Morales e Arce têm chances de superar as forças de direita e desfazer a mudança de regime na Bolívia

Morales e Arce têm chances de superar as forças de direita e desfazer a mudança de regime na Bolívia

Por Ekaterina Blinova,

As tensões vem aumentando com a proximidade da eleição geral boliviana e com o Movimento para o Socialismo (MAS) de Evo Morales ganhando força no país, apesar da pressão do governo atual. Alberto Echazu, jornalista da plataforma de mídia La Resistencia Bolivia, lança luz sobre os acontecimentos mais recentes em La Paz.

A Bolívia assistiu a deposição do ex-presidente Evo Morales em novembro de 2019 em meio a uma turbulência social provocada por uma suposta fraude eleitoral. Agora, o país vai às urnas novamente e o dia 3 de fevereiro marcou o prazo final para a indicação dos candidatos presidenciais.

Em preparação para as novas eleições gerais, o governo de Jeanine Añez convidou representantes da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) que tinha sido expulsa da Bolívia em 2013 e a Organização dos Estados Americanos (OEA) para monitorar a votação prevista para 3 de maio.

Apesar da repressão de La Paz ao MAS de Evo Morales e à mídia da oposição, o partido continua a ter apoio geral entre os bolivianos, com seus candidatos à presidência e vice-presidência Luis Arce e David Choquehuanca liderando as pesquisas por uma margem considerável. Segundo algumas pesquisas de fevereiro, Luis Arce recebeu entre 26 e 37% das intenções de voto, enquanto seu candidato mais próximo, o candidato de direita Luis Fernando Camacho, tinha entre 11 e 17%.

 

Bolivia's MAS presidential candidate, Luis Arce, is being carried through the streets of La Paz on the shoulders of supporters. No other candidate is getting these crowds. pic.twitter.com/fFPWJ4c9fN

— Ollie Vargas (@OVargas52) February 3, 2020

 

O Governo de Anez mira no candidato do MAS

O governo de facto de Jeanine Anez está insatisfeito com esse estado de coisas e tenta jogar areia nas engrenagens do MAS, diz Alberto Echazu, jornalista do canal de esquerda La Resistencia Bolivia.

"Primeiro, eles tentaram impugnar todo o partido e, não tendo conseguido, agora tentam proibir a candidatura presidencial de Luis Arce", observa o jornalista. "Outro ato claro de violação foi o início de um processo para retirar pessoas do registro eleitoral, especialmente nas áreas rurais, onde o MAS domina completamente a votação. Esta é uma tentativa clara de reduzir a votação do MAS, pois sabem que a vitória do MAS em primeiro turno é uma possibilidade real".

Em 21 de janeiro, o promotor boliviano Heidi Gila anunciou uma investigação de corrupção contra Luis Arce acusando-o de suposta apropriação indébita do Fundo de Desenvolvimento dos Povos Indígenas e Agricultores (FONDIOC) em 2015, enquanto servia como ministro da Economia e Finanças do país. Em 29 de janeiro, quatro dias antes do prazo final de inscrição dos candidatos, Arce foi convocado para testemunhar na Procuradoria Geral da República. A audiência foi adiada depois que a equipe de defesa legal do candidato presidencial do MAS solicitou tempo para revisar os documentos.

 

Bolivia's MAS candidate, Luis Arce, has just been released after giving evidence on the fake charges against him. It's understood that the hearing has been suspended.

He was held aloft by supporters outside. International pressure will be important in keeping him out of jail. pic.twitter.com/HOMbz5q77y

— Ollie Vargas (@OVargas52) January 29, 2020


Arce denunciou a investigação como aparente tentativa do governo interino de direita de expulsá-lo da corrida presidencial de 2020. Ele chamou a atenção para o fato de que o caso de corrupção foi iniciado imediatamente após ele ser escolhido pelo MAS como candidato, em 19 de janeiro.

"As acusações não tem fundamento, já que a maioria delas foi movida contra ex-autoridades, líderes do partido e militantes", diz Echazu. "Os responsáveis pelo caso FONDIOC foram presos pela administração Morales, principalmente a ministra do Desenvolvimento Rural e da Terra, Nemesia Achacollo. Arce não tem nada a ver com este caso. O efeito dessa investigação na campanha de Arce poderia ser o impedimento para realizar a campanha de maneira normal, não podendo cruzar o território nacional, como é de acostume na Bolívia ".

Segundo o jornalista, "se o caso acabar colocando sua disputa presidencial em questão, isso significaria a confirmação escandalosa da perseguição política aos olhos da comunidade internacional e a tentativa de boicotar a candidatura do MAS, criando grande indignação entre o povo, seria um grande erro da parte deles ".

Por que Morales está concorrendo ao Senado boliviano

Enquanto isso, o ex-presidente boliviano Evo Morales, que recebeu asilo político na Argentina, anunciou que concorreria ao Senado, apesar do governo em La Paz emitir um mandado de prisão, acusando o ex-presidente de sedição e terrorismo.

Em entrevista ao jornal argentino La Nacion, em 31 de janeiro, Morales explicou sua decisão de participar da votação legislativa boliviana: "Os Estados Unidos estão me tendo como alvo, e lembro-me perfeitamente do que aconteceu na Líbia e no Iraque", disse ele em clara referência ao destino de Muammar Kadafi e Saddam Hussein. "Essa é uma das razões para ser candidato às eleições gerais de [3 de maio] - para me proteger dessas ameaças". Segundo Echazu, essa é uma decisão interessante e ousada, pois "[Morales] poderia liderar os legisladores do partido de uma maneira que o país nunca teria visto antes quando era parlamentar, mesmo que a decisão venha com o risco de detenção após sua chegada na Bolívia ".

"Uma vez eleito senador, ele tem imunidade parlamentar", explica o jornalista. "Se Morales for eleito senador (se sua candidatura não for proscrita), isso significaria uma mudança histórica no regime presidencial típico da Bolívia e da América Latina, fazendo dele a figura principal no futuro governo, mesmo sem ser presidente".

O jornalista observa que a situação internacional parece estar mudando a favor de Morales. No início de janeiro, o governo Añez informou que a Interpol ativou um mandado de prisão internacional contra Morales. No entanto, em 29 de janeiro, a Interpol notificou La Paz que seu pedido de mandado de prisão contra Morales por alegado "terrorismo e sedição" foi rejeitado por não atender ao estatuto da organização.

"Acredito que essa decisão inesperada da Interpol de rejeitar o pedido de prisão responda ao fato de que o governo não foi cauteloso com sua imagem internacional e eles estão sendo vistos como tendo assumido o poder por meio de um golpe", acrescenta Echazu.

*Ekaterina Blinova é jornalista 

Origialmente em Sputinik Mundo