Wang Yi x Mike Pompeo - A Conferência de Segurança de Munique 2020

Wang Yi x Mike Pompeo - A Conferência de Segurança de Munique 2020

O Ministro das Relações Exteriores da China e o Secretário de Estado americano compartilharam visões divergentes sobre Relações Internacionais durante seus discursos na Conferência de Segurança de Munique no fim de semana.

Por Andrew Korybko

Mike Pompeo pregou que "o Ocidente está ganhando" e, por "Ocidente", ele se referiu a "qualquer nação que adote um modelo de respeito à liberdade individual, livre iniciativa, soberania nacional". Essa perspectiva divide o mundo em ocidental e não-ocidental, no último dos quais ele agrupou China, Rússia e Irã.

Wang Yi, entretanto, enfatizou a "necessidade de se livrar da divisão do Oriente e do Ocidente e ir além da diferença entre o Sul e o Norte, numa tentativa de construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade". Essa perspectiva é muito mais abrangente, visionária e não conflitiva, concentrando-se mais na melhoria do padrão de vida das pessoas do mundo, em vez de jogar "games" geopolíticos do tipo que Pompeo gosta.

O ex-diretor da CIA atacou a China, a Rússia e o Irã acusando-os de violar a integridade territorial e a soberania geral de outros povos, acusando especificamente a China de "invadir as zonas econômicas exclusivas" de seus vizinhos, explorando a Huawei como um "cavalo de Tróia" para inteligência chinesa" e "pontos sensíveis da infraestrutura nacional como pagamento quando os países não conseguem cumprir seus onerosos termos de empréstimo ". Essa onda não provocada de ataques informacionais pretendia impugnar a reputação internacional conquistada com muito esforço pela China.

Portanto, não é por nada que Wang disse à platéia que "todas essas acusações contra a China são mentiras, sem base em fatos. Mas se substituirmos o assunto da mentira da China para a América, talvez essas mentiras se tornem fatos". Ao contrário de sua contraparte, no entanto, ele não passou a maior parte do seu discurso atacando outras pessoas, mas explicou como sua visão de país de futuro de comunidade compartilhada poderia ser construída sobre o princípio central do multilateralismo, que garantiria o desenvolvimento de todos e reforçaria as regras básicas da ordem internacional.

O ministro das Relações Exteriores da China garantiu a todos que "os genes culturais da China não permitem que o país siga uma maneira antiga de buscar a hegemonia como as grandes potências da história". Ele então sugeriu que o "Ocidente também deveria descartar sua mentalidade subconsciente de supremacia da civilização, abandonar seu preconceito e ansiedade sobre a China e aceitar e acolher o desenvolvimento e revitalização de um país do Oriente com um sistema diferente do Ocidente." Esta foi uma mensagem muito poderosa que está em desalinho com a de Pompeo.

O secretário de Estado americano pretendia usar seu tempo no púlpito para assustar os rivais geopolíticos de seu país, na esperança de impor medo aos europeus o suficiente para que eles cheguem a mudar suas políticas em relação a eles de maneiras que sirvam apenas para beneficiar os grandes interesses estratégicos dos EUA. Por isso, ele passou tanto tempo conversando sobre a suposta "ameaça" que China, Rússia e Irã representam para sua definição do coletivo "Ocidente". O objetivo principal era apresentar os EUA como o único capaz de "defender" seus parceiros desses estados perversos.

Segundo Pompeo, "perseguimos a missão de proteger a soberania no contexto multilateral", mas isso não é verdade. Os exemplos que ele listou foram a coalizão regional para mudança de regime contra a Venezuela, seus recentes esforços malsucedidos para conduzir os estados da Ásia Central a se voltarem contra a China e a Rússia e seus avisos ao Conselho do Ártico sobre as intenções supostamente hostis desses dois estados naquela região. Todos esses esforços agressivos tem o objetivo de criar blocos exclusivos para conter os rivais geopolíticos dos EUA.

A verdadeira proteção da soberania no contexto multilateral é alcançada através da comunidade de futuro compartilhado que Wang discutiu. Envolve a inclusão total e o tratamento de todos os países como iguais e também evita qualquer ação unilateral (ou superficialmente multilateral) voltada contra qualquer outro país. Esses são os princípios sobre os quais o sistema internacional contemporâneo foi estabelecido na Carta da ONU, e é essa nobre ordem mundial que a China está defendendo diante das incessantes tentativas dos EUA de miná-los.

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Andrew Korybko é Analista político norte-americano radicado na Rússia

Originalmente em oneworld.press