Egito e Etiópia: negociações difíceis e um futuro incerto

Egito e Etiópia: negociações difíceis e um futuro incerto

Por Nourhan ElSheikh

A água é considerada o recurso geoestratégico mais importante, pois é um pré-requisito para a vida e o desenvolvimento econômico. É por isso que a "segurança da água" emergiu como um componente central da segurança nacional de qualquer Estado. O Oriente Médio e a África são  frequentemente atormentados por disputas pela água.

O Conselho Árabe da Água é formado por países árabes que estão abaixo da "linha de pobreza da água" com menos de 1.000 metros cúbicos por ano, por pessoa. Muitos analistas prevêem que as duas regiões têm potencial para se envolver em guerras pela água, devido ao rápido crescimento populacional e à falta de mecanismos de uso sustentável. Entre as áreas mais controversas em termos de direitos transnacionais da água estão a bacia do rio Jordão, os rios Tigre e Eufrates, e o Nilo.

Desde 2011, a Etiópia implementa um projeto em larga escala para a construção da Barragem do Renascimento no Nilo Azul. Seu lançamento, segundo especialistas, inevitavelmente levará à escassez de água rio abaixo, atingindo o Sudão e o Egito. O Sudão não seria afetado tanto, pois possui uma abundância de água das chuvas e não sofre um grande grau de pressão da população. Já o Egito está para ser a principal vítima da barragem, pois é totalmente dependente do Nilo. A chuva é rara e 95% de seu território é deserto, portanto, o acesso à água do Nilo é uma questão de vida ou morte para ele e seus cidadãos.

Há uma década, o Egito era contra a barragem em princípio. Agora, no entanto, aceita o status quo. A Etiópia renegou seus compromissos de não afetar adversamente a parcela de água do Egito e rejeitou as propostas egípcias pedindo que o reservatório da Represa seja preenchido dentro de sete anos, ao invés de três. A proposta do Egito garantiria o fluxo de sua parcela da água. Adis Abeba considera que é uma questão de soberania e a competência do Estado etíope.

Limitar o acesso à água da água do Nilo teria um efeito multidimensional no Egito. Primeiro, aprofundará a escassez de água entre os 100 milhões de pessoas que vivem no Egito, que já estão abaixo da linha de pobreza da água. O consumo médio de água per capita no Egito caiu a 500 metros cúbicos por ano. Além disso, espera-se que a construção da barragem etíope tenha outras repercussões devastadoras: afetará a capacidade da barragem de Aswan High de gerar eletricidade, consequentemente reduzindo as atividades econômicas na produção geral e industrial em particular, levando a taxas mais altas de desemprego. A qualidade de vida do povo egípcio também se deterioraria, pois afeta suas vidas diárias.

Segundo, a incapacidade do Egito de pressionar a Etiópia a chegar a um consenso indicaria uma mudança dramática no equilíbrio regional de poder e no status do Egito no continente africano. Iss destacaria a crescente influência da Etiópia e o relativo declínio do Egito.

Terceiro, à luz do que foi exposto, esse cenário pode levar à instabilidade política no Egito. A deterioração econômica e social foi um fator importante durante as revoluções de 2011 e 2013 no Egito. Apesar de todas as medidas tomadas pelas autoridades, uma terceira revolução poderia ocorrer, especialmente à luz dos protestos que se espalhariam nos países vizinhos por razões semelhantes.

Existem dois cenários para o futuro. No primeiro, a Etiópia mantém sua posição. Nesse caso, o Egito pode tomar medidas difíceis, principalmente se houver muita pressão popular. No segundo caso, os dois países poderiam chegar a um compromisso.

Apesar da reunião entre o presidente egípcio Abdul Fatah Khalil Al-Sisi e o primeiro-ministro da Etiópia Abiy Ahmed Ali, em Sochi, e o acordo em retomar as negociações, é claro que a disputa não será fácil de resolver. Somente a intervenção de terceiros atores pode ajudar. A Rússia prestou uma grande ajuda em Sochi e pode fazer ainda mais. A cooperação russo-israelense pode ter um impacto. As relações entre Etiópia e Israel são muito profundas e estratégicas, e Israel goza de uma quantidade considerável de influência em Adis Abeba.

No entanto, os Estados Unidos convidaram o Egito, o Sudão e a Etiópia para se encontrarem em Washington no dia 6 de novembro. Resta a questão de saber se os Estados Unidos estão aptos e dispostos a levar a Etiópia adiante para buscar um acordo justo ou não.


Nourhan ElSheikh, em Valdai Club