Relatório da inteligência dos EUA alertou para crise de coronavírus em novembro

Relatório da inteligência dos EUA alertou para crise de coronavírus em novembro

O material abaixo, divulgado há poucas semanas pela ABC News, revela que a Casa Branca e a administração Trump foram inoperantes para para lidar com a crise que se aproximava, mesmo tendo informações ainda em novembro de um possível surto a partir de alertas dos serviços de inteligência. Para alguns analistas não se trata de uma mera coincidência, se somando às várias outras evidências sobre de onde o vírus original teria realmente partido. 

Por Josh Margoline e James Gordon Meek

Ainda no final de novembro, as autoridades de inteligência dos EUA informaram que um contágio estava varrendo a região chinesa de Wuhan, mudando os padrões de vida, de negócios e representando uma ameaça para a população, segundo quatro fontes informadas no relatório secreto.

As preocupações sobre o que agora é conhecido como a nova pandemia de coronavírus foram detalhadas em um report de inteligência de novembro do Centro Nacional de Inteligência Médica (NCMI, em inglês) das Forças Armadas, de acordo com dois oficiais familiarizados com o conteúdo do documento.

O relatório foi o resultado da análise das interceptações por fio e de computadores, juntamente com imagens de satélite. O fato disparou alarmes porque uma doença fora de controle representaria uma séria ameaça para as forças americanas na Ásia - forças que dependem do trabalho do NCMI. Além dissom mostra uma imagem de um governo americano que poderia ter intensificado os esforços de mitigação e contenção muito antes para se preparar para uma crise prestes a voltar para casa.

"Analistas concluíram que poderia ser um evento cataclísmico", disse uma das fontes do relatório da NCMI. "Foram informadas várias vezes" à Agência de Inteligência de Defesa, ao Estado-Maior Conjunto do Pentágono e à Casa Branca. Na noite de quarta-feira, o Pentágono emitiu uma declaração negando a existência do "produto/avaliação".

A partir desse aviso, em novembro, as fontes descreveram repetidas instruções até dezembro para os formuladores de políticas e tomadores de decisão do Governo Federal, bem como do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca. Tudo isso culminou com uma explicação detalhada do problema que apareceu no informe diário do presidente sobre assuntos de inteligência no início de janeiro, afirmaram as fontes. Para que algo aparecer nesse relatório, teria de passar por semanas de verificação e análise, de acordo com pessoas que trabalharam em briefings presidenciais nas administrações republicana e democrata.

"A linha do tempo da inteligência pode estar mais para trás do que estamos discutindo", disse a fonte sobre os relatórios preliminares de Wuhan. "Mas, isso foi definitivamente informado no início de novembro como algo sobre o qual os militares precisavam tomar uma atitude".

O relatório da NCMI foi amplamente divulgado às pessoas autorizadas a acessar os alertas da comunidade de inteligência. Após o lançamento do documento, outros boletins da comunidade de inteligência começaram a circular por canais confidenciais em todo o governo próximo do Dia de Ação de Graças, disseram as fontes. Essas análises diziam que a liderança da China sabia que a epidemia estava fora de controle, mesmo com informações tão cruciais de governos estrangeiros e agências de saúde pública.

"Seria um alarme significativo que teria sido desencadeado por isso", disse o ex-vice-secretário de Defesa Mick Mulroy, agora colaborador da ABC News, sobre o relatório da NCMI. "E teria sido algo que seria seguido por literalmente todas as agências de coleta de informações".

Mulroy, que anteriormente atuou como alto funcionário da CIA, disse que o NCMI faz um trabalho sério que os líderes seniores do governo não ignoram.

"A inteligência médica leva em consideração todas as informações de origem - inteligência de imagens, inteligência humana, inteligência de sinais", disse Mulroy, que não viu o relatório. "Depois, há análises de pessoas que conhecem essas áreas específicas. Então, para algo assim surgir, foi revisado por especialistas da área. Eles estão reunindo o que essas informações querem dizer e depois analisando o potencial de uma crise internacional de saúde".

O NCMI é um componente da Agência de Inteligência de Defesa do Pentágono. Juntas, as principais responsabilidades das agências são garantir que as forças militares dos EUA tenham as informações necessárias para realizar suas missões - ofensiva e defensivamente. É uma prioridade crítica para o Pentágono manter os membros dos serviços americanos saudáveis nas empreitadas.

Questionado sobre o aviso de novembro em entrevista à ABC, o secretário de Defesa Mark Esper disse ao chefe Anchor George Stephanopoulos: "Não me lembro, George. Mas temos muitas pessoas que acompanham isso de perto. Temos o principal instituto de pesquisa de doenças infecciosas da América, dentro do Exército dos Estados Unidos. Portanto, nosso pessoal que trabalha com essas questões observa diretamente isso o tempo todo".

Pressionando o secretário, Stephanopoulos perguntou: "Então, você teria sabido se tivesse sido informado ao Conselho de Segurança Nacional em dezembro, não teria?" Esper respondeu: "Sim. Não estou ciente disso."

O Pentágono não comentou, mas na quarta-feira à noite após a publicação desta matéria, o Departamento de Defesa fez uma declaração através do coronel R. Shane Day, diretor do NCMI.

"Por uma questão de prática, o Centro Nacional de Inteligência Médica não comenta publicamente sobre questões específicas de inteligência. No entanto, no interesse da transparência durante a atual crise de saúde pública, informamos que a informação da mídia sobre a existência/liberação de um relatório do Centro Nacional relacionado ao Coronavírus em novembro de 2019 não está correta. Não existe esse material do NCMI", afirma o comunicado.

O Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca e o Escritório do Diretor de Inteligência Nacional se recusaram a comentar.

Críticos acusaram o governo Trump de atuar péssima e tardiamente em sua resposta a uma pandemia que, depois de varrer Wuhan e depois partes da Europa, já matou mais de 12.000 nos EUA (25.700 em 15 de abril).

Por sua parte, o presidente Donald Trump alternou entre tomar o crédito por ações antecipadas e alegar que o coronavírus foi uma surpresa para ele e para todos os outros. Ele repetidamente elogiou sua decisão de 31 de janeiro de restringir as viagens aéreas da China, mas, ao mesmo tempo, passou semanas dizendo ao público e às principais autoridades da administração que não havia nada a temer para os americanos.

Em 22 de janeiro, por exemplo, Trump fez seus primeiros comentários sobre o vírus quando perguntado em uma entrevista à CNBC: "Há preocupações com uma pandemia neste momento?" O presidente respondeu: "Não. De maneira alguma. E nós o temos totalmente sob controle. É uma pessoa que vem da China e nós a temos sob controle. Vai ficar tudo bem".

Até 19 de fevereiro, Trump estava tendo visões positivas sobre a maneira como os líderes da China lidaram com o coronavírus.

"Estou confiante de que eles estão se esforçando muito", disse Trump a um entrevistador da Fox 10 em Phoenix. "Eles estão trabalhando nisso - eles construíram, construíram um hospital em sete dias e agora estão construindo outro. Acho que vai dar tudo certo".

Somente em 13 de março, Trump declarou uma emergência nacional e mobilizou os vastos recursos do governo federal para ajudar as agências de saúde pública a lidar com a crise que estava prestes a colidir com a pátria.

Se seria verdade que as agências de espionagem americanas foram apanhadas desprevenidas, um oficial da inteligência disse à ABC News, "isso seria uma enorme falha de informação da ordem do 11 de Setembro". Mas não foi. Eles tinham inteligência."

O colaborador da ABC News, John Cohen, que supervisionava as operações de inteligência do Departamento de Segurança Interna, disse que mesmo as melhores informações seriam inúteis se as autoridades não agissem sobre elas.

"Ao responder a uma crise de saúde pública ou qualquer outra ameaça séria à segurança, é fundamental que nossos líderes reajam rapidamente e tomem medidas para lidar com a ameaça identificada nos relatórios de inteligência", disse Cohen, ex-subsecretário interino do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos. "Não é surpresa para mim que a comunidade de inteligência tenha detectado o surto; o que é surpreendente e decepcionante é que a Casa Branca ignorou os sinais de alerta claros, falhou em seguir os protocolos de resposta à pandemia estabelecidos e demorou a implementar um esforço do governo para responder a esta crise".

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Originalmente em ABC News