Política externa de Trump: pressionar, sancionar e mentir | Valeria Rodriguez

Política externa de Trump: pressionar, sancionar e mentir | Valeria Rodriguez

Por Valeria Rodriguez 

A política externa do governo Trump se utiliza de sanções, pressão e mentiras para manter seu poder na Ásia Ocidental.

A influência do Irã nessa área é a pedra no sapato de Trump que não pode mais usar a estratégia de seus antecessores para financiar grupos terroristas porque sua presença foi consideravelmente reduzida nas regiões mais importantes, como Síria e Iraque, e isso se deve às ações da aliança antiterrorista.

Após o assassinato do General Suleimani e do General Muhandis, foi demonstrado que os Estados Unidos não têm escrúpulo em violar a soberania de um país e, como conseqüência, o Congresso iraquiano exigiu a retirada das bases militares norte-americanas em seu território.

Por sua vez, a ONU reconheceu através da Relatora Especial para Execuções Extrajudiciais, Agnes Callamard, que o assassinato dos Estados Unidos é arbitrário e viola o direito internacional. Além de adicionar um pedido de prisão a Trump pelo Irã pelo assassinato de Suleimani, ao qual se somou o mesmo pedido pelo Iraque.

Por outro lado, os Estados Unidos procuraram fortalecer sua presença por meio de seus aliados na região, Israel e Arábia Saudita. Mas não se saem bem.

Trump apoiou Israel em sua idéia de anexar a Cisjordânia, que foi um tiro no pé desde que a opinião pública internacional o criticou fortemente e até teve de recuar em 1º de julho quando a opinião pública internacional, incluindo a opinião pública Israelense o rejeitou.

Em relação ao outro aliado, a Arábia Saudita, ele também foi criticado pela presença de armas americanas nas mãos de mercenários que trabalhavam para a  Arábia Saudita e também sofreu fortes críticas pelo julgamento sobre o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi.

Como se isso não bastasse e, como uma criança mimada, Trump usa a pressão constante para conseguir o que quer, então, no meio de uma pandemia e com mais de 3 milhões de infectados em seu país, ele iniciou o processo formal de retirada da Organização Mundial da Saúde, criticando suas ações como tendenciosas a favor da China.

A saída dos Estados Unidos deste órgão representa uma perda de 450 milhões de dólares no orçamento e não é a primeira vez que faz algo semelhante já que em junho de 2018, e retirou-se do Conselho de Direitos Humanos da ONU depois que o órgão criticou a gestão de  Direitos Humanos em Israel assim como o tratamento do governo americano sobre as crianças mexicanas na fronteira com os Estados Unidos.

 

Pressão como prática diplomática

As pressões diplomática são uma ferramenta amplamente usada pelo governo Trump para manter a hegemonia de seu poder na Ásia Ocidental, onde possui vários inimigos, unificados em um só, a resistência.

Uma das primeiras pressões de sua administração foi a retirada do Plano de Ação Conjunto Global, conhecido como Acordo Nuclear, que havia sido alcançado após uma série de negociações por cinco anos entre o G5 mais 1 e que ameaçou voar pelos ares quando, em 2018, Trump decidiu unilateralmente sair e impor sanções econômicas ao país persa.

Apesar disso, os outros países que compõem o acordo permaneceram, mas o governo iraniano criticou a parte européia por não cumprir especificamente o acordo por medo de retaliação econômica pelos Estados Unidos.

As sanções econômicas foram e continuam sendo ferramentas de pressão para diferentes países, como Síria, Palestina, Irã, Venezuela e outros países.

Elas sufocam as economias internas, mas nos últimos meses foi demonstrado que os países sancionados se fortalecerem suas relações mútuas podem pelo menos contorná-las.

O exemplo mais claro foi o envio de navios de petróleo e alimentos do Irã para a Venezuela, além do anúncio da assinatura de um acordo militar com a Síria, apesar da imposição da "Lei Cesar", que é um pacote de sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos a todos os países que tentam apoiar a Síria militar e monetariamente.

A idéia central das sanções unilaterais é enfraquecer a resistência, por um lado, na Ásia Ocidental e, por outro, derrubar governos como o caso de Bashar Al Asad, na Síria, e Nicolás Maduro, na Venezuela.



Irã, China e a Nova Rota da Seda

A China é uma das ameaças estratégicas dos Estados Unidos, não apenas pelo seu crescimento econômico, mas também por sua maneira de construir poder com base na cooperação econômica, cultural e militar com diferentes países, ao contrário da estratégia de impor e romper como no caso os Estados Unidos.

Isso pode ser visto em uma entrevista publicada recentemente pela China Global Television Network, onde o conselheiro de Estado e o ministro de Relações Exteriores da China, Wang Yi, disse: “Uma opinião particular tem circulado nos últimos anos, alegando que o sucesso do caminho da China será um golpe e uma ameaça ao sistema e ao caminho ocidentais. Esta afirmação é inconsistente com os fatos, e discordamos dela. Agressão e expansão não estão nos genes da nação chinesa ao longo de seus 5.000 anos de história. A China não replica nenhum modelo de outros países, nem exporta seus próprios para outros. Nunca pedimos a outros países que copiem o que fazemos. Mais de 2.500 anos atrás, nossos ancestrais argumentaram que 'todos os seres vivos podem crescer em harmonia sem se machucar, e maneiras diferentes podem trabalhar em paralelo sem interferir umas com as outras'”.

A China está cada vez mais próxima de conseguir  incorporar um dos mais ambiciosos projetos de integração econômica do século XXI, "A Nova Rota da Seda", que busca conectar os cinco continentes em uma série de acordos comerciais, cuja contrapartida será o financiamento de diferentes projetos de infraestrutura.

A chave da mesma está no golfo, que é a principal rota para as importações de petróleo chinês da Ásia Ocidental. Por esse motivo, o Irã é um parceiro estratégico.

Assim, em janeiro de 2016, durante a visita do presidente chinês Xi Jinping a Teerã, Irã e a China assinaram um memorando de entendimento bilateral sobre a promoção conjunta de tal iniciativa.

Em dezembro de 2019, foi anunciada a assinatura do Acordo Bilateral de 25 anos com a China, que ainda não foi formalmente assinado, embora alguns pontos tenham sido divulgados que foram usados para manipular informações e formular mentiras pela mídia norte-americana, como o New York Times e britânicos como a BBC.

A mentira também foi usada pelo governo Trump, de fato, podemos lembrar que, após a ação defensiva do Irã na base de Ain Al Asad, Trump disse que não havia mortes e foi finalmente mostrado que ele havia mentido. Como milhares de outras mentiras mais difundidas pela mídia.



25 anos de Acordo entre Irã e China

Um dos principais pontos do projeto de acordo é o investimento de US US$ 400 bilhões em energia e infraestrutura nos próximos 25 anos, garantindo o fornecimento constante de petróleo e gás à China, evitando o gargalo no Estreito de Malaca ( onde passa 50% do tráfego marítimo mundial) e, portanto, garante um desconto de 18% pago em yuan sem passar pelo dólar e, assim, driblando mais uma vez as sanções.

Por outro lado, os investimentos chineses visam inserir US $ 228 bilhões na infraestrutura iraniana por meio do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, AIIB, que visa construir, entre outras coisas, uma ferrovia de alta velocidade que conectará o Irã à China.

.Por sua vez, o Irã fortaleceu suas relações diplomáticas com a China em organismos de cooperação como a Organização de Cooperação de Xangai, onde o Irã é um Estado observador, levando em consideração que essa organização mantém acordos de cooperação com a Assembléia Geral da ONU.

Cabe destacar, nesse ponto, que a China desempenhou um papel importante, como a Rússia, durante a última reunião do Conselho de Segurança que abordou a questão do embargo de armas derivado da Resolução 2231, que expira no final deste ano.

Os Estados Unidos pressionaram durante a reunião a estender a sanção, mas a resposta da Rússia e da China foi que, como essa resolução está enquadrada no Plano de Ação Conjunto Global, os Estados Unidos não podem opinar, uma vez que se retiraram em 2018.

As atuais relações internacionais visam o multilateralismo e a cooperação econômica que são essenciais para a saída da pandemia, e apesar da existência de tensões para evitá-la, a saída está na cooperação mútua, já que o estágio pós-pandemia traz consigo grandes desafios que devem ser debatidos e o fato de estar isolado não beneficia ninguém.

***

Valeria Rodríguez é analista internacional e co-apresentadora do programa "Feas, Sucias y Malas" da Rádio Gráfica, de Buenos Aires, Argentina.