O contrato mercenário de Guaidó contra Maduro na Venezuela reflete a recompensa oficial dos EUA

O contrato mercenário de Guaidó contra Maduro na Venezuela reflete a recompensa oficial dos EUA

O contrato vazado entre Juan Guaidó e a firma mercenária Silvercorp USA se assemelha muito a uma recompensa da DEA pela cabeça do presidente Nicolas Maduro e membros do seu círculo interno, em março. O acordo autoriza tacitamente a eliminação de venezuelanos da classe trabalhadora em ações de esquadrão da morte propostas pela Silvercorp.

Por Alan MacLeod

Juan Guaidó esperava estar no Palácio Presidencial da Venezuela nesse  momento. Mas, a tentativa de invasão mambembe de 3 de maio por mercenários e membros da oposição nos EUA foi a última indicação das medidas desesperadas a que ele e seus companheiros recorreram. Os combatentes contratados sob seu nome foram imediatamente dominados na pacata vila costeira de Chuao por membros revoltados da Casa dos Pescadores Socialistas, e alguns dos mercenários altamente treinados pareciam literalmente se molhar de terror quando foram capturados.

Agora, um contrato de 41 páginas descrevendo os detalhes e as condições da tentativa de golpe foi divulgado. O material lança uma nova luz sobre o acordo entre Guaidó e a Silvercorp, a empresa americana de segurança privada que ele contratou. O autodeclarado presidente da Venezuela prometeu pagar a Jordan Goudreau, fundador da empresa sediada na Flórida, US$ 212,9 milhões para capturar, deter ou "remover" o presidente Nicolas Maduro e colocá-lo em seu lugar.

O contrato entra em detalhes sobre quais dos mercenários foram autorizados a se envolver em "ataques cinéticos" (ou seja, assassinar e matar). Primeiro nomeia uma série de organizações paramilitares como as FARC colombianas, e bizarramente, o Hezbollah, mas também na lista estão algumas "forças venezuelanas ilegítimas", que incluem quaisquer apoiadores armados de Maduro e do Presidente da Assembléia Constituinte, Diosdado Cabello.

 

Maduro e Cabello estão no topo de uma lista de alvos da Agência Americana de Combate às Drogas. Os EUA ofereceram US$ 15 milhões e US$ 10 milhões, respectivamente, pela captura, colocando efetivamente uma recompensa pelas cabeças do presidente eleito e do chefe do principal órgão legislativo de seu país.

O contrato assinado por Guaidó e Silvercorp também permite o assassinato de qualquer pessoa que eles considerem ser de "coletivos armados e violentos". Para um setor da oposição de classe alta da Venezuela, o termo " coletivo" é desumanizante e muitas vezes utilizado para designar qualquer pessoa da classe trabalhadora. Sindicalistas, manifestantes pró-governamentais, até mesmo qualquer um que ande de motocicleta é considerado parte de uma gangue armada e perigosa nas fantasias dos elitistas de pele clara do leste de Caracas. Portanto, o contrato permite essencialmente que a Silvercorp mate qualquer membro da base de apoio popular do governo impunemente.


 

Um Novo Esquadrão da Morte

Talvez mais preocupante, no entanto, é o que a Silvercorp imaginava ser depois de um golpe bem sucedido. O contrato estipula que a organização mercenária "se converteria em uma Unidade de Ativos Nacionais que atuaria sob a direção da Administração [Guaidó] para combater ameaças à estabilidade do governo, ameaças terroristas e trabalhar de perto" com outras forças de segurança.

Suas missões incluiriam, mas não estariam limitadas a, vigilância, operações secretas e programação de alvos. Em outras palavras, a Silvercorp se transformaria em um esquadrão paramilitar privado responsável apenas por Guaidó, esmagando qualquer oposição à sua ditadura, da mesma forma que os esquadrões da morte na Colômbia e em outros países latino-americanos operam há décadas.

A conexão dos EUA

O Secretário de Estado Mike Pompeo recentemente anunciou que seus planos para "restaurar a democracia" no país estavam "ganhando força" e previu que veríamos muito em breve uma mudança no governo. Outros planejadores da mudança de regime, como John Bolton, passaram o fim de semana twittando não tão enigmaticamente que um golpe estava prestes a acontecer.

A recompensa da DEA por Maduro e Cabello estava bem alinhada com o contrato Guaido-Silvercorp, incluindo a obsessão em matar ou capturar esses dois indivíduos especificamente, e a retórica incessante sobre serem traficantes de drogas. (O tráfico de drogas está muito menos presente na Venezuela do que em estados vizinhos alinhados com os EUA, como a Colômbia e o Equador, como reconhecem os relatórios oficiais dos EUA). Nos dias que antecederam a invasão da Silvercorp, Trump ordenou que a Marinha se posicionasse e navegasse para a Venezuela, supostamente para contrapor-se ao fluxo de drogas que nem existe.

O contrato também estabelece especificamente que o comandante da operação pode usar drones AC-130 e Predator. Essas plataformas de armamento são implantadas quase que exclusivamente pelos militares americanos, levantando ainda mais dúvidas. Será que eles simplesmente copiaram alguns documentos existentes nos EUA ou esperavam reforços?

Após o fracasso, Pompeo emitiu uma negação extremamente tímida, alegando apenas que, "não houve envolvimento direto do governo dos EUA" na operação. O Secretário de Estado confirmou que estava ciente de quem o financiava, prometendo "desempacotar" essa informação posteriormente.

 

Honra entre os ladrões

Uma revisão do documento sugere uma sensação de que Goudreau viu em Guaidó um otário a ser enganado. Apesar de cobrar quase um quarto de milhão de dólares por possivelmente um dia de trabalho, a Silvercorp também inseriu uma série de cláusulas e aumentos, incluindo um bônus de 10 milhões de dólares para uma missão bem sucedida. Os mercenários adicionaram juros sobre os pagamentos, e uma taxa de administração de dez por cento (portanto, mais de US$ 20 milhões) em todas as transações.

Entretanto, parece que os mercenários americanos acabaram sendo sendo feito de otários, pois Goudreau admitiu que o Guaidó não transferiu nem um centavo, nem mesmo a taxa de retenção, para ele desde outubro. "Eles continuaram prometendo pagar, semana após semana", disse Goudreau a uma emissora de TV em espanhol. Guaidó é famoso por não ser confiável com dinheiro, e é amplamente acusado de desviar dezenas de milhões de fundos de ajuda dos EUA. Por que seguir em frente com uma missão tão perigosa? Talvez ele estivesse cego pela perspectiva de um dia de pagamento maciço, arrecadando dinheiro tanto do DEA quanto da equipe do Guaidó.

Enquanto cobrava centenas de milhões de dólares, Goudreau também estava trocando seus próprios funcionários, prometendo pagar aos mercenários americanos agora detidos apenas entre 50 e 100 mil dólares para arriscar suas vidas pela operação, tudo isso enquanto ele ficava em sua casa na Flórida. Ainda não está claro quem foi o maior idiota da operação: Guaidó, Goudreau, ou os seus comparsas ingénuos.

 

Negativa Oficial

Em entrevista à CNN, o consultor político latino-americano de direita baseado em Miami, J.J. Rendon, confirmou que o contrato era genuíno. Por sua vez, Guaidó agora insiste que todo o projeto era uma operação "false flag" do governo. "Ninguém acredita nas suas mentiras", disse ele a Maduro via Twitter, no sábado.

No entanto, o valor da moeda política do Guaidó continua declinando. Uma pesquisa de dezembro realizada por uma empresa anti-Maduro constatou que ele tem 10% de aprovação e 69% de desaprovação entre os seus compatriotas. Isso foi antes de ele se recusar a renunciar ao seu papel de liderança em janeiro, depois de seu ano no governo ter expirado, encenando uma manobra publicitária embaraçosa e bem ridicularizada, na qual ele tentou e não conseguiu subir a cerca em torno do prédio da Assembléia Nacional. Mais tarde Guaidó "renunciou" ao seu próprio partido, optando por saltar antes de ser enxotado. Em meio ao seu constrangimento nacional, ele deixou o país para ser convidado de honra no discurso do Estado da União de Trump em fevereiro, onde recebeu uma ovação bipartidária de pé.

Enquanto Guaidó viaja pelo mundo pressionando por sanções, e realiza golpes e operações de terror em casa para alcançar o poder por meios absolutamente antidemocráticos, ele ainda não foi preso pelo governo da Venezuela. Mas, como seu último fracasso embaraçoso mostrou, uma das armas mais poderosas contra a oposição pode ser os atos bufões que o Guaidó comete rotineiramente enquanto homem livre.

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Alan MacLeod é acadêmico e jornalista. Redator da Mintpress News e colaborador da Fairness and Accuracy in Reporting (FAIR). Ele é autor de Bad News From Venezuela: Vinte anos de Fake News e desinformação.

Originalmente em The Grayzone