Pepe Escobar - ‘É a doença que torna a saúde doce e boa’

Pepe Escobar - ‘É a doença que torna a saúde doce e boa’

Por Pepe Escobar

Sendo, no âmago de seu ser, um aristocrata desdenhoso, esse mestre do paradoxo desprezava os supostos sábios e as massas que os adoravam. Heráclito, definitivamente, foi o precursor do distanciamento social.

Nós, infelizmente, devemos o rótulo reducionista de "pré-socrático" aos historiadores do século XIX, que venderam à modernidade a ideia de que esses pensadores não foram tão importantes por terem vivido antes de Sócrates (469-399 A.C.), durante os séculos VI e V A. C., em diversas latitudes localizadas na Grécia, Itália e Turquia atuais.

No entanto, foi Nietzsche quem acertou na mosca: os pré-socráticos inventaram todos os arquétipos de toda a história da filosofia. Seu Grande Mestre foi, sem sombra de dúvida, Heráclito.   

Um perpétuo romance policial

Apenas cerca de 130 fragmentos do pensamento de Heráclito conseguiram sobreviver – prefigurando a intuição de Walter Benjamin, de que a beleza do conhecimento está encapsulada no fragmento.

Comecemos com "A Natureza ama se esconder". Heráclito estabeleceu que a natureza e o mundo são ambíguos por excelência, como um infindável filme noir. Uma vez que a natureza é um emaranhado de enigmas, ele contava apenas com enigmas para examiná-la. 

É tentador imaginar Heráclito como um duplo do famoso oráculo de Delfos, que "nada afirma e nada esconde, mas apenas sinaliza". Ele certamente é um precursor de Twin Peaks (as corujas não são o que parecem). Reza a lenda que a única cópia de seu livro foi confiada à guarda de um templo em Éfeso em inícios do século V B.C., logo após a morte de Pitágoras, para que as massas não tivesse acesso ao manuscrito. Heráclito, membro da família real de Éfeso, não faria por menos.

De maneira que nós, como raça, somos essencialmente um bando equivocado. "Os homens se enganam quanto ao conhecimento do que é óbvio, tal como Homero, que era o mais sábio de todos os gregos", escreveu Heráclito. "Pois ele foi enganado por meninos que catavam piolhos e lhe disseram: o que vimos e pegamos é o que largamos, e o que não vimos nem pegamos é o que trazemos conosco". 

Heráclito comparou nossa sina à das bestas, bêbados, gente em sono profundo e até mesmo à das crianças – como, por exemplo, em "Nossas opiniões são como brinquedos". Somos incapazes de compreender o verdadeiro Logos. 

A história, com raras exceções, parece provar que ele estava certo.

Há dois mantras centrais em Heráclito. 

1) "Todas as coisas acontecem movidas pelo conflito". A base de tudo, portanto, é a turbulência. Tudo está em fluxo contínuo. A vida é um campo de batalha. (Sun Tzu aprovaria). 

2) "Todas as coisas são uma só". Isso significa que os opostos se atraem. Foi isso que Heráclito descobriu ao se lançar em uma viagem para dentro da própria alma - sem a ajuda de substâncias lisérgicas. Não é de admirar que ele tenha enfrentado uma tarefa sisífica ao tentar explicar isso a nós, meras crianças. 

E isso nos traz à metáfora do rio. Tudo na natureza depende essencialmente da mudança. Para Heráclito, portanto, "ao entrarem nos mesmos rios, são outras e ainda outras as águas que correm sobre eles". Então, todos os rios são compostos de águas que nunca são as mesmas.

Entrar no Ganges ou no Amazonas em um dia será completamente diferente de entrar neles em um outro dia. 

Daí o famoso mantra Panta rhei, "Tudo flui". Fluxo e estabilidade, unidade e diversidade, são como dia e noite. 

Um rio pode conter muitas águas, e mesmo que haja muitas águas, ele continuará sendo um único rio. Foi assim que Heráclito reconciliou o conflito e a unidade na harmonia -– um conceito filosófico bem oriental.   

Nenhum fragmento o expressa de forma explícita. Mas o fascinante é que o fluxo na unidade e a unidade no fluxo aparecem como partes móveis do logos, o princípio orientador do universo, que ninguém antes dele conseguira entender. 

Perto do teu fogo 

Tudo flui. E isso nos traz à guerra - e aqui também Heráclito se encontra com Sun Tzu: "A guerra é o pai de todas as coisas e o rei de todas as coisas". 

E isso nos leva também ao fogo. O mundo é "fogo eternamente vivo" e "por fogo se trocam todas as coisas, tal como  ouro por mercadorias e mercadorias por ouro". Aqui, Heráclito parece equacionar o ouro como veículo de trocas econômicas, ao fogo como veículo de mudanças físicas. Ele teria desprezado o papel-moeda. Heráclito, decididamente, seria favorável ao padrão-ouro. 

Não é de admirar que Heráclito tenha fascinado Nietzsche porque, essencialmente, ele estava propondo uma teoria cíclica do universo - o eterno retorno, de Nietzsche – com tudo se convertendo em fogo em uma série de explosões cósmicas. 

Heráclito era Taoísta e Budista. Se os opostos, em última análise, são a mesma coisa, isso implicaria a unidade de tudo.

Heráclito chegou mesmo a prever qual deveria ser nossa reação ao Covid-19: "É a doença que torna a saúde doce e boa; é a fome que traz saciedade, é o cansaço que traz o repouso". Lao Tzu aprovaria. No sistema heraclitiano de reciclagem cósmica periódica, é a doença que dá à saúde seu pleno significado ".      

Essa atitude coletiva poderia ser de enorme utilidade para explicar o relativo sucesso das sociedades orientais no combate ao Covid-19, se comparadas ao Ocidente. 

E, mais uma vez, toda essa conectividade heracliteana não poderia ser mais oriental - do Tao ao budismo. Não é de surpreender que os grandes mestres da civilização ocidental, Platão e Aristóteles, não a tenham entendido. 

Platão distorceu Heráclito sem o menor constrangimento. Platão baseou sua análise em Crátilo, um filósofo que, para começo de conversa, não entendeu Heráclito. Uma vez que Platão e Aristóteles basicamente regurgitaram a interpretação reducionista de Crátilo, todos os que vieram depois seguiram a eles, e não ao criador de enigmas original. 

Para Platão e Aristóteles, era impossível entender Heráclito porque, ao que parece, eles entenderam "Não se podem entrar duas vezes no mesmo rio" literalmente. 

Heráclito, na verdade, descobriu, para que ficasse claro a toda a humanidade, que os rios e tudo o mais na natureza estão em mudança constante. Tudo está sempre em fluxo, mesmo quando parece imóvel. Podem chamar a isso de uma definição de história. 

A interpretação equivocada de Platão, pelo menos, levantou uma pergunta-chave, que ainda estamos debatendo 2.500 anos depois: como é possível conhecer com algum grau de certeza um mundo que está em constante mudança? Ou, na famosa colocação de Nietzsche: Não há fatos, apenas interpretações. 

Assim, em razão do equívoco de Platão, Heráclito, o artigo genuíno, converteu-se em uma figura secundária na história do pensamento. O Enigmático não ligaria a mínima. Cabe a nós fazer-lhe justiça nestes tempos angustiados. 

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Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Originalmente em Asia Times