Pepe Escobar - Conferência de Munique revela a cisão oriente-ocidente

Pepe Escobar - Conferência de Munique revela a cisão oriente-ocidente

Por Pepe Escobar, Asia Times 

Poucas pantomimas políticas pós-modernas têm sido mais reveladoras do que os centenas de "tomadores de decisão internacionais", a maioria ocidentais, animados, enojados ou nostálgicos com o conceito de "Westlessness" na Conferência de Segurança de Munique (MSC, em inglês).

O "Westlessness" soa como um daqueles conceitos saídos de uma ressaca pós-festa no Rive Gauche  da década de 1970. Em teoria (mas não na teoria francesa), o Westlessness na era do Whatsapp pode significar um déficit de ação multipartidária para enfrentar as ameaças mais prementes à “ordem  - ou (des) ordem - internacional” como o nacionalismo, desdenhado como uma ridícula onda populista.

No entanto, o que Munique realmente revelou foi um profundo anseio - Ocidental - por aqueles dias efervescentes do imperialismo humanitário, com o nacionalismo em todas as suas vertentes sendo apontado como o vilão que impede o avanço incansável das lucrativas e neocoloniais Forever Wars (guerras sem fim).

Por mais que os organizadores do MSC - um grupo atlântista robusto - tentassem direcionar as discussões para enfatizar a necessidade do multilateralismo, surgia uma série de temas espinhosos que iam da migração descontrolada à "morte encefálica" a OTAN, anunciada como uma conseqüência direta do "aumento da um campo liberal e nacionalista no mundo ocidental ". Como se isso fosse um problema perpetrado por uma Hydra todo-poderosa, com as cabeças de Bannon-Bolsonaro-Orban.

Longe desses líderes pró-ocidente em Munique, está a coragem de admitir que vários contra-golpes nacionalistas também se qualificam como reveses para o implacável saque ocidental do Sul Global por meio de guerras - quentes, frias, financeiras, espoliativas (por corporações).

Indo ao que vale a pena, aqui está o relatório da MSC. Apenas duas frases seriam suficientes para entregar o jogo da MSC: “Na era pós-Guerra Fria, as coalizões lideradas pelo Ocidente estavam livres para intervir em quase qualquer lugar. Na maioria das vezes, havia apoio no Conselho de Segurança da ONU e, sempre que uma intervenção militar era lançada, o Ocidente desfrutava de uma liberdade de movimento militar quase inconteste.”

Ai está. Aqueles eram os dias em que a OTAN, com total impunidade, podia bombardear a Sérvia, perder miseravelmente uma guerra no Afeganistão, transformar a Líbia em um inferno das milícias e planejar inúmeras intervenções em todo o Sul Global. E é claro que nada disso tinha qualquer ligação com os bombardeados e os invadidos terem sido forçados a se tornar refugiados na Europa.

 

O Ocidente é mais

Em Munique, a ministra das Relações Exteriores da Coréia do Sul, Kang Kyung-wha, aproximou-se do ponto quando disse que considerava o “Westlessness" bastante insular como tema. Ela fez questão de enfatizar que o multilateralismo é uma característica fortemente asiática, expandindo o tema da centralidade da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN).

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, com sua elegância habitual, foi mais agudo, observando como "a estrutura da rivalidade da Guerra Fria está sendo recriada" na Europa. Lavrov foi um prodígiosamente eufemístico quando notou como as "tensões crescentes, o avanço da infra-estrutura militar da OTAN para o oriente, exercícios de alcance sem precedentes perto das fronteiras russas, o incremento dos orçamentos de defesa além da conta - tudo isso gera imprevisibilidade".

No entanto, foi o conselheiro de Estado chinês e o ministro das Relações Exteriores Wang Yi que realmente atingiu o coração do assunto. Ao enfatizar que “é urgente fortalecer a governança global e a coordenação internacional”, disse, “Precisamos nos livrar da cisão do Oriente e do Ocidente e ir além da diferença entre o Sul e o Norte, em uma tentativa de construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade.”

“Comunidade com um futuro compartilhado” pode ser a terminologia padrão de Pequim, mas carrega um significado profundo, pois incorpora o conceito chinês de multilateralismo, em que nenhum Estado individualmetne tem prioridade e que todas as nações compartilham os mesmos direitos.

Wang foi mais longe: o Ocidente - com ou sem Westlessness - deveria se livrar de sua mentalidade subconsciente de supremacia da civilização; desistir de seu preconceito contra a China; e “aceitar e acolher o desenvolvimento e revitalização de uma nação do Oriente com um sistema diferente daquele do Ocidente”. Wang é um diplomata sofisticado o suficiente para saber que isso não vai acontecer.

Wang também não conseguiu deixar de elevar as sobrancelhas da multidão para níveis alarmantes quando enfatizou, mais uma vez, que a parceria estratégica Rússia-China será aprofundada - além de explorar "maneiras de coexistência pacífica" com os EUA e uma cooperação mais profunda com a Europa.

O que se esperava do chamado "líder de sistema" em Munique era bastante previsível. E foi entregue, fiel ao script, pelo atual chefe do Pentágono, Mark Esper, outro velho conhecido das danças das cadeiras de Washington.

 

A ameaça do século XXI

Todos os pontos de discussão do Pentágono estavam colocados. A China não é nada menos que uma ameaça crescente à ordem mundial - uma "ordem" ditada por Washington. A China rouba o know-how ocidental; intimida todos os seus vizinhos menores e mais fracos; busca uma "vantagem por qualquer meio e a qualquer custo".

Como se fosse necessário algum lembrete para esse público já bem informado, a China foi novamente colocada no topo das "ameaças" do Pentágono, seguida pela Rússia, pelos "estados desonestos" do Irã e Coréia do Norte e "grupos extremistas". Ninguém perguntou se a Al-Qaeda na Síria faz parte da lista.

O "Partido Comunista e seus órgãos associados, incluindo o Exército de Libertação Popular", foram acusados de "operar cada vez mais em teatros fora das fronteiras da China, inclusive na Europa". Todo mundo sabe que apenas uma "nação indispensável" está autorizada a operar "em teatros fora de suas fronteiras" para bombardear outros em nome da democracia.

Não é de admirar que Wang tenha sido forçado a qualificar todos os itens acima como “mentiras”: “A causa raiz de todos esses problemas e questões é que os EUA não querem ver o rápido desenvolvimento e rejuvenescimento da China, e querem menos ainda aceitar o sucesso de um país socialista".

Então, no final, Munique se desintegrou na briga de gatos que dominará o resto do século. Com a Europa de fato irrelevante e a União Européia subordinada aos desígnios da OTAN, o Westlessness é de fato apenas um conceito vazio e constipado: toda a realidade é condicionada pela dinâmica tóxica da ascensão da China e do declínio dos EUA.

A irretocável Maria Zakharova acertou mais uma vez: “Eles falavam desse país [China] como uma ameaça para toda a humanidade. Eles disseram que a política da China é a ameaça do século XXI. Tenho a sensação de que estamos testemunhando, através dos discursos proferidos na conferência de Munique em particular, o renascimento de novas aproximações coloniais, como se o Ocidente não achasse mais vergonhoso reencarnar o espírito do colonialismo por meio da divisão de povos, nações e países."

Um destaque absoluto do MSC foi quando a diplomata Fu Ying, presidente de Relações Exteriores do Congresso Nacional do Povo, reduziu a presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, a uma simples pergunta: “Você realmente acha que o sistema democrático é tão frágil que pode ser ameaçado pela Huawei?

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Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Originalmente em Asia Times