Líbano: Mais dúvidas que certezas | Valeria Rodriguez

Líbano: Mais dúvidas que certezas  | Valeria Rodriguez

Por Valeria Rodriguez 


Após a explosão do hangar nº 12 no Porto de Beirute na terça-feira (4), muitas hipóteses foram levantadas, razão pela qual o Presidente libanês Michel Aoun solicitou imediatamente uma investigação que produzirá os primeiros resultados dentro de alguns dias.

Logo após a explosão, vários meios de comunicação afirmaram que tinha sido num armazém de armas do movimento de resistência Hezbollah, o que foi rapidamente negado pelo governo. Mais tarde, a revista americana Newsweek sustentou que esta falsa noticia fazia parte de uma campanha dos meios de comunicação sauditas.

A intenção de culpar o Hezbollah é chave e convém a muitos dos atores que possam estar envolvidos.

As tensões no sul do Líbano entre o Hezbollah e Israel vêm aumentando e na semana passada um ataque frustrado do exército israelita às fazendas de Shabba os deixou em situação ridícula.

Além disso, a explosão ocorreu três dias antes do veredicto do julgamento internacional pelo assassinato do antigo primeiro-ministro Rafik Hariri há 15 anos.

A propósito, o Hezbollah tinha sido responsabilizado por isto, e uma série de vídeos mostrou que não tinha havido qualquer interferência, mas que Israel e Arábia Saudita foram os autores.

A segunda e mais forte hipótese foi a explosão devido à presença de 2750 toneladas de nitrato de amónio, que é utilizado como fertilizante mas entra em combustão em grandes quantidades.

Esta hipótese pressupõe a corrupção e a negligência do Estado desde que foram armazenadas em 2013.

Segundo a agência libanesa Al Nashra, em 2013 um navio com uma bandeira georgiana chamado "Rhoussos", cujo destino era a Zâmbia atracou no porto de Beirute onde confiscaram o nitrato de amônio porque não tinham a segurança para o transportar.

O navio foi retirado mas os contêineres não, de acordo com os mesmos meios, os funcionários do porto pretendiam revendê-los.

O que é surpreendente é que o Estado nunca se encarregou da situação e isso levou a milhares de acusações sobre a presença de materiais semelhantes em diferentes setores do porto.

Na terça-feira, operações de soldagem foram realizadas no hangar 12. Os funcionários dizem que as atividades foram realizadas entre as 17 e as 18 horas de terça-feira, enquanto a explosão foi às 20:08 horas.

A terceira e mais interessante hipótese é um ataque externo a partir dos vídeos da explosão que se tornaram virais.

Nas imagens, um cogumelo expansivo semelhante ao de uma bomba nuclear pôde ser visto; alguns especialistas libaneses compararam-no ao ataque à central de Chernobyl.

Mas uma série de imagens do deserto sírio chamou a atenção, uma vez que ali Israel tinha testado um novo míssil cuja onda de choque era semelhante à do porto.

Na quinta-feira, enquanto Macron visitava a zona da catástrofe, Aoun o pediu que ajudasse na investigação, entregando-lhe imagens de satélite do porto para verificar se esta hipótese podia ser viável.

Macron disse que era importante conduzir uma investigação internacional, embora a administração libanesa tenha se recusado a fazê-lo, embora tenha aceitado a ajuda do presidente francês.

Por outro lado, chamou a atenção para as declarações de Macron durante a sua caminhada pelos escombros.

"Estou aqui para ajudar pessoas além do governo", disse ele, acrescentando que estava empenhado em ajudar financeiramente o Líbano se houvesse uma reforma política.

Imediatamente, o Primeiro-Ministro Hasan Diab (que pediu demissão) propôs eleições antecipadas e um membro do partido Kateeb (falanges libanesas) renunciou.

Na sexta-feira (7) à noite, aconteceu uma série de manifestações violentas nas instalações de vários ministérios. Alguns meios de comunicação social afirmaram que eram liderados por ex-militares libaneses.

Entretanto, o Secretário-Geral do Hezbollah Sayed Hasan Nasrallah fez um discurso apelando à unidade libanesa, um pedido semelhante ao que foi feito em novembro quando também houve uma série de protestos pela crise econômica no país.

A explosão deixou mais de 150 mortos, mais de 5.000 feridos e 300.000 desabrigados, bem como danos materiais de mais de 5 bilhões de dólares.

***

Valeria Rodríguez é analista internacional e co-apresentadora do programa "Feas, Sucias y Malas" da Rádio Gráfica, de Buenos Aires, Argentina.