta as vastas possibilidades e alternativas além do neoliberalismo e da exploração. Mas, para que essa incrível demonstração de solidariedade continue, precisamos criar sistemas que possam fomentar essa solidariedade além dessa crise e colocá-la no centro de nossa economia, nosso sistema político e nossa interação uns com os outros.

A biopolítica neoliberal coloca o homo economicus como um indivíduo real, um fim em si próprio. O Covid-19 mostra que ele é uma mera abstração. A tragédia da pandemia requer uma profunda remodelação epistemológica, ontológica e técnica da sociedade. O terrível vírus mostra de forma dramática que apenas a solidariedade derivada do sentimento de pertencimento a uma comunidade (uma união de comuns) pode nos libertar da ignorância, do obscurantismo e do individualismo exacerbado do ethos ultraliberal. Então Estado, rogai por nós!

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Gustavo Guerreiro é membro da direção nacional do Cebrapaz e editor da Revista Tensões Mundiais

Originalmente em Vermelho.org

As opiniões dos autores não representam necessariamente as do Dossier Sul