Por quê o Afeganistão é tão importante para os Estados Unidos? | Valeria Rodriguez

Por quê o Afeganistão é tão importante para os Estados Unidos? |  Valeria Rodriguez

Por Valeria Rodriguez 

Nos últimos 19 anos, os EUA mantiveram sua invasão militar e agora a administração Trump decidiu retirar algumas de suas tropas no Afeganistão.

Apesar da grande distância e do fato de ter uma cultura tão diferente do Ocidente, nos perguntamos: por quê é tão importante para os Estados Unidos?

E há duas questões, por um lado a geopolítica, uma vez que o Afeganistão tem uma localização privilegiada, por outro lado tem uma fronteira com o Irã, arqui-inimigo dos Estados Unidos e a porta para a Ásia continental.

E, por outro, a questão política regional que está relacionada aos interesses da China em relação à Nova Rota da Seda. Que é um projeto de corredor terrestre e marítimo apoiado por obras de engenharia em troca de acordos comerciais.

Esta Nova Rota da Seda deixa Trump sem dormir, ele que pensava que diante da pandemia, o projeto seria interrompido, mas ao contrário, foi reforçado ainda mais com a incorporação da Rota da Seda da Saúde apoiada pela OMS.

Concentra-se no apoio da China em termos de insumos de saúde para todos os países que o solicitam, e o Afeganistão é um deles.

Deve-se notar que por trás desta Rota da Seda para a Saúde é considerada uma estratégia chinesa para fortalecer os laços amigáveis com os países para retomar o projeto da Rota da Seda em um segundo momento pós-pandêmico.

Por outro lado, dentro do Afeganistão há muitas fragmentações políticas devido aos diferentes grupos étnicos que lutam pelo poder, mas a presença americana também contribui para a fragmentação política.

De fato, em recente entrevista o ex-presidente afegão Hamid Karzai, sustentou que essas fragmentações políticas são produtos da ocupação americana, que mantém sua presença apoiando os diferentes grupos e promovendo a fragmentação.

Os quase 19 anos de ocupação imperialista deixaram mais de 500.000 assassinatos nas mãos da Coalizão Democrática Ocidental liderada pelos EUA.

Além disso, mais de 250.000 órfãos afegãos em decorrência da falta de saúde e de infra-estrutura devido ao bloqueio e à ocupação. 

Segundo um relatório da ONU, 48 mil crianças por ano morrem de desnutrição e 48% da população sofre de desnutrição crônica devido ao criminoso bloqueio econômico do país.

Longe de lutar para trazer bem-estar ao Afeganistão, os Estados Unidos têm um orçamento de 2 bilhões de dólares em gastos militares para manter o exército em diferentes regiões do mundo e assim subjugar o povo a fim de roubar suas riquezas.

O Afeganistão tem uma grande riqueza energética, pois possui uma das maiores reservas de lítio do mundo, estimada em 3 triliões de dólares, onde as empresas americanas se locupletaram graças à lei de mineração afegã que permitiu a exploração por empresas estrangeiras que foi acordada à mão armada.

Por outro lado, o exército americano vangloriou-se da luta contra o tráfico de drogas no Afeganistão, mas nada disso foi real.

De acordo com um relatório da Agência Afegã Anti-Narcóticos, a produção de ópio aumentou 87 por cento em 2017.

Este número foi impactado pelo aumento de 63% do território destinado à produção de ópio. Deve-se notar que quase 90% deste ópio vai para os Estados Unidos, que é o principal consumidor mundial de heroína.

Em 29 de fevereiro, representantes dos Estados Unidos e do Movimento Talibã assinaram em Doha um acordo no qual sustentam que até meados de julho, Washington terá que reduzir suas tropas de 13.000 para 8.600 soldados.

 Além de fechar cinco de suas 20 bases militares e liberar até 5.000 prisioneiros talibãs e até 1.000 do lado do governo para abrir caminho para o diálogo interafegão.

Da mesma forma, negociar apenas com o Talibã é considerado uma estratégia para deslegitimar as instituições afegãs e destacar a crise política em que se encontra desde as eleições presidenciais de setembro.

As eleições foram ganhas por Ashraf Qani, mas seu rival político Abdallah Abdallah alegou que houve fraude e se realizaram dois juramentos presidenciais separados.

Após a assinatura do acordo, as tropas começaram a deixar uma base em Lashkar Gah, a capital da província de Helmand, no sul, e outra em Herat, no leste. 

Helmand e a província vizinha de Kandahar foram as cenas dos combates mais duros dos últimos anos.

Mas apesar da assinatura do acordo em 29 de fevereiro, os Talibãs continuam a realizar ataques de baixa intensidade contra as forças afegãs.

É preciso ter em mente que as bases militares são a desculpa para ocupar países e cada vez que se concorda a retirada dessas bases, o nível de violência começa a subir.

Podemos ver isto com os acontecimentos no Iraque em 2008 e agora está sendo replicado no Afeganistão, onde, após o anúncio da retirada, a violência aumentou exponencialmente.

De fato, a UNAMA (Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão) em seu último relatório em abril declarou que "A escalada da violência em março é preocupante, em sua maioria perpetrada por grupos talibãs contra as forças de segurança afegãs".

Devemos nos perguntar se é apenas por acaso que no Iraque há também um apelo à retirada das bases militares após o assassinato dos dois generais e a crise política após a renúncia de três primeiros-ministros no Iraque.

O que é claro é que as pessoas já estão cansadas de ocupações ilegais.

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Valeria Rodríguez é analista internacional e co-apresentadora do programa "Feas, Sucias y Malas" da Rádio Gráfica, de Buenos Aires, Argentina.