Registros de voos sugerem que o golpe da Bolívia pode ter sido planejado no Brasil | Alan Macleod

Registros de voos sugerem que o golpe da Bolívia pode ter sido planejado no Brasil | Alan Macleod

Por Alan Macleod

Evo Morales, presidente boliviano, foi derrubado em novembro em um golpe de Estado apoiado pelos Estados Unidos. Mas surgiram novos detalhes que sugerem que o Brasil colocou uma mão maior em sua expulsão do que a anteriormente foi confirmado. O jornal argentino Pagina 12 informa que os registros de vôo do jato presidencial mostram que no dia 11 de novembro, dia do golpe, o veículo não estava em La Paz, nem em nenhum outro aeroporto boliviano, mas voando para Brasília, capital do Brasil. Durante grande parte do mês de novembro, onde o país entrou em um intenso período de conflito entre apoiadores de Morales e líderes golpistas, a aeronave viajava pelas principais cidades do Brasil. Desde o golpe, o jato boliviano já fez 25 visitas diferentes ao país e não visitou outro Estado.

As perguntas se multiplicam: Por quê o jato presidencial boliviano faz tantas viagens à Brasília? Além de Jeanine Añez, a senadora fundamentalista cristã de extrema-direita que substituiu Morales está no palácio presidencial, quem estava no avião? Até que ponto o Brasil esteve envolvido no golpe de novembro? O presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que chegou ao poder em circunstâncias questionáveis, não fez nenhum esforço para parecer desapontado ou indignado quando Morales foi derrubado pelos militares e substituído por Añez. "O governo brasileiro parabeniza a senadora Jeanine Añez por assumir constitucionalmente a Presidência da Bolívia e saúda sua determinação em trabalhar pela pacificação do país e pela pronta realização de eleições gerais", dizia uma declaração do Ministério das Relações Exteriores de Bolsonaro. A "pacificação" se refere aos massacres realizados pelos esquadrões da morte, aos quais foi dada pré-imunidade por quaisquer crimes cometidos enquanto se destruía a resistência ao novo regime.

Uma das primeiras vítimas do golpe foi o próprio jornalista de Pagina 12, Sebastian Moro. Poucas horas depois de ter escrito um artigo denunciando ataques contra jornalistas pelos golpistas, ele foi encontrado inconsciente na rua, espancado até um estado vegetativo. Ele morreu alguns dias depois de chegar ao hospital. Sua morte foi largamente ignorada pela mídia, pelos direitos humanos e pelos grupos de liberdade de imprensa. Na verdade, o MintPress News foi o único canal ocidental a cobrir o seu assassinato.

Os Estados Unidos, e praticamente todo o espectro da mídia corporativa, saudaram a derrubada militar do líder mais popular da Bolívia. No entanto, esta semana, o New York Times admitiu que a base para apoiar o golpe - um relatório sobre a suposta ingerência eleitoral de Morales nas eleições de outubro - era completamente falsa. Morales ganhou confortavelmente a eleição e estava prestes a iniciar outro mandato de cinco anos. Em 13 anos de mandato, Morales e seu Movimento ao Socialismo (MAS) tinham conseguido reduzir à metade a pobreza e diminuir ainda mais a pobreza extrema. O PIB per capita, ajustado à inflação, cresceu mais de 50 por cento sob o MAS. Eles conseguiram fazer isso, renacionalizando a indústria de hidrocarbonetos da Bolívia, retomando o controle público sobre os recursos vitais do país das corporações transnacionais e transferindo uma quantidade muito pequena da riqueza da elite para os 99 por cento mais baixos do país. Em novembro, Morales foi forçado a fugir do país em um jato pertencente ao governo do México. Agora está claro porque ele não usou o seu próprio avião presidencial.

Añez era uma senadora pouco conhecida de um partido que recebeu apenas 4% dos votos nas eleições de outubro. Apesar disso, a mão militar a escolheu para se tornar a figura de proa da nova administração. De acordo com Pagina 12, a embaixada brasileira teve uma mão na sua seleção. Assim que tomou o poder, ela começou a massacrar manifestantes e a construir um motor de repressão do Estado. As tão promissoras novas eleições foram adiadas em meio à pandemia da COVID-19, mas ainda há dúvidas de quão democrático pode ser um processo quando o partido MAS, que venceu de forma convincente em outubro, é efetivamente proibido de fazer campanha, com muitos de seus líderes presos sob acusações falsas. Na semana passada, o Supremo Tribunal do país anunciou que as eleições deveriam acontecer no dia 6 de Setembro, uma decisão saudada pelo MAS mas condenada pelo novo governo.

Depois de apoiar o golpe na Bolívia, Bolsonaro agora parece estar pressionando por um "autogolpe" no Brasil. No mês passado, depois que vários membros-chave do seu gabinete se demitiram em protesto, ele liderou uma manifestação convocando os militares a intervir e fechar o Congresso e a Suprema Corte de Justiça (STF). Cinco ex-ministros da Defesa escreveram uma carta aberta pedindo aos militares para se oporem às suas exigências. O conflito está ocorrendo em meio ao segundo maior surto de COVID-19 no mundo, com três quartos de um milhão de brasileiros já testando positivo. Bolsonaro tem constantemente minimizado ou negado a existência do coronavírus, fazendo-a passar por mera "gripezinha" e realizando comícios públicos com apoiadores, mesmo depois de ele e muitos em sua comitiva terem testado positivo para o vírus. "O Brasil está à mercê de um lunático desvairado", foi como a Brasil Wire descreveu a situação do país de forma independente. Graças ao Brasil, a Bolívia também pode estar sofrendo o mesmo destino.

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Alan Macleod é jornalista da MintPress News e escreveu livros como "Twenty Years of Fake News and Misreporting""Propaganda in the Information Age: Still Manufacturing Consent"