O coronavírus e o conflito na Líbia

O coronavírus e o conflito na Líbia

 

Por Valéria Rodriguez

Desde o início da pandemia, o continente africano é o que apresenta o menor número de casos e, como contrapartida em algumas áreas, temtido  mais mortes por conflitos internos do que devido à pandemia.

A União Africana, em seus relatórios diários, registrou 4368 casos nos países que compõem a união, que são 46.

Note-se que o relatório separa as cinco regiões norte, centro, sul, leste e oeste, com a região norte compreendendo Argélia, Egito, Líbia, Mauritânia, Marrocos e Tunísia com o maior número de casos (1.751 casos, 99 óbitos e 211 recuperados). Além desse fato, possui um dos conflitos mais complexos da região, pois afeta diretamente a União Europeia.

Líbia, o conflito que não acaba

Neste país do norte da África, após a morte de Kadafi em 2011, uma enorme crise está em andamento devido à balcanização do poder, que se tentou sanar após um acordo da ONU que formou o Governo do Acordo Nacional, mas isso acabou não resolvendo nada.

Atualmente, há uma disputa de poder entre dois lados principais, por um lado, o Exército Nacional da Líbia com Jalifa Haftar à frente, cuja sede fica na cidade de Tobruk, e controla a parte oriental e tem o apoio da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Estados Unidos.

Do outro, o Governo do Acordo Nacional, apoiado pela Organização das Nações Unidas, com sede em Trípoli, controla o nordeste do país.

Rússia, Turquia e Síria são os que tentam mediar entre partes e, inclusive no mês de janeiro, durante a tensão entre os Estados Unidos e o Irã, Putin viajou para a Síria e a Turquia, onde se reuniu com cada um dos líderes para falar sobre a questão da Líbia.

A principal questão nessa área tem a ver com a interrupção dos bombardeios e as tensões existentes entre facções que disputam as principais áreas de petróleo a leste da Líbia e a Rússia tem um forte interesse ali, já que a Gazprom, uma empresa russa, é a principal produtora de petróleo.

É por isso que em 14 de janeiro foi realizada uma reunião com Hafthar na Rússia para assinar um acordo de cessar-fogo, mas isso não pôde ser alcançado, embora um pouco mais tarde, através da ONU e pela pandemia, um cessar-fogo tenha sido alcançado.

Apesar disso, em 27 de março, o acordo foi quebrado novamente e as forças do Exército Nacional da Líbia bombardearam as forças do Governo do Acordo Nacional poir três vezes.

Em abril de 2019, quando o Secretário-Geral das Nações Unidas estava visitando Trípoli, o General Hafthar ordenou que cercasse a cidade e desde então 1.700 pessoas morreram, incluindo 300 civis, 15.000 ficaram feridas e mais de 130.000 ficaram desabrigadas.

Até o momento, a presença do coronavírus deixa 454 casos, 29 mortos e 77 recuperados no contexto de um conflito que parece não ter fim.

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Valeria Rodríguez é analista internacional e co-apresentadora do programa "Feas, Sucias y Malas" da Rádio Gráfica, de Buenos Aires, Argentina.