Espancados, mutilados e forçados a se despir: por dentro da brutal repressão policial do Chile contra manifestantes

Espancados, mutilados e forçados a se despir: por dentro da brutal repressão policial do Chile contra manifestantes

Por Naomi Larsson

Respirando o ar densamente mesclado com gás lacrimogêneo e fumaça de barricadas improvisadas nas esquinas de Valparaíso, Carla Casoni lembra-se de sentir sua pele e seus olhos queimarem com a infusão de água e produtos químicos, usada como tática policial comum para dispersar manifestantes.

"Perdi temporariamente a visão, por isso me tornei um alvo fácil para a polícia", diz ela. Casoni é uma das quase 30.000 pessoas que foram detidas, muitas arbitrariamente, na agitação, que durante nais de dois meses, varreu o Chile.

Poucos dias antes da detenção de Casoni na cidade portuária de Valparaíso, em 22 de outubro, o Chile havia implodido em uma revolta social, inicialmente desencadeada por um protesto estudantil contra aumentos de tarifas de metrô em Santiago. Desde então, pessoas de todo o país se mobilizaram contra a desigualdade econômica e social, participando de protestos pacíficos, em sua maioria, mas às vezes violentos.

Ao longo das semanas, os protestos foram recebidos com repressão estatal. Logo após o tumulto começar, o presidente Sebastian Pinera enviou os militares para as ruas e emitiu toque de recolher, declarando que as autoridades "estão em guerra". Nos dois meses que se seguiram, as forças de segurança foram acusadas, por grupos de direitos, de brutalidade e de uma série de violações dos direitos humanos, incluindo tortura e violência sexual.

Casoni disse ao jornal The Independent que foi espancada pelos Carabineros do Chile, a força policial militarizada, durante um protesto na cidade portuária. Ela estava com manifestantes que haviam bloqueado a Avenida Errazuriz, rua principal de Valparaíso, quando um carabinero a prendeu a uma árvore e bateu nas suas pernas e costas com um bastão. Ela alega que foi atingida novamente enquanto procurava seus documentos e carteira de identidade, e ainda outra vez a caminho do veículo da polícia.

Ela descreve as horas de detenção, em uma delegacia de polícia local, como um assalto à sua dignidade. Ela diz que ela e outros detidos foram forçados a se despir como parte de um rigoroso processo de revista que foi recriminado por grupos de direitos humanos. Casoni teve que se despir duas vezes, uma vez na delegacia e outra vez ao ser detida pela gendarmeria, a unidade penitenciária do Chile, onde foi forçada a ficar de cócoras, enquanto estava nua na frente de um grupo de outros detidos e policiais.

A prática de obrigar as pessoas a se despir foi proibida durante uma revisão dos protocolos policiais em março de 2019, mesmo assim as as organizações de direitos humanos registraram centenas de queixas de tratamento desumano desde outubro. Registros do Instituto Nacional de Direitos Humanos do país, conferidos pela Human Rights Watch, mostram que os oficiais têm maior probabilidade de forçar mulheres e meninas a se despirem do que homens.

"É um abuso grosseiro de poder", acrescenta Casoni. "É muito degradante. É importante ressaltar que todas as mulheres passaram por esse processo de serem 'revistadas' assim: mulheres grávidas, mulheres mais velhas."

Casoni passou a noite em uma cela de 2m por 3m com 17 outras mulheres que haviam sido presas durante os protestos, uma grávida e outra com mais de 60 anos de idade. Elas não foram informados do motivo da prisão e tiveram negados seus direitos a um telefonema. Elas foram mantidos durante a noite sem comida ou água.

Casoni diz que também lhes foi negada ajuda médica, apesar de uma mulher sofrer um ataque de pânico e outra ter lesões externas visíveis, incluindo ferimentos nos braços e pernas que precisavam de atenção médica imediata.

"Só mais tarde comecei a sentir as consequências dessa experiência", diz ela. "Eu tenho ansiedade e um sentimento geral de insegurança e desconfiança."

Seu relato expõe o tratamento cruel e a violência sexual que muitas pessoas sofreram nas mãos das forças policiais do Chile. "Só estou relatando o que aconteceu nesse distrito em particular, em uma noite de protesto. Isso está acontecendo em todos os lugares, esse abuso de poder é sistemático”, diz ela.

O Instituto Nacional de Direitos Humanos concluiu em seu relatório anual que a resposta do Estado aos protestos em massa “produziu, no seu conjunto, as mais graves e múltiplas violações dos direitos humanos cometidas desde 1989”, referindo-se à ditadura de 17 anos do general Augusto Pinochet, que terminou em 1990. A força policial nacional não foi expurgada ou reformada nos 30 anos seguintes.

O instituto deu entrada a 1.080 ações judiciais contra as forças de segurança do Chile, incluindo alegações de tortura, estupro e homicídio.

“Isso aconteceu na democracia, na nossa democracia. Como isso foi possível?”, afirmou Sergio Micco, então diretor do instituto, referindo-se aos abusos dos direitos humanos e medidas repressivas adotadas pelas forças do Estado.

As Nações Unidas e ONGs, incluindo a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, condenaram o nível de repressão, exigindo uma urgente reforma policial.

"Durante estes dois meses, a repressão e os atos dos Carabineros têm sido uma estratégia para implementar o terror na população", diz Claudio Nash, professor do departamento de direito internacional da Universidade do Chile.

"O que eles querem é que o público não saia às ruas para protestar, sob a ameaça de que, se o fizerem, as consequências serão severas - você pode ser arbitrariamente detido, espancado e possivelmente torturado".

Gás de pimenta, canhões de água e armas de fogo "não letais", incluindo balas ou balas de borracha, são práticas comuns para dispersar protestos, mas grupos de direitos humanos dizem que constituem uso excessivo da força, especialmente contra manifestantes não violentos.

Estudos descobriram que a água usada para dissolver os protestos contém spray de pimenta e soda cáustica, e que as supostas balas de borracha usadas pela polícia contêm materiais como chumbo, com apenas 20% de borracha.

Nas ruas, estima-se que cerca de 405 pessoas tenham sofrido ferimentos graves nos olhos por armas de fogo não letais ou cartuchos de gás lacrimogêneo.

A ONU disse que o número "alarmante" de pessoas feridas nos olhos sugere que as armas foram usadas "de maneira inadequada e indiscriminada contrariamente aos princípios internacionais". As vítimas dizem que a polícia disparava diretamente em seus rostos.

O médico Albano Toro Cardenas, 40, estava como voluntário para ajudar os feridos durante um protesto em Iquique em novembro.

Os voluntários montaram um centro médico improvisado em uma rua lateral, tratando pessoas com múltiplas lesões por armas de fogo. Ele se lembra de um dia caótico de protestos, o ar repleto de gás lacrimogêneo e os sons de tiros perfurando o ar.

A voz de Toro lhe falta ao se relembrar do momento que mudou sua vida para sempre.

Ele descreve "um esforço concertado pelas forças especiais" para dispersar as pessoas das ruas à noite. Toro estava claramente identificado como médico e usava equipamentos de proteção, que provaram ser inúteis. Durante a repressão aos protestos, ele sentiu um súbito impacto no olho esquerdo.

“Eles atiraram no meu rosto, despedaçando minha córnea e destruindo meu olho. Neste momento, perdi minha visão completamente e não vou recuperá-la”, diz ele, revelando seu globo ocular esquerdo ensanguentado e vermelho. Toro não consegue identificar o policial que atirou nele, mas acredita que, ter sido atingido no olho por uma bala, não foi um acidente.


Albano Toro Cardenas foi atingindo nos olhos por um tiro disparado pelas forças de segurança nos olhos

“Isso mudou minha vida. Não voltei à vida normal, não posso sair de casa. As dores de cabeça, o estresse e o trauma são severos”, diz ele.

"Estamos em crise. Todos nós somos afetados - pessoas pobres, trabalhadores, empresários. Eu estava protestando através da ajuda aos feridos, e é isso que tenho que pagar.”

Cristian Correa, consultor jurídico de uma comissão no Chile responsável por identificar os desaparecidos durante a ditadura, diz que o nível de violência policial é "realmente preocupante".

“Quando você lê sobre o tipo de abuso, é coisa que me lembra a ditadura. Não vejo muita diferença entre esses relatórios e aqueles sobre a conduta da polícia durante a ditadura”, acrescenta.

O diretor dos Carabineros, general Mario Rozas, disse que há 856 investigações internas em andamento relacionadas aos relatórios.

O presidente do Chile, escrevendo no The New York Times, disse:

“Durante esses tempos difíceis e violentos, quando lutamos para restaurar a ordem e a segurança públicas, nosso governo tomou todas as medidas e precauções necessárias para garantir o máximo respeito pelos direitos humanos de todos nossos cidadãos.

Há evidências de abusos e uso excessivo da força, mas concedemos ao nosso, autônomo, Instituto Nacional de Direitos Humanos acesso total para cumprir seu mandato legal na proteção de direitos humanos".

Mas à medida que os dias passam e algumas partes do país retornam a um senso de normalidade, a brutalidade parece ter se tornado parte da vida aqui.

Em dezembro, imagens de vídeo compartilhadas nas redes sociais mostraram um homem de 20 anos sendo atropelado por veículos da polícia em Santiago. O oficial que dirigia o veículo foi indiciado.

Para os milhares que enfrentaram a repressão diretamente, o dano é sentido como irreparável e as palavras do Estado pouco ajudam.

"Quero dizer ao resto do mundo, não nos abandonem. Não se esqueçam de nós. No Chile, eles estão nos mutilando ”, diz Toro.

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*Publicado originalmente no The Independent | Tradução de César Locatelli em Carta Maior