Golpe no Mali, um cartão postal africano | Guadi Calvo

Golpe no Mali, um cartão postal africano | Guadi Calvo

Por Guadi Calvo

Na manhã da terça-feira, 18, após a saída de várias caminhonetes com homens armados comandados pelo coronel Assimi Goita da base militar de Soundiata perto da cidade de Kati, no distrito de Kulikoró, cerca de doze quilômetros ao norte da cidade de Bamako, capital do Mali, iniciou-se uma rápida troca de tiros entre o guarda e os invasores que se reconheciam membros do Comitê Nacional para a Salvação do Povo (CNSP), também militares do exército. Rapidamente, a confusão se evidenciou, os arsenais foram preparados, as tropas foram armadas e a coluna invasora voltou a sair para a capital, com mais dez caminhões, carregados com tropas fortemente armadas.

O evento deu início a um novo golpe no país africano, o último ocorreu em 2012, agora aquela nação, acossada ao norte, pela violência wahhabi, de diferentes organizações ligadas à al-Qaeda e ao Daesh, ao centro, a sempre latente guerra tribal entre pastores nômades Fulani, também conhecidos como fazendeiros Peuls e Dogon, à qual se deve somar a instabilidade política, gerada pelos constantes protestos populares, que durante meses colocaram o governo, do agora destituído presidente Ibrahim Boubacar Keïta ou IBK, como é popularmente conhecido, à beira do abismo,  que acabou caindo junto dos seus 20 milhões de compatriotas, apesar de várias vezes ter sido apontado como modelo de democracia na região.

Na terça-feira à noite IBK anunciou sua renúncia ao cargo, que havia assumido em 2013, com vitória próxima a 77 por cento dos votos e reeleito por mais cinco anos em 2018. O presidente deposto já havia sido preso, junto com o O Primeiro Ministro Boubou Cissé, o Ministro das Finanças Abdoulaye Daffe e seu filho e também o deputado Karim Keïta em sua casa em Sebenikoro, o “distinto” distrito da capital.

O presidente deposto foi também obrigado a anunciar a dissolução da Assembleia Nacional para evitar que o comando fosse reclamado por Moussa Timbiné, o presidente daquele órgão legislativo.

A notícia da prisão do presidente fez com que as ruas da capital se enchessem de manifestantes que saíram para comemorar a queda de um governo que já carecia de todo tipo de apoio, devido às fortes suspeitas de corrupção, equívocos econômicos e os péssimo tratamento da guerra contra o terrorismo fundamentalista, que desde 2012 não parou de se expandir pelo norte do país, transbordando as fronteiras de Burkina Faso e Níger. Durante 2019, o exército do Mali sofreu baixas significativas, os ataques do Jamāʿat nuṣrat al-islām wal-muslimīn (Frente de Apoio ao Islã e Muçulmanos) ou JNIM, afluentes da Al-Qaeda e os signatários do Daesh ou "Daesh do Grande Saara" (ISGS) que obrigou o alto comando do Mali a abandonar vários postos no norte do país. As baixas em 2019, cerca de 4 mil, quintuplicaram desde 2016, e a projeção até agora, em 2020, já ameaça ultrapassar em muito o último recorde.

A este amplo espectro de conflitos, deve-se agregar a situação crítica dos funcionários e professores do Estado, que,  dadas as restrições da Pandemia, o governo decidiu fechar diversos órgãos e escolas, ampliando muito, o que até recentemente era 43% por cento da população, que segundo o Banco Mundial, vivia com menos de dois dólares por dia.

Os protestos sociais começaram após as denúncias de fraude após as eleições legislativas de março e abril, impulsionadas pelo imã fundamentalista Mahmoud Dicko, conhecido como o "ímã do povo", ele é um jogador veterano da política no Mali, ex-aliado de IBK, que presidiu o Alto Conselho Islâmico de 2008 a 2019 e que em junho passado, liderou as massivas mobilizações antigoverno.

O golpe de estado pareceu (?) "surpreender" muitos aliados ocidentais do país saheliano, mas particularmente ao Palácio do Eliseu, já que a França, a ex-metrópole, com a qual mantém laços econômicos, militares e políticos muito próximos, tem contatos fluidos em todos os níveis daquele país, especialmente nas forças armadas. A França, desde 2012, mantém cerca de 5.000 militares, além de outros 3.000 do Reino Unido, Espanha, Estônia, Dinamarca e República Tcheca, como parte da Operação Barkhane, que luta contra terroristas no norte do país e é muito difícil de acreditar que a inteligência francesa, que opera livremente em todo o país, não tenha sido capaz de detectar nada sobre o golpe que se aproximava, portanto, deve-se suspeitar, que ela apenas permitu acontecer e que suas declarações atuais são apenas pour la galerie. Foi divulgada a informação de que o presidente francês Emanuel Macron teve uma longa conversa por telefone com o agora destituído IBK, para avaliar a situação, ao mesmo tempo que se comunicava com outros chefes de estado da região, como Alassane Ouattara, da Costa de marfim, Macky Sall do Senegal e do nigeriano Mahamadou Issoufou. A situação também foi discutida a portas fechadas no Conselho de Segurança das Nações Unidas, visto que a ONU mantém uma missão militar no Mali de quase 16.000 homens.

Além disso, o levante foi condenado pela União Africana, pelos Estados Unidos e pela Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), bloco do qual participam cerca de quinze nações da região.

"Um prazo razoável."

A falta de uma resolução imediata no golpe contra o presidente Amadou Touré em 2012, também iniciado por Kati, possibilitou a revolta do povo tuaregue, em busca de seu ancestral território Azawad. Essa rebelião, que não foi a primeira e certamente não será a última, permitiu a chegada ao norte do Mali de várias organizações armadas wahabitas, que atuavam principalmente na Argélia e na Mauritânia, que com a recente queda de seu grande inimigo, o coronel Mohammad Gadaffi, se sentiram livres para iniciar a escalada de uma guerra, que oito anos depois ainda seguem ganhando, enquanto as demandas tuaregues continuaram sendo adiadas.


Hoje a situação, para além de alguma coincidência, não parece ser a mesma de 2012, os golpistas já têm um dirigente, o coronel Goita, que se dirigiu à população apelando à união sob as bandeiras do Comitê Nacional para a Salvação do Povo (CNSP), entidade que tenta dar estrutura da política ao golpe, aos partidos políticos e à sociedade civil, para aderir a um movimento que se considera de transição tendo em vista as futuras eleições que serão, segundo os militares em "um tempo razoável". Rapidamente, a organização de oposição ao ex-presidente IBK, M5-RPF saudou o golpe e se declarou disposta a trabalhar junto com os golpistas para uma transição política. Nada foi dito sobre o destino de um número significativo de militares que aguardam julgamento por sua responsabilidade em torturas e desaparecimentos forçados no âmbito da guerra contra o terrorismo, talvez um elemento que será levado em conta na catalogação as intenções do novo governo.

É muito importante observar a partir de agora a atitude das organizações armadas fundamentalistas, que sem dúvida tentarão permear as mentes dos novos dirigentes militares, embora se desconhece com que animosidade chega o jovem coronel diante da guerra contra o terrorismo.

Ao mesmo tempo, além das fronteiras do Mali, em países como o Senegal, Costa do Marfim e Guiné, seus governos estão vivendo crises semelhantes a que antecedeu o golpe na base militar de Soundiata. Que não se torne um irreprimível o sangrento efeito dominó, que arrastaria outras nações do continente a um processo que se acreditava ter sido superado e o golpe não seja mais que um cartão postal africano.

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Guadi Calvo é escritor e jornalista argentino. Analista internacional especializado em África, Oriente Médio e Ásia Central.