O 25 de Ventoso de Jair Bolsaparte

O 25 de Ventoso de Jair Bolsaparte

Por Marcelo Zero,

Jair Bolsonaro, insatisfeito com os limites constitucionais e democráticos impostos ao exercício de poder na presidência da República, lançou, pelas milícias digitalizadas, sua candidatura a Imperador do Brasil.

Sua inspiração, contudo, não vem de Pedro I ou Pedro II, mas sim de Napoleão Bonaparte. Bolsonaro parece pretender fazer, no próximo dia 25 de Ventoso (no calendário da Revolução Francesa-15 de março, no calendário gregoriano), o mesmo que Napoleão fez no 18 de Brumário de 1799: dar um golpe.

Entretanto, a diminuta envergadura moral, intelectual e histórica do candidato a ditador o aproxima mais de outro Bonaparte, o sobrinho Luís, que repetiu a história como farsa corrupta.

Como Jair, candidato a Pedro III, Luís Bonaparte fora antes eleito deputado e presidente da República antes de dar o golpe de Estado e proclamar-se Napoleão III, também chamado de “Napoleão, o Pequeno”, por Victor Hugo.

Se guardadas as devidas proporções, Victor Hugo chamaria nosso aspirante a Luís Bonaparte de “Napoleão, o Microscópico”. E, caso Hegel vivo estivesse, ele diria que a história ocorre a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa e a terceira como caricatura.

Não obstante, mesmo seres microscópicos, como coronavírus e amebas, podem causar danos gigantescos, caso encontrem ambiente adequado à sua reprodução. Já houve até o caso de um cabo do exército alemão que conseguiu mergulhar o mundo na pior tragédia da história e matar dezenas de milhões de pessoas. Encontrou apoio para sua empreitada lunática. 

Nosso microscópico capitão, nosso coronavírus da democracia, também. 

Seres microscópicos costumam reproduzir-se bem em matéria putrefata. No caso de Jair Bolsaparte, ele alimentou-se da putrefação da democracia brasileira. 

Essa putrefação começou com o golpe de 2016 e consolidou-se com o apoio decidido que Bolsonaro recebeu para derrotar a saudável candidatura da civilização e da democracia, em 2018.

Os alarmados de hoje, mesmo sabendo perfeitamente do caráter odioso e da natureza abjeta do candidato da extrema-direita, que sempre foi misógino, racista e um dedicado defensor de ditaduras e torturadores, apoiaram a ascensão ao poder de um notório crápula, que, em condições normais de temperatura e pressão, jamais teria passado de um obscuro deputado do baixo clero.

Pensavam, creio, que poderiam controlá-lo e domesticá-lo. Vê-se, agora, que isso é impossível. Não se controla um fascista, ainda mais um fascista acuado por sérias denúncias de corrupção e de ligação com “escritórios do crime”. 

Bolsonaro deixou de ser mera ameaça verbal. Bolsonaro cruzou o Rubicão. 

A estarracedora revelação de que o supremo mandatário da Nação, que deveria ser o primeiro a zelar pela ordem democrático-constitucional, contra ela conspirou, ao divulgar convocação para manifestações contra o Congresso Nacional e o STF, é demonstração cabal de total falta de preparo para o exercício do alto cargo e prova irrefutável de crime de responsabilidade. 

Esse crime do presidente da República ocorre no momento em que militares com cargos elevados em seu governo agridem as instituições democráticas e no quadro de motins de setores radicalizados e milicianos da Polícia Militar contra governos estaduais eleitos, configurando cenário alarmante de ameaça grave e explícita contra a democracia brasileira, em todos os níveis. 

O crime de responsabilidade é cometido também numa conjuntura em que as investigações sobre corrupção na família Bolsonaro ganham corpo. Assim, as manifestações convocadas pelo próprio presidente da República visam acuar as instituições que podem investigá-lo e lançar uma cortina de fumaça sobre as sérias acusações. 

Bolsonaro, o candidato a ditador/imperador, sonha em acabar de vez com o que restou da democracia brasileira. Sonha com nosso pesadelo. Não quer diálogo, não quer conciliação. Quer se impor pelas agressões e pelo confronto. Não quer governar para todos os brasileiros, quer governar para sua claque digital, apoiado em militares e nas milícias armadas.

Num ambiente de crise institucional e de insegurança, e na ânsia de reprimir quaisquer oposições à agenda ultraneoliberal, uma “solução” autoritária poderia ser absorvida, como o foi na França de 1851. O “mercado” e o Departamento de Estado topariam qualquer coisa. 

A reação das “instituições democráticas”, já muito desgastadas e impopulares, pode ter vindo tarde demais. Os corvos foram bem alimentados e podem comer os olhos daqueles que se julgavam seus donos.

No 25 de Ventoso, o que restou da democracia brasileira deverá passar por um duro teste, teste que deverá se prolongar por todo o ano.

Veremos para qual lado os ventos da história soprarão. 

Os ventos de março poderão fechar o curto verão da nossa democracia ou varrer o coronavírus da democracia.

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Marcelo Zero é sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado