Política externa argentina: continuidade ou ruptura?

Política externa argentina: continuidade ou ruptura?

Por Valéria Rodriguez*

Alberto Fernández foi o único presidente latino-americano que participou do Fórum Mundial do Holocausto em Israel, algo bastante polêmico para muitos, já que foi a primeira visita fora do país que, apesar de não ter sido oficial, é absolutamente simbólica.

O simbolismo das viagens ao exterior durante o início de uma administração permite, pelo menos, analisar quais serão as alianças políticas e comerciais durante seu governo, embora elas possam mudar dependendo dos interesses que prevaleçam.

Durante o governo de Mauricio Macri, as relações com Israel  foram fluidas, ele foi o primeiro presidente a convidar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a visitar Buenos Aires, onde foi declarado visitante ilustre e foram assinados acordos de segurança e tecnologia.

A ex-ministra da segurança Patricia Bullrich viajava regularmente e foi responsável por materializar as onerosas compras de armas e radares de segurança para a "luta contra o narcotráfico".

Da mesma forma, Mauricio Macri, em julho de 2019, incorporou o grupo de resistência islâmico Hezbollah à lista de movimentos terroristas nacionais que lhe renderam o apoio do governo sionista e até felicitações.

Por outro lado, o macrismo se comprometeu com o Comando Sul (dos EUA) na luta contra o terrorismo e outras ameaças como o narcotráfico, além de permitir a instalação de bases “humanitárias” tanto no norte do país como no sul.

Sobre o relacionamento com os Estados Unidos, Macri manteve uma relação bastante semelhante ao do ex-presidente Carlos Menem, que durante os anos 1990 foram chamadas de "relações carnais".

Em relação à Venezuela, Macri apoiou Juan Guaidó como "presidente encarregado" e até se encontrou com a suposta embaixadora nomeada por Guaidó na Argentina. Elisa Trotta Gamus recebeu até credenciais diplomáticas.

Algumas semanas antes de Donald Trump chegar à reunião do G20 em Buenos Aires, Macri, através do Ministério da Segurança, forjou uma denúncia anônima promovida pela  Delegação de Associações Israelitas da Argentina (Daia), que levou à prisão dos irmãos Salomão em uma operação ridícula e cuja principal desculpa era a "luta contra o terrorismo".

A idéia da luta contra o terrorismo foi imposta em 1994 após a explosão da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia) e até hoje não foi possível provar exatamente se realmente era uma “célula terrorista” ou não.

Uma de cal e uma de areia

Com a chegada de Fernández ao poder, era esperado que um tipo diferente de política externa em relação ao macrismo, pelo menos em alguns temas espinhosos.

Durante sua candidatura, em agosto de 2019, em uma entrevista no programa “Corea del centro” da Net tv,  disse: “o que eu acho é que devemos reconstruir o quadro institucional na Venezuela, já que Maduro não está garantindo isso” e também disse que apoiava as declarações da Alta Comissária para os Direitos Humanos na ONU, Michelle Bachelet, sobre violações dos Direitos Humanos no país caribenho.

Por outro lado, alguns sinais como a incorporação ao grupo de Puebla, antes de ser presidente, deram de certa forma uma ilusão de uma reforma nas relações internacionais.

Já como presidente, concedeu o status de refugiado a Evo Morales, após o golpe de estado que o destituiu e depois de retornar do México, levando em consideração que na Argentina se encontra a maior comunidade boliviana da América Latina.

Estados Unidos e Israel

Durante sua candidatura, Fernández apoiou a idéia de manter uma “relação madura” com os Estados Unidos, o que é compreensível, pois é necessário renegociar a dívida deixada pelo macrismo e deve-se notar que os Estados Unidos têm poder de veto  no FMI.

Portanto, você não pode pedir para chutar o tabuleiro e tudo voar pelos ares, mas, quando você negocia com os Estados Unidos, sabe muito bem que precisa desistir de algumas questões.

A embaixada norte-americana comemorou a vitória eleitoral de Fernandez, demonstrada nas redes sociais do embaixador americano na Argentina, Edward Prado, que postou uma foto comendo choripanes em suas redes sociais, um símbolo.

O próprio Edward Prado se encontrou na semana passada com a Ministra da Segurança, Sabina Frederic, para mostrar o trabalho da embaixada em questões de terrorismo, tráfico de drogas e organizações criminosas transnacionais, além de expressar sua intenção de trabalhar de uma "maneira conjunta" com o Ministério da Segurança.

Após o assassinato do general Suleimani, Fernandez mandou reforçar a tríplice fronteira, em vez de criticar a flagrante violação da soberania do Iraque, após o bombardeio sem permissão e o subsequente assassinato de dois oficiais militares do Irã e do Iraque.

Tampouco se pronunciou em relação à recusa dos Estados Unidos em retirar suas bases militares do Iraque, embora o parlamento deste país árabe o tenha solicitado e as manifestações em massa ecoem e peçam para que se respeite sua soberania.

Sem dúvida, o símbolo mais forte até agora foi a viagem a Israel e principalmente seu discurso com Benjamin Netanyahu, no qual ele disse que trabalhará para esclarecer a causa Amia e gostaria de continuar a cooperação em tecnologia.

Por sua vez, o primeiro-ministro o parabenizou por manter o Hezbollah na lista de grupos terroristas, ou seja, dando continuidade ao decreto assinado pelo governo anterior.

Durante sua visita, ele também se encontrou com o presidente de Israel, Reuven Rivlin, e com o oponente Benny Gantz, que enfrentará Netanyahu no próximo 3 de maio nas eleições parlamentares, já que não conseguiu formar um governo.

Durante esta visita, Vladimir Putin, que supostamente iria se encontrar com Fernández, também esteve presente, mas não apenas suspendeu a reunião, como também se atrasou e passou desapercebido pelo fórum.

As próximas visitas oficiais serão ao Papa Francisco, e depois à França, onde se encontrará com Emmanuel Macron, que também esteve presente em Israel, durante o  Fórum Mundial do Holocausto e realizou uma performance não convincente contra soldados israelenses que não lhe permitiram entrar sozinho em uma igreja em Jerusalém. Cabe destacar que Macron, no ano passado, foi um dos primeiros líderes europeus a anexar o conceito de anti-semitismo e anti-sionismo.

A turnê de Fernandez continuará pela Itália, onde se encontrará com o primeiro-ministro italiano Giuseppe Conti e terminará, com a viagem à Espanha, onde se encontrará com o presidente Pedro Sánchez.

Após a primeira visita, será possível ver se a política externa argentina continua ou se finalmente muda de direção, uma vez que a palavra do Papa Francisco é de especial importância para o peronismo.

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Valeria Rodríguez é analista internacional e co-apresentadora do programa "Feas, Sucias y Malas" da Rádio Gráfica, de Buenos Aires, Argentina.