Erdogan: Idlib é minha

Erdogan: Idlib é minha

Por Elijah J. Magnier 

Um desdobramento importante ocorreu na Síria na sexta-feira (28). Um ataque russo a um comboio turco em Idlib, no noroeste da Síria, matou 36 soldados e oficiais turcos. Em retaliação, a Turquia lançou um ataque a drone sem precedentes que durou várias horas e resultou na morte e no ferimento de mais de 150 oficiais e soldados sírios e seus aliados do Hezbollah e dos Fatimiy'oun. Os drones turcos destruíram dezenas de tanques e lançadores de foguetes posicionados pelo exército sírio na linha de frente. A Rússia cessou o apoio aéreo à Síria e seus aliados que exigiram desta última uma explicação para a falta de coordenação de sua interrupção unilateral do apoio aéreo, permitindo que os drones turcos matassem tantos soldados sírios e forças aliadas. O que aconteceu, por que e quais serão as consequências?

Em outubro de 2018, Turquia e Rússia assinaram um acordo em Astana para estabelecer uma zona de conflito nas estradas Damasco-Aleppo (M5) e Aleppo-Latakia (M4). Ficou acordado que todos os beligerantes se retirariam e tornariam as estradas acessíveis ao tráfego civil. Além disso, foi decidido o fim da presença de todos os jihadistas, incluindo os tadjiques, turquistaneses, uigures e todos os outros combatentes estrangeiros presentes em Idlib, ao lado de Hayat Tahrir al-Sham (ex-ISIS, ex-al-Qaeda na Síria), Hurras al-Din (al-Qaeda na Síria) e o Ahrar al-Sham com seus combatentes estrangeiros e todos os rebeldes "não moderados". No ano passado, Hayat Tahrir al-Sham assumiu o controle total de Idlib e sua área rural sob os olhos atentos da Turquia.

Mais de um ano depois, o compromisso turco de acabar com a presença de jihadistas e de abrir a M5 e a M4 não havia sido respeitado. O exército sírio e seus aliados, juntamente com a Rússia, concordaram em impor o acordo de Astana pela força. Em poucas semanas, a linha de defesa dos jihadistas desmoronou sob forte bombardeio russo. Segundo os comandantes de campo, os jihadistas deixaram menos de cem homens em todas as aldeias, que se retiraram sob o forte bombardeio e preferiram sair do que estar cercados pelo exército sírio e seu rápido avanço.

De acordo com os comandantes militares na Síria, a Turquia viu a retirada dos jihadistas e decidiu transferir milhares de tropas para a Síria para realizar um contra-ataque ao Exército Sírio e seus aliados. Essa ação impossibilitou a Rússia de distinguir entre jihadistas e o exército turco. Além disso, a Turquia se absteve de informar a Rússia - conforme ficou acertado no acordo de resolução entre esses países - sobre a posição de suas forças regulares. Foi quando a Rússia bombardeou um comboio matando 36 oficiais turcos, juntamente com 17 jihadistas que estavam presentes junto com o exército turco.

Segundo fontes dos tomadores de decisão na Síria, a Força Aérea Russa não estava ciente da presença do comboio turco quando foi quase dizimado em Idlib. O comando turco forneceu veículos turcos e mobilizou milhares de soldados turcos com os jihadistas. "Parece que o presidente turco Recep Tayyeb Erdogan queria que esse alto número de baixas turcas parasse o ataque rápido e bem-sucedido do exército sírio na frente de Idlib e reduzisse a rápida retirada dos jihadistas".

Segundo as fontes, a Rússia ficou surpresa com o número de soldados turcos mortos e declarou um cessar-fogo unilateral para acalmar a frente e diminuir a escalada. Moscou ordenou que seu comando de operações militares na Síria parasse o esforço militar e interrompesse o ataque à zona rural de Idlib. Participar de uma guerra contra a Turquia não faz parte dos planos de Putin na Síria. A Rússia achou que era o momento certo para acalmar a frente e permitir que Erdogan curasse as feridas.

Este pensamento russo não correspondia às intenções e planos turcos na Síria. A Turquia moveu sua base de comando e controle militar nas fronteiras com a Síria para direcionar ataques contra o Exército Sírio e seus aliados. Os drones armados turcos forjaram um ataque de drones organizado sem precedentes, com duração de várias horas, destruindo toda a linha de defesa síria na rodovias M5 e M4 e prejudicando a eficiência do exército sírio, equipado e treinado pela Rússia. Além disso, o Irã havia informado a Turquia da presença de suas forças e forças aliadas com exército sírio e pediu à Turquia que parasse o ataque para evitar baixas. A Turquia, que mantém mais de 2.000 oficiais e soldados em 14 locais de observação hoje sob controle do Exército Sírio, ignorou o pedido iraniano e bombardeou o quartel-general iraniano e o de seus aliados, incluindo um hospital militar de campo que matou trinta (9 Hezbollah e 21 Fatimiyoun) e dezenas de oficiais do exército sírio. O ataque turco feriu mais de 150 soldados do exército sírio e seus aliados.

Agora ficou claro que a Rússia, o Irã e seus aliados entenderam mal o presidente Erdogan: a Turquia está na batalha de Idlib para defender o que Erdogan considera território turco (Idlib). Esse é o significado da mensagem turca, com base no comportamento e na mobilização do exército turco junto com os jihadistas. Damasco e seus aliados consideram que a Rússia cometeu um erro ao não impedir que os drones turcos atacassem território controlado pela Síria em Idlib. Além disso, a Rússia cometeu outro erro grave ao não alertar seus aliados de que a liderança política em Moscou havia declarado um cessar-fogo unilateral, expondo parceiros no campo de batalha e negando-lhes cobertura aérea.

Esta não é a primeira vez que a Rússia interrompe uma batalha no meio do seu curso na Síria. Isso já aconteceu antes em al-Ghouta, leste de Alepo, el-Eiss, al-Badiya e Deir-ezzour. Foi a Rússia quem pediu ao exército sírio e seus aliados que se preparassem para a batalha M5 e M4. Militarmente, esse ataque não pode ser interrompido, a menos que um cessar-fogo seja acordado em todas as frentes por todas as partes. O cessar-fogo unilateral foi um erro grave, porque a Rússia não previu a reação turca nem permitiu que o exército sírio e seus aliados se equipassem com sistemas de defesa aérea. Além disso, enquanto a Turquia bombardeava o exército sírio e seus aliados por várias horas, os comandantes russos levaram muito tempo para convencer Moscou a intervir e pedir à Turquia que parasse o atentado.

O comando militar da Síria e seus aliados acreditam que a Turquia agora pode se sentir encorajada a repetir tal ataque por hesitação russa em se opor a ela. Assim, a Síria, o Irã e seus aliados decidiram garantir a cobertura aérea de suas forças espalhadas por Idlib e garantir que eles tenham proteção independente, mesmo que a Rússia prometa - segundo a fonte - liderar um ataque futuro e recuperar o controle aéreo total.

É compreensível que a Rússia não esteja na Síria para desencadear uma guerra contra a Turquia, membro da OTAN. No entanto, a OTAN não está em posição de apoiar a Turquia já que está ocupando solo sírio. No entanto, a guerra na Síria mostrou quão pouco o Estado de Direito é respeitado pelo Ocidente. Uma possível intervenção dos EUA não é descartada com o objetivo de estragar a vitória da Rússia, Irã e Síria e seus planos de libertar o Levante dos jihadistas e unir o país. A possível intervenção dos EUA é motivo de preocupação para a Rússia e o Irã, particularmente quando o presidente Erdogan continua pedindo intervenção direta dos EUA, uma zona de exclusão aérea de 30 km, uma zona de amortecimento ao longo das fronteiras com a Síria, mísseis de interceptação Patriot dos EUA para enfrentar a Força Aérea Russa e proteção aos refugiados sírios internamente (ao mesmo tempo em que ele organiza a partida destes para a Europa).

Moscou mantém bons laços comerciais e energéticos com a Turquia, e o presidente Putin não está na Síria para iniciar uma nova guerra com os inimigos da Síria, Turquia, EUA e Israel, apesar da importância do Levante para a força aérea da Rússia (base aérea de Hmeymeem) e a marinha (instalação naval russa em Tartus).

As opções são limitadas: a Rússia concorda em apoiar a preparação do inevitável contra-ataque sírio nos próximos dias e antes da cúpula de Putin-Erdogan, ou a situação em Idlib hibernará e permanecerá estática até que os jihadistas atacem Aleppo novamente nos próximos 6-7 meses.

Elijah J Magnier é correspondente de guerra veterano e Analista de risco político sênior com mais de três décadas de experiência

Originalmente em ejmagnier.com/