Culpar a vítima é a mais recente tática de guerra do Ocidente contra a China | Andrew Korybko 

Culpar a vítima é a mais recente tática de guerra do Ocidente contra a China | Andrew Korybko 

Por Andrew Korybko 

A divisão StratCom do Serviço Europeu de Ação Externa (EEAS) publicou recentemente um relatório que acusava o governo chinês de difundir agressivamente a desinformação sobre a COVID-19 através das mídias sociais. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Geng Shuang, respondeu a esta afirmação completamente infundada na segunda-feira (27), lembrando ao mundo que "a China se opõe à criação e disseminação de desinformação por qualquer pessoa ou organização. A China é uma vítima da desinformação, não um desencadeador".

O diplomata fez uma excelente arguição que merece ser ampliado para que outros possam entender melhor a perniciosidade da última reviravolta na campanha de guerra de desinformação em curso do Ocidente contra a China. A República Popular foi o primeiro país a registrar casos de COVID-19 e, portanto, foi também o primeiro a impor regras estritas de distanciamento social, numa tentativa sem precedentes de conter esse contágio. A China nunca negou nada disso; ao contrário, foi muito transparente e manteve o mundo atualizado sobre tudo.

Mas a China não só foi vítima do coronavírus, como agora é também a última vítima da guerra de informação (information warfare) do Ocidente. A campanha contra a República Popular pretende moldar as percepções internacionais, acusando o país daquilo de que o próprio Ocidente é culpado: espalhar desinformação sobre a pandemia. São as autoridades ocidentais e seus meios de comunicação, não os seus homólogos chineses, que têm difundido consistentemente notícias contraditórias e às vezes até mesmo completamente falsas sobre o vírus.

A China sempre tomou muita cautela a cada vez que seus representantes falam sobre o coronavírus, enquanto seus homólogos ocidentais têm a tendência de contar ao público sobre métodos de tratamento não comprovados e alegações factualmente incorretas sobre a origem do vírus. O público está ficando muito confuso depois de receber tantas mensagens contraditórias de figuras que pensavam poder confiar, daí que muitos desses atores decidiram agora culpar a China pelo caos informativo da COVID-19 que eles mesmos criaram.

O objetivo ao fazer isso não é apenas encobrir seus rastros, fugindo da responsabilidade pela confusão generalizada que causaram (seja involuntariamente ou por razões deliberadas que só podem ser especuladas neste momento), mas inventar uma teoria conspiratória culpando a China pelo crescente número de mortes e devastação econômica causada por este vírus. Culpar a vítima não é apenas imoral, é também contraproducente, pois o público global já está bem ciente de que a China é de fato vítima tanto do vírus quanto da guerra da informação, e não a parte culpada.

É por essa razão que a EEAS, de forma pouco convincente, procurou interpretar mal a popularidade das declarações e artigos de seus oficiais da mídia do país como suposta prova de uma campanha agressiva de desinformação, alegando que a China implantou um exército de bots para espalhar certas idéias pelo ciberespaço. Isso não é verdade, já que essa popularidade é na verdade atribuível à receptividade média das pessoas às notícias factuais e análises intrigantes vindas da China, por isso estão tão ansiosamente compartilhando nas mídias sociais.

Menos pessoas acreditam nas autoridades ocidentais e em sua mídia, o que é culpa do próprio Ocidente por confundir seu público com as mensagens confusas que divulgaram sobre a COVID-19 ao longo dos últimos meses. Foi um erro épico para eles subestimar a inteligência de seu povo ao assumir que automaticamente esquecerão quem foi o responsável por essa desinformação só porque a China foi abruptamente culpada por isso. Por esta razão, pode-se dizer com segurança que o relatório de desinformação da  EEAS é ironicamente a própria desinformação.

Portanto, são os líderes ocidentais e sua mídia, não a China, que estão travando uma guerra de informações sobre o público ocidental. As pessoas também estão se tornando mais conscientes disso, e por isso estão procurando fontes chinesas de informação em vez de ocidentais. Mas isso assusta seus governos, pois temem estar perdendo o poder de manipular a população. À medida que o desespero cresce, não seria surpreendente se eles culpassem suas vítimas da desinformação como culpam a China, o que só aprofundaria a desconfiança da sociedade em relação a elas.

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Andrew Korybko é Analista político norte-americano radicado na Rússia. Especialista no relacionamento entre a estratégia dos EUA na Afro-Eurásia; a visão global da conectividade da Nova Rota da Seda e em Guerra Híbrida

Originalmente em oneworld.press