Globalização em tempos de pandemia (II) | Pablo Jofre Leal

Globalização em tempos de pandemia (II) |  Pablo Jofre Leal

Por Pablo Jofre Leal

Eu me perguntava, na primeira parte deste trabalho, quem está governando este mundo?...primeiro e principalmente os mercados financeiros dos Estados Unidos, Japão e da Europa dos 28, que representam o primero poder.

Seguem ao mecionado poder, as corporações internacionais nesta época, principalmente as tecnológicas, ajudadas por suas empresas de mídia (onde a presença sionista é majoritária) e que têm a capacidade de construir os mecanismos que manipulam e criam uma realidade de acordo com as necessidades desses mercados financeiros globais. Tudo isso é marcado pela supremacia dos Estados Unidos, que tem dominado o planeta nos últimos 30 anos, em todos os campos onde estabeleceu seu domínio como uma hiperpotência, revigorada pela derrota de seu antigo inimigo. Embora, tenhamos em mente, que há cinco anos esse domínio tem sido desafiado pela presença da República Popular da China, da Federação Russa e de potências emergentes, desconfortáveis nessa camisa de força chamada globalização.

Uma globalização com características bem definidas:

1. Preeminência no campo político, onde sua ação hegemônica substituiu o papel que a comunidade internacional havia depositado na Organização das Nações Unidas desde 1945

2. No campo econômico e financeiro, capaz de competir e superar até mesmo um grande bloco de países, como a União Européia, com 28 membros. A vantagem está também em relação ao Japão e sua área natural de influência na Ásia Oriental. Insisto, com a presença relevante da China como uma referência econômica internacional.

3. No aspecto tecnológico, predominando sem concorrente na Internet. Eles têm as principais indústrias tecnológicas (partes desta "Nova Economia") que substituíram a economia tradicional em termos de capitalização bolsista. Os Estados Unidos normalmente se reservam um aparente "direito" de proteger seu setor tecnológico, usando razões de segurança para fazê-lo. Mas os "outros", ou seja, nós, estamos sujeitos tanto à sua espionagem quanto ao controle tecnológico, às pressões econômicas, como demonstram as sanções contra a China e suas indústrias tecnológicas, como foi o caso da empresa Huawei.

4.No campo político-cultural, a McDonaldização representa a expansão do modelo americano de vida e visão de mundo, ajudado com sucesso pelo domínio que exerce no campo audiovisual - com capital de grupos sionistas que ligam essa visão de mundo aos interesses dessa ideologia. Lembremos que houve todo um processo de consolidação desse domínio cultural através de vários marcos: a vitória da indústria cinematográfica de Hollywood na fase final da Rodada Uruguai do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT, em inglês), em 1992.

Nesses encontros, a velha Europa submeteu-se às exigências dos Estados Unidos, o que evitou um fortalecimento do que o Império chama de "Medidas Restritivas" em relação à idéia de ter cotas para obras nacionais. Eles vincularam o audiovisual ao desenvolvimento de novos serviços de comunicação e telecomunicações - desregulamentando-os - e também permitiram a aliança dos investimentos estadunidenses na Europa.  

Uma superioridade que foi expressa e tecida, nestes 30 anos, sob o argumento da Nova Ordem Mundial. Em dois campos de batalha: o Acordo Multilateral sobre Investimento - MAI - como na Organização Mundial da Propriedade Intelectual - OMPI - onde os Estados Unidos fizeram prevalecer os direitos autorais sobre o direito moral de criação e em todas essas reuniões de organismos internacionais. Ali, ou a visão dos Estados Unidos é imposta ou ameaça se retirar, como aconteceu com a Corte Penal Internacional, a UNESCO, não cumprir os acordos assinados, como o Plano de Ação Conjunta Global (JCPOA), seu abandono do Tratado INF (sobre mísseis de curto e médio alcance com carga nuclear) com a Rússia, entre outras ações frente a decisão russa de ir contra essa política imperial.

No plano militar, somente o nível de seu orçamento, autorizado pelo Congresso americano no ano fiscal de 2019 - mais de 730 bilhões de dólares - nos permite visualizar a magnitude de sua potencia nuclear e convencional, novas linhas de pesquisa, armas biológicas e químicas (onde podemos localizar perfeitamente a Covid-19) e a intervenção em amplas regiões do mundo. A partir de 1991 no Iraque, depois na Sérvia, Afeganistão, novamente no Iraque em 2003 e sua estratégia de caos premeditado, que tem tido sua expressão prática novamente no Iraque desde 2003, a invasão da Líbia, apoio a grupos terroristas na guerra de agressão contra a Síria a partir de 2011. Apoio permanente ao Sionismo em sua política de colonização e ocupação da Palestina. Cumplicidade na agressão contra o Iêmen e nas políticas de sanções, bloqueios e embargos contra Cuba, Coréia do Norte, Venezuela, Federação Russa e República Islâmica do Irã.

Os Estados Unidos são a única potência que possui frotas de guerra em todos os mares e oceanos do mundo, 800 bases militares nos cinco continentes e a capacidade técnica, logística e militar para dar golpes onde seu "dedo divino" aponta. Por isso é patético ouvir as declarações alarmistas dos líderes políticos e militares norte-americanos, quando tentam acusar a Rússia de expandir sua presença militar no mundo. O ataque à Sérvia nos anos 90, as agressões contra a Líbia, Síria, suas políticas sancionadoras contra Venezuela, Cuba, República Islâmica do Irã, tudo isso serviu para que Washington demonstrasse seu absoluto desrespeito ao direito internacional.

Uma ação que permite que os Estados Unidos sejam catalogados como violadores do direito internacional, com acusações de crimes contra a humanidade e que, na situação atual, prevalece o terrorismo médico. Acusação feita pelas autoridades iranianas, tendo em vista sua política de máxima pressão contra a nação persa, impedindo uma luta eficaz contra a Covid-19 ao impedi-lo de comprar kits de teste de coronavírus, acesso a equipamentos médicos e até mesmo fundos fornecidos por organizações financeiras internacionais. Oito países, incluindo China e Rússia, advertiram em carta ao Secretário Geral da ONU sobre o impacto negativo das sanções nos esforços internacionais para conter o vírus mortal, e a conduta dos EUA tem invariavelmente a intenção de dar uma "lição" a qualquer um que ouse desobedecer às suas ordens.  Portanto, o chamado vindo das trincheiras antiamericanas é criar uma frente comum para destruir esse unilateralismo, que tanto prejuízo causa ao mundo.

Esta realidade, que causa tantos danos no mundo, está sendo questionada com um catalisador inesperado, que emerge do campo das doenças: a Covid-19, que está sacudindo as estruturas políticas, econômicas e sociais do mundo. Uma pandemia que deu origem, como nunca antes, a conceitos como solidariedade, cooperação, o fim das sanções contra aqueles a quem as grandes potências sujeitaram a pressões que contribuem para uma catástrofe humanitária. Uma pandemia que põe em questão esta globalização onde a desregulamentação tem sido seu signo predominante. Uma globalização que serviu para tornar o mundo facilmente contagioso, que também tornou visível a fraqueza dos países que minimizaram seus sistemas sanitários, baseada na privatização, o que transforma um direito social em uma mera mercadoria.

 

O vírus da Covid-19 está corroendo as estruturas internas do capitalismo, mostrando suas fraquezas, revelando a profunda desigualdade entre aqueles que podem suportar uma pandemia em sua opulência e aqueles que ficam desprotegidos, diante da fome, sem trabalho, sujeitos aos altos e baixos e às decisões dos governos mais focados na defesa das superestruturas, do mercado, do empresáriado global do que de seus cidadãos. Um modelo capitalista que deve ser combatido com a mesma força com que esse vírus mortal é atacado. Até a diretora executiva do FMI, Kristalina Georgieva, foi forçada a mencionar que os custos humanos da pandemia do coronavírus já são imensuráveis e que todos os países devem trabalhar em conjunto para proteger as pessoas e limitar os prejuízos econômicos.

Agora é o momento de agir em solidariedade, como os líderes ao redor do mundo têm dito muitas vezes. Palavras que até agora têm deixado de fora países como Venezuela e Irã porque as diretrizes criminosas do governo Trump, por exemplo, se recusam a ir em apoio internacional a esses dois países, em um claro crime contra a humanidade. Combaetr a Covid-19 coloca nossas sociedades em ação, trazendo o pior e o melhor dos seres humanos e questionando a forma como conduzimos nosso planeta nas últimas décadas. Este patógeno da família Coronavirus gera centenas de milhares de infecções, dezenas de milhares de mortes e uma catástrofe financeira. Em uma pandemia que não tem data final e que colocou hoje, como o primeiro na lista de infectados, os Estados Unidos, que também soma milhares de mortes que crescem exponencialmente.

Estamos em uma crise, mas diferente daquelas que vivemos neste século XXI. Como a do início do novo milênio, a chamada "ponto.com" relacionada à bolha especulativa com as empresas ligadas à Internet. Diferente da crise financeira global de 2008, desencadeada pela bolha imobiliária, que começou nos Estados Unidos em 2006 e terminou em outubro de 2007, causando uma profunda recessão durante boa parte do ano seguinte. Hoje, o agente catalisador, o patógeno, é diferente; chama-se covid-19, mostrando a enorme fragilidade de todo o sistema econômico em que estamos inseridos

Uma crise pandêmica, política, econômica, de saúde, que nos obriga a repensar o mundo que está chegando até nós. Com uma característica comum a todas as crises mencionadas: será o Estado que estará novamente salvando os países, as empresas, inclusive as que costumam atacar esse Estado em tempos de vacas gordas. Aquele Estado que mais uma vez vem em socorro das economias, mesmo daqueles países onde suas classes dirigentes o amaldiçoam. A Covid -19 está mudando os dogmas predominantes, mostrou que sem serviços de saúde pública fortes, a morte está mais próxima. Os europeus sentem falta desse Estado de bem estar social, que suas castas políticas deterioraram.  As discussões de hoje parecem ser típicas dos defensores do estatismo, conceitos como o fim dos ajustes fiscais, o estabelecimento de salários dignos garantidos e até mesmo a nacionalização aquilo que a maré de privatização permitiu enriquecer a alguns poucos estão sendo impostos na agenda política.

A experiência histórica dos países afetados pelas políticas do FMI nos leva à conclusão (baseada na experiência empírica) de que o número de vítimas do neoliberalismo é e será sem dúvida milhões de vezes maior do que o das vítimas do Covid-19, o que indica, então, uma vez terminada essa batalha circunstancial, concentrar nossos esforços na derrota definitiva desse capitalismo brutal, que cambaleava e que uma sintomatologia de dores de cabeça, febres, tosse seca e problemas respiratórios parece ter sido a arma que marcará sua derrota definitiva. Para que isso aconteça, é preciso solidariedade, para recuperar uma humanidade perdida no individualismo, de um modelo de sociedade que despreza o social em termos de sucesso individual. Esta crise pandêmica pode ser um passo firme para mudar este único mundo que possuímos e matar de uma só vez este vírus chamado capitalismo.

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Pablo Jofre Leal é jornalista e escritor chileno. Analista internacional, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Complutense de Madri.

Originalmente em Telesur