O legado de Fidel: médicos cubanos no combate à COVID-19 no exterior

O legado de Fidel: médicos cubanos no combate à COVID-19 no exterior

Por Ekaterina Blinova

A Brigada Médica Internacional Henry Reeve, de Cuba, tem sido bastante procurada em todo o mundo em meio à pandemia da COVID-19. O Dr. Manuel Limonta, vice-presidente da Academia Mundial de Ciências (TWAS) e um dos fundadores da biotecnologia em Cuba, explicou como o país conseguiu criar uma equipe eficiente de atendimento em eventos de desastres, apesar do ônus do embargo.

Profissionais cubanos de medicina para casos de desastres foram enviados para pelo menos 14 países até agora, incluindo Itália, Espanha e Andorra, onde estão lutando para conter o surto de coronavírus.

No entanto, os esforços heróicos dos médicos cubanos receberam pouco ou nenhum reconhecimento da grande mídia ocidental, que aborda a questão apenas para alertar que "a prática da ilha comunista de exportar trabalhadores médicos tem um lado sombrio" e que "permite que Havana explore a moeda forte do vírus apenas para fortalecer a repressão em dentro de suas fronteiras".

Décadas de trabalho humanitário de sucesso

No final de março, Cuba enviou 52 médicos e enfermeiros para a Itália, o país europeu mais atingido pela doença.

Os voluntários médicos do país, que estavam entre os primeiros a responder ao surto de COVID-19 em Wuhan, há alguns meses, também foram enviados para a Venezuela, Belize, Nicarágua, Haiti, Jamaica e muitos outros países.

Não é a primeira vez que a nação insular socorre os necessitados: em 2014, ofereceu mais de 460 médicos e enfermeiros à África Ocidental para lidar com o surto do Ebola; ajudou o Haiti a combater a cólera e lidou com as consequências do terremoto de 2010; ajudou as vítimas do furacão Mitch na América Central em 1998; tratou mais de 25.000 crianças por envenenamento por radiação após a tragédia de 1986 em Chernobyl; e prestou assistência médica urgente ao Chile após um terremoto em 1960, para citar apenas alguns episódios.

"O contingente da Brigada Henry Reeves possui um histórico reconhecido internacionalmente de assistência a muitos países em casos de doenças, desastres e outros fenômenos naturais", diz o Dr. Manuel Limonta, vice-presidente da Academia Mundial de Ciências (TWAS) e um dos fundadores dos Centros de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGB). "É um contingente de médicos que, voluntariamente, demonstram sua consciência humanística e seu amor pela medicina em sua tentativa de apoiar outros países necessitados".

A organização foi oficialmente criada por Fidel Castro em 19 de setembro de 2005, após a recusa de Washington em aceitar ajuda de 1.586 médicos cubanos humanitários em meio ao desastre do furacão Katrina. Essa equipe de voluntários recebeu o nome do brigadeiro-general Henry Reeve, americano que lutou pela independência de Cuba da Espanha na década de 1870.

Mesmo antes de a pandemia irromper, mais de 28.000 profissionais médicos cubanos estavam trabalhando em 59 países em todo o mundo, ajudando principalmente países em desenvolvimento e nações pobres.

O que há por trás da eficiência e da resiliência da brigada?

O Dr. Limonta descreve várias razões para a reconhecida eficiência do contingente da Henry Reeves, primeiro destacando "a alta qualidade do treinamento médico em Cuba, em comparação com as melhores universidades médicas do mundo". Ele acrescenta que os cubanos têm um conhecimento profundo do atendimento ao paciente, que inclui "vigilância para a sociedade e vigilância para o cidadão como entidade social", além de sua compreensão de biologia e psicologia.

O cientista destaca que o conceito socialista de Cuba desempenhou um papel crucial no desenvolvimento de um sistema que garanta o apoio do governo à prevenção e cura de doenças, bem como à reabilitação nos casos necessários no âmbito da cobertura universal de saúde.

Segundo Limonta, grande parte do crédito vai para para Fidel Castro, que foi "o maior entusiasta, conselheiro e participante [do esforço] pelo princípio da máxima atenção à saúde das pessoas".

Ele lembra que Castro estava por trás da criação de universidades médicas e importantes instituições científicas em todo o país, a fim de fornecer aos cubanos a melhor assistência médica em termos de qualidade e quantidade. É preciso ter em mente que a assistência médica cubana tem evoluído sob a forte pressão das sanções dos EUA.

"O bloqueio norte-americano, sem dúvida, afetou todo o sistema de saúde cubano, mas o potencial acumulado pelos serviços de saúde de Cuba é de tal magnitude que, apesar das afetações do bloqueio, o sistema continua capaz de resolver os problemas de Cuba e até ajudar outros países, como é o caso hoje, quando Cuba envia ajuda médica para combater o COVID-19 em diferentes países do mundo, incluindo a Itália", acrescenta Limonta, que é fundador e primeiro diretor dos Centros de Engenharia Genética e Biotecnologia de Cuba.

 

A ELAM e internacionalismo médico cubano

Em 15 de novembro de 1999, o governo cubano fundou a Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), considerada uma das maiores escolas de medicina do mundo por números de matrícula. Mais de 29.000 médicos de mais de 110 países se formaram na instituição médica desde sua primeira aula em 2005.

Em geral, o país insular possui 485.475 trabalhadores em seu sistema nacional de saúde, com 8 a 9 médicos para cada 1.000 pessoas. Para fins de comparação, os EUA têm apenas 2,59 médicos por 1.000 pessoas, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em 2007, os especialistas canadenses em Cuba Robert Huish e John M. Kirk lançaram seu livro "O internacionalismo da Medicina Cubana e o Desenvolvimento da Escola Latino-Americana de Medicina", que ofereceu uma visão da experiência e das melhores práticas da nação caribenha em conter pandemias e lidar com desastres. O estudo constatou que Cuba havia fornecido mais pessoal médico ao mundo em desenvolvimento do que todos os países do então G8 juntos, enquanto ao mesmo tempo permanecia amplamente negligenciada pela mídia convencional e pela academia.

No entanto, em 26 de maio de 2017, a Brigada Médica Internacional Henry Reeve recebeu o prestigioso Prêmio Memorial Lee Jong-wook 2017 de Saúde Pública por sua assistência médica de emergência a mais de 3,5 milhões de pessoas em 21 países atingidas por desastres e epidemias desde a fundação da organização em setembro de 2005.

*Ekaterina Blinova é jornalista 

Originalmente em Sputnik Mundo