Pepe Escobar - O canto de sirena de um "líder de sistema"

Pepe Escobar - O canto de sirena de um "líder de sistema"

Os Estados Unidos podem estar destinados a uma existência histórica menor do que a era mongol estabelecida por Genghis Khan

Por Pepe Escobar, Asia Times 

Um espectro considerável do Ocidente liberal defende a interpretação americana de que a civilização consistiria em  algo como uma lei imutável da natureza. Mas e se essa interpretação estiver à beira de um colapso irreparável?

Michael Vlahos tem dito que os EUA não são um mero Estado-nação, mas um "líder de sistema" - "um poder civilizacional como Roma, Bizâncio e o Império Otomano". E, devemos acrescentar, a China - que ele não mencionou. O líder do sistema é “uma estrutura de identidade universalista ligada a um estado. Essa vantagem é útil porque os Estados Unidos possuem claramente essa estrutura de identidade hoje.”

Profundo especialista em inteligência, Alastair Crooke, em um ardente ensaio, analisa mais profundamente como essa "visão civilizacional" foi "espalhada à força em todo o mundo" como o inevitável Destino Manifesto americano: não apenas politicamente - incluindo todos os apelos do individualismo e do neoliberalismo ocidental , mas combinado com "a metafísica do judaico-cristianismo também".

Crooke também observa quão profundamente arraigada é a noção de que a vitória na Guerra Fria "espetacularmente afirmou" a superioridade da visão civilizacional dos EUA entre a elite americana.

Bem, a tragédia pós-moderna - do ponto de vista dessa elite - é que em breve esse não será mais o caso. A guerra civil que envolve Washington nos últimos três anos - tendo o mundo inteiro como espectadores atordoados - acaba de acelerar o mal-estar.

 

Lembre-se da Pax Mongolica

É preocupante considerar que a Pax Americana pode estar destinada a uma existência histórica mais curta do que a Pax Mongolica - estabelecida após Genghis Khan, líder de uma nação nômade, que esteve a ponto de conquistar o mundo.

Gêngis investiu pela primeira vez em uma ofensiva comercial para tomar as Rotas da Seda, esmagando os Kara-Kitais no Turquestão Oriental, conquistando o Khorezm islâmico e anexando Bukhara, Samarcanda, Bactria, Khorasan e o Afeganistão. Os mongóis alcançaram os arredores de Viena em 1241 e o Mar Adriático um ano depois.

A superpotência da época se estendeu do Pacífico ao Adriático. Nem podemos imaginar o choque para a cristandade ocidental. O papa Gregório X estava ansioso para saber quem eram esses conquistadores do mundo, e poderiam ser cristianizados?

Paralelamente, apenas uma vitória dos mamelucos egípcios na Galiléia em 1260 salvou o Islã de ser anexado pela Pax Mongolica.

A Pax Mongolica - um poder único, organizado, eficiente e tolerante - coincidiu historicamente com a Idade de Ouro das Rotas da Seda. Kublai Khan - que superou Marco Polo - queria ser mais chinês que os próprios chineses. Ele queria provar que os conquistadores nômades ao se tornarem sedentários podiam aprender as regras de administração, comércio, literatura e até navegação.

No entanto, quando Kublai Khan morreu, o império se fragmentou em canatos rivais. O Islã lucrou. Tudo mudou. Um século depois, os mongóis da China, Pérsia, Rússia e Ásia Central nada tinham a ver com seus ancestrais montados a cavalo.

Agora um corte para o jovem século 21 mostra que a iniciativa, historicamente, está mais uma vez do lado da China, através do Heartland e alinhando-se ao Rimland. Empresas que mudam o mundo e mudam o jogo não nascem mais no Ocidente - como tem sido o caso do século XVI até o final do século XX.

Com todo o pensamento mal intecionado de que o coronavírus descarrilará o "século chinês", que na verdade será o século da Eurásia, e em meio à tsunami míope da demonização das Novas Rotas da Seda, é fácil não se dar conta de que a implementação de inúmeros projetos nem sequer começou.

Em 2021, todos os corredores e eixos do desenvolvimento continental ganharão velocidade no Sudeste Asiático, no Oceano Índico, Ásia Central, Sudoeste Asiático, Rússia e Europa, em paralelo com a Rota Marítima da Seda, configurando um verdadeiro colar de pérolas eurasiático de Dalian ao Pireu, passando por Trieste, Veneza, Gênova, Hamburgo e Roterdã.

Pela primeira vez em dois milênios, a China é capaz de combinar o dinamismo da expansão política e econômica nas esferas continental e marítima, algo que o Estado não experimentou desde o curto trecho expedicionário liderado pelo almirante Zheng He no Oceano Índico no início do século XV. A Eurásia, no passado recente, estava sob colonização ocidental e soviética. Agora tudo é multipolar - uma série de permutações complexas e em evolução levadas a cabo por Rússia-China-Irã-Turquia-Índia-Paquistão-Cazaquistão.

Todo jogador não tem ilusões sobre as obsessões do "líder do sistema": impedir a Eurásia de se unir sob um único poder - ou coalizão como a parceria estratégica Rússia-China; garantir que a Europa permaneça sob hegemonia dos EUA; impedir o sudoeste da Ásia - ou o "Grande Oriente Médio" - de estar ligado às potências da Eurásia; e impedir por todos os meios que a Rússia e a China tenham acesso livre às vias marítimas e aos corredores comerciais.

 

O recado do Irã

Enquanto isso, esconde-se uma suspeita - que o plano de jogo do Irã, em um eco de Donbass em 2014, pode ser de sugar os neocons americanos para um caldeirão de marca russa, caso a obsessão pela mudança de regime seja turbinada.

Existe uma possibilidade séria de que, sob pressão máxima, Teerã possa eventualmente abandonar o JCPOA, assim como o TNP, convidando abertamente um ataque dos EUA.

Tal como está, Teerã enviou duas mensagens muito claras. A precisão do ataque com mísseis à base americana de Ayn Al-Asad no Iraque, em resposta ao assassinato do major-general Qassem Soleimani, significa que qualquer braço da vasta rede de bases dos EUA agora está vulnerável.

E o nevoeiro de negações desencontradas que cercam a derrubada da aeronave denominada "Nó de Comunicações Aéreas de Campo de Batalha da CIA" (BACN, em inglês) - essencialmente um armazém aéreo de fantasmas - em Ghazni, Afeganistão, também transmite uma mensagem.

O ícone da CIA Mike d'Andrea, conhecido como 'Aiatolá Mike', ou agente de funerária (Undertaker), ou Príncipe Negro, ou todos os itens acima, poderia ou não estar a bordo. Independentemente do fato de nenhuma fonte do governo dos EUA confirmar ou negar que o aiatolá Mike esteja vivo ou morto, ou mesmo que ele sequer exista, a mensagem permanece a mesma: seus soldados e fantasmas também estão vulneráveis.

Desde Pearl Harbor, nenhum país se atreve a encarar o líder do sistema tão descaradamente, como o Irã fez no Iraque. Vlahos mencionou algo que vi eu mesmo em 2003, como "jovens soldados americanos se referiam aos iraquianos como "índios", como se a Mesopotâmia fosse o oeste selvagem". A Mesopotâmia foi um dos berços cruciais da civilização como a conhecemos. Bem, no final, esses US$ 2 trilhões gastos para bombardear o Iraque pela democracia não favoreceram a visão civilizacional do "líder do sistema".

 

As Sirenas e La Dolce Vita

Agora vamos adicionar estética à nossa política "civilizacional". Toda vez que visito Veneza - que por si só é uma metáfora viva para a fragilidade dos impérios e o Declínio do Ocidente -, refaço alguns passos tirados d'Os Cantos, a obra-prima épica de Ezra Pound.

Em dezembro passado, depois de muitos anos, voltei à igreja de Santa Maria dei Miracoli, também conhecida como "A caixa de joias", que desempenha um papel de protagonista em Os Cantos. Quando cheguei, disse à "signora" de custódia que viera para ver "As Sirenas". Com um sorriso malicioso, ela iluminou meu caminho ao longo da nave até a escada central. E lá estavam elas, esculpidas em pilares dos dois lados de uma sacada: “Colunas de cristal, acanto, sereias no topo das pilastras”(1), como lemos no Canto 20.

Essas sirenas foram esculpidas por Tullio e Antonio Lombardo, filhos de Pietro Lombardo, mestres venezianos do final do século XV e início do século XVI - “e Túlio Romano esculpiu as sereias como diz o velho guarda: de modo que desde então ninguém foi capaz de esculpi-las para o escrínio das jóias, Santa Maria Dei Miracoli,”(2), como lemos no Canto 76.

Bem, Pound deu um nome errado ao criador das sirenas, mas esse não é o ponto. O ponto é como Pound viu as sirenas como o epítome de uma cultura forte - “a percepção de toda uma era, de toda a diversidade e sequência de causas, em um conjunto de detalhes, dos quais seria impossível falar em termos de magnitude ”, como Pound escreveu em Guide to Kulchur.

Tanto quanto suas amadas obras primas de Giovanni Bellini e Piero della Francesca, Pound compreendeu perfeitamente como essas sirenas eram a antítese da usura - ou a "arte" de emprestar dinheiro a taxas de juros exorbitantes, que não apenas priva uma cultura dos melhores da arte, como Pound descreve, mas também é um dos pilares para a total financeirização e comercialização da própria vida, um processo que Pound previu brilhantemente, quando escreveu em Hugh Selwyn Mauberley que: “todas as coisas estão fluindo, diz Sage Heracleitus; Mas uma cafonice vulgar reinará ao longo de nossos dias."

La Dolce Vita completará 60 anos em 2020. Assim como as sirenas de Pound, a agora tour de force mitológica de Fellini em Roma é como um palimpsesto de celulóide preto e branco de uma época passada, o nascimento dos dançantes anos sessenta. Marcello (Marcello Mastroianni) e Maddalena (Anouk Aimee), incrivelmente descolados e chiques, são como a Última Mulher e o Último Homem antes do dilúvio da “cafonice vulgar”. No final, Fellini nos mostra Marcello desesperado com a feiúra e, sim, a vulgaridade se intrometendo em seu lindo mini-universo - os lineamentos da cultura de lixo fabricados e vendidos pelo 'líder do sistema' prestes a engolir todos nós.

Pound era um dissidente americano humano demais, de genialidade clássica desenfreada. O "líder do sistema" o interpretou mal; tratou-o como um traidor; enjaulou-o em Pisa; e o mandou para um hospital psiquiátrico nos EUA. Ainda me pergunto se ele pode ter visto e apreciado La Dolce Vita durante os anos 1960, antes de morrer em Veneza, em 1972. Afinal, havia um pequeno cinema a uma curta distância da casa na Calle Querini, onde ele morava com Olga Rudge.

"Marcello!" Ainda somos assombrados pela chamada de sirena icônica de Anita Ekberg, meio imersa na Fontana di Trevi. Hoje, ainda reféns da visão civilizacional em ruínas do "líder do sistema", na melhor das hipóteses, mal conseguimos, como TS Eliot escreveu de forma memorável, um "olhar para trás, por sobre os ombros, para o terror primitivo".

***

Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Originalmente em Asia Times

NOTA

(1) e (2) Extraido de Pound, Ezra, 1885-1972 Os cantos / Ezra Pound ; tradução de José Lino Grünewald. – 1. ed. especial. – Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2006