Covid-19 ou o ocaso de um projeto de sociedade que fracassou

Covid-19 ou o ocaso de um projeto de sociedade que fracassou

Por Augusto Márquez

Nos últimos dois séculos fomos submetidos ao mais ambicioso e inovador projeto de engenharia social da nossa história: a invenção da economia de mercado como princípio organizador central da sociedade humana.

Como diz o ditado, a história tem sido escrita pelos vencedores e, conseqüentemente, a forma como tem sido narrada é em função de justificar não só seus interesses, mas também o propósito de forjar uma idéia de continuidade "natural" que abarque anos de processos históricos e sociais.

Como resultado disso, a economia de mercado que vai organizar o capitalismo comercial e industrial nascente dos séculos XVII e XVIII na Europa Ocidental será apresentada como um passo "lógico" da sociedade rumo a um "ideal" de progresso material e bem-estar já anteriormente inscrito na consciência humana.

Esse "ideal", aos olhos dos ideólogos do liberalismo político da época na França, Inglaterra e Estados Unidos, seria tão material quanto um órgão ou a própria pele. Ou seja, seria constitutivo do humano; vem conosco desde o nascimento, dizem eles.

A operação intelectual deu o suporte ideológico às revoluções burguesas dos séculos XVIII e XIX que construíram um modelo político adequado para organizar a crescente revolução industrial na manufatura, transporte e energia. Mas foi além. O capitalismo crescente encontrou um projeto político que expressava sua lógica, abrindo o caminho para a organização da sociedade de acordo com suas normas e princípios.

A tese liberal omitiu que a economia de mercado (e o capitalismo em geral) era uma invenção, ou seja, uma construção artificial. Ela lhe deu essência e "natureza humana". E o faria estabelecendo comparações com sistemas econômicos anteriores: em todas as sociedades pré-capitalistas havia comércio, dinheiro e o lucro de uns poucos sobre o trabalho da maioria. Visto sob essa ótica, o mercado capitalista foi apenas mais uma etapa no desenvolvimento da humanidade.

E o sistema capitalista certamente não inventou a moeda, o comércio, a subjugação do trabalho ou a concentração da terra nas mãos de uma elite. Estes elementos já estavam presentes antes de sua irrupção definitiva. No entanto, os ideólogos do liberalismo esconderam um fator de ruptura que não estava presente nos sistemas anteriores: nenhum deles havia transformado terra, trabalho ou dinheiro em mercadorias, como fez a economia de mercado sob o capitalismo.

A maneira mais fácil de desmascarar essa mentira da tese liberal está na impossibilidade de encontrar o chamado Homo Economicus, viciado no lucro e no benefício material individual como máxima de vida nos impérios babilônicos ou romanos ou na Grécia Antiga. Também não há qualquer evidência de que as sociedades antigas ou pré-modernas entraram em colapso devido a uma queda nos mercados de ações.

Como o filósofo austríaco Karl Polanyi refletia na época, até o advento da moderna economia de mercado, a produção e o consumo de bens era mediada por instituições sociais, políticas, religiosas e/ou comunitárias. Ou seja, a economia não estava separada da sociedade; pelo contrário, estava dentro de suas instituições.

Nem o dinheiro, nem a terra, nem o trabalho eram considerados mercadorias, nem o mundo social e cultural girava em torno do princípio de gerar lucro e benefício individual como resultado final do trabalho produtivo.

Mas com a invenção do mercado, a economia e a sociedade começaram a ser tratadas como esferas separadas e desconectadas. Agora o mercado teria "suas próprias leis" que organizariam a sociedade em termos de oferta e demanda, produção, consumo, concorrência e lucro privado. Seria "auto-regulado" e tão perfeito em seu design que seria capaz de estabelecer uma redistribuição justa para todos os seus participantes.

Despojado de instituições e fronteiras sociais, o mercado transformaria trabalho, terra, natureza e dinheiro em mercadorias que só produziriam lucro, sendo qualquer intervenção do Estado ou da sociedade um obstáculo ao seu desenvolvimento.

Em suma, as leis do mercado tomaram o comando da sociedade.


Embora os ideólogos liberais fossem muito hábeis em apresentar essa transformação social a partir de uma perspectiva triunfalista, na realidade foi um evento catastrófico com implicações em larga escala. Pela primeira vez em toda sua história, a humanidade foi organizada em torno da busca do lucro privado e do ganho material como única regra de vida.

Essa transformação significou um acúmulo explosivo de desenraizamento e tensões estruturais que causaram grandes cataclismos políticos. A crença de que o mercado é intocável e que resolveria tudo, levou a sociedade a intervir e a colocar limites a ele em vários momentos: de um lado, a Revolução Russa e os primeiros movimentos de libertação nacional surgiram nas periferias do sistema-mundo e, de outro, o fascismo e o New Deal de Roosevelt como respostas à crise econômica do capitalismo desregulamentado.

Essas convulsões sociais e políticas de amplo espectro haviam mostrado que o mandato de transformar tudo em mercadoria deixaria a sociedade nua, deslocada e sem qualquer horizonte.

Ambos os fatos, segundo o historiador britânico Eric Hobsbawm, nos deixaram com um século 20 onde massacres, fome, pandemias e guerra se tornaram a paisagem comum de toda a humanidade.

O século XXI é ainda muito jovem e conflituoso para afirmar que se livrou das tensões deixadas pelo século anterior.

A idéia de um mercado auto-regulado sem intervenção não era apenas utópica, mas altamente desoladora em seu próprio planejamento filosófico. Tratar o trabalho humano como uma mercadoria implicava sua dependência de flutuações na oferta e na demanda sobre as quais nenhum fator humano tinha controle efetivo.

Em termos concretos, se as leis do mercado indicavam que uma determinada fábrica ou sistema de produção não era rentável, seja por causa de uma crise econômica ou por causa da invenção de sistemas de produção mais eficientes, o trabalhador era expulso para as ruas e assim se justificava seu inferno de fome e privações. No final, esse trabalhador é apenas mais uma mercadoria dentro de um mercado de trabalho, portanto, seu destino dependeu de um mercado incontrolável que é dirigido sob o único princípio de produzir lucro, sem poupar os custos sociais e econômicos que ele gera.

Karl Polanyi afirmava que o mercado era um "moinho satânico" e que o medo do trabalhador da fome, como o desejo de lucro do patrão, manteve esse mecanismo durante seu período de cristalização: a Europa Ocidental do século XIX.

Esse mesmo "moinho satânico" é aplicável à natureza e à terra que, quando transformadas em mercadoria, passavam a ser exploradas além de seus limites orgânicos até nos conduzirem à nossa atual crise ecológica extrema. No plano humano, esse mesmo moinho estava rompendo todos os laços sociais e esquemas de solidariedade, pois eram absorvidos pela lógica do dinheiro e do consumismo. Tudo se tornou um produto de consumo que pode ser acessado em um mercado.

A pandemia de Covid-19 tem mostrado o resultado catastrófico da aplicação da tese liberal em todo o planeta. Por exemplo, como a saúde é uma mercadoria que busca sua realização no mercado, seu objetivo não é salvar vidas, mas buscar esquemas maiores de rentabilidade. As leis do mercado indicam que o "lógico" é privatizar ainda mais a saúde para que apenas aqueles que têm dinheiro para pagar sejam salvos.

A maioria dos países afetados pela pandemia foram unânimes pela saúde pública diante da loucura mercantilista, entendendo que deixá-la ao destino do "moinho satânico" traria uma mortalidade incalculável.

O que a Covid-19 trouxe tem a forma de uma crise particular no sistema capitalista. Pela primeira vez na história deste sistema, a produção é paralisada, a recessão é galopante e as finanças globais estão explodindo sem que uma guerra em larga escala esteja presente.

Enquanto isso, um terço da população mundial está observando de casa como os mercados (do trabalho às finanças e às commodities), se estressam numa onda de anarquia descendente e de baixos rendimentosm, mas sem nenhuma voz ou capacidade de incidir na direção da loucura e do desespero que nos leva ao abismo.

Em estado de pânico, a economia de mercado indica que para salvar seu próprio projeto são necessárias demissões massivas, modelos de redução de tamanho e a transição dos fluxos de investimento para outras áreas mais rentáveis, enquanto milhões de pessoas buscam refúgio junto aos governos para não serem descartadas como mão-de-obra redundante e desnecessária depois que a crise tiver passado.

Polanyi também disse que a pobreza era apenas a expressão econômica de uma questão muito mais trágica. E se há uma coisa que a Covid-19 certamente nos deixará, é um novo ciclo de desemprego e recessão: as duas doenças congênitas do capitalismo.

Mas o problema vai além disso. Em pouco mais de dois séculos, a tese liberal e seu projeto de sociedade rasgaram e desintegraram a sociedade, varrendo seus laços culturais e sociais e demolindo suas estruturas coletivas, a tal ponto que hoje é impossível imaginar a vida sem a Internet, televisão, smart phones e outros produtos tecnológicos que não têm mais de 30 anos de idade.

Esta desintegração levou a uma amnésia total e à dissolução de qualquer lugar de retorno onde os valores de consumo e lucro não são os valores centrais. Simplesmente não saberíamos como nos comportar em uma sociedade que não é feita para isso e que não reproduz o individualismo.

O estado de hibernação em que boa parte da humanidade se encontra reproduz a imagem distópica adaptada ao nosso tempo: o contato social mais elementar transformou-se num perigoso produto de décadas de globalização corrosiva e enlouquecedora de produtos, comércio, finanças e práticas de consumo, e algo chamado "mercado" faz suas contas, sem nos pedir, para "resolver a situação" e "voltar a uma normalidade" que não sabemos bem o que nos esperará.

Cem bilionários jogam no cassino com nossa desgraça, mais uma vez, decidindo com base em seus esquemas de rentabilidade quem permanecerá no mercado de trabalho e quem ficará de fora, já que, "por azar", foi isso que o mercado decidiu em meio à pandemia.

Os princípios deste projeto demonstram mais uma vez o seu impulso para desintegrar a sociedade humana e sua enorme capacidade de nos convencer de que não podemos fazer nada para mudá-la.

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Originalmente em Mision Verdad