A Arquitetura Política do Novo Oriente Médio| Thierry Meyssan

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Por Thierry Meyssan

Moscou e Washington estão preparando a reorganização do Levante que desenharam durante a reunião de Genebra (conhecida como “Yalta 2”) em 16 de junho. O objetivo é tirar conclusões da terrível derrota militar ocidental na Síria, mas sem humilhar os Estados Unidos.

De acordo com este acordo de paz, a Síria seria colocada na zona russa, enquanto o Líbano seria compartilhado entre o Ocidente e a Rússia.

As cúpulas de Bagdá e Cairo

Estamos caminhando para uma retirada do exército americano do Iraque para que este país se torne um mediador, uma zona neutra, em vez do Líbano. Assim, o Iraque convocou uma cúpula em Bagdá com sete de seus vizinhos (Arábia Saudita, Egito, Emirados, Irã, Jordânia, Kuwait e Turquia). A França conseguiu juntar-se aos participantes tanto como representante do Ocidente quanto como uma antiga potência colonial.

O ex-diretor do serviço secreto iraquiano e agora Primeiro Ministro, Mustafa al-Kazimi, mostrou seu grande conhecimento das questões regionais e sua capacidade de manter o equilíbrio entre a Arábia Saudita sunita e o Irã xiita. Apesar de vários contatos ao longo do ano passado e de uma retórica mais conciliadora, estas duas potências não souberam como resolver suas múltiplas disputas, particularmente no Iêmen.

O encontro de Bagdá foi uma oportunidade de mostrar uma aliança entre o Presidente Abdel Fattah al-Sissi (Egito) e o Rei Abdullah II (Jordânia) para administrar (mas não resolver) o problema palestino. Foi imediatamente seguido por uma reunião no Cairo dos dois chefes de Estado com seu homólogo palestino, o presidente Mahmoud Abbas. Este último foi um tanto mais conciliador ao estar ciente de que, a partir de agora, nenhum país árabe virá em auxílio de seu povo. Não é possível exigir justiça por 70 anos enquanto trai todos aqueles que o ajudam.

A presença francesa foi interpretada como um anúncio de uma intervenção militar de Paris após a retirada dos Estados Unidos. O Presidente Emmanuel Macron tem ambições de enviar tropas ao Líbano para defender os interesses ocidentais, pois o país está sob a tutela conjunta dos EUA e da Rússia.

A Turquia esteve em passo arrastado durante toda a cúpula. Não pretende deixar as regiões do Iraque e da Síria, países que invadiu sem receber uma compensação ocidental. Mas não quer que os mercenários curdos, que também são aliados dos Estados Unidos, sejam tratados da mesma maneira. No entanto, a França continua acreditando que os turcomenos e curdos do norte da Síria poderiam, cada um deles, obter alguma forma de autonomia dentro da República Árabe da Síria. A Rússia, que é uma federação étnica, parece ser a favor disso, porém Damasco ainda não quer ouvir sobre isso porque sua população é muito heterogênea. Antes da guerra, os turcomenos e os curdos não eram maioria em nenhum lugar. Rojava, um território “auto administrado” pelos curdos sírios, é apenas uma fachada para a presença militar americana. Os Estados Unidos temem que sua retirada militar do Iraque represente o mesmo pânico para seus colaboradores curdos na Síria que sua retirada do Afeganistão representou para seus colaboradores pashtun.

A Síria foi a grande ausente nos rumores da cúpula. Uma delegação secreta do país foi vista em Washington. Segundo informações, Moscou está considerando a participação da Síria na Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), o equivalente russo da OTAN.

Nesta linha tracejada, a cúpula de Bagdá foi marcada pela questão dos hidrocarbonetos no Mediterrâneo. Os campos de petróleo e gás foram identificados. Sua exploração continua em grande parte impossível porque é necessário fixar as fronteiras que não foram estabelecidas, depois conceder autorizações a empresas capazes de perfurar em profundidade sob uma grande quantidade de água e finalmente tornar as instalações seguras. A divisão entre os pró-EUA e pró-Rússia ainda não está clara. Dependerá da docilidade de cada partido para se adequar ao molde político que está proposto.

O caso impossível do Líbano

O futuro do Líbano não foi mencionado em Bagdá, mas está se tornando mais claro. Em teoria, este país, que participou da guerra contra a Síria do lado ocidental, será o único em que o Pentágono não aplicará a doutrina de Rumsfeld/Cebrowski da “guerra sem fim”.

Parece impossível reformar a atual lei eleitoral, que divide o país em múltiplos círculos eleitorais ligados a cada uma das 17 comunidades religiosas entre as quais o território está dividido. No entanto, este sistema ficou sem força e mostrou sua inanição. Mas se um sistema democrático de representação política fosse adotado, não há dúvida de que Hassan Nasrallah seria eleito Presidente da República e que o Hezbollah teria a maioria no Parlamento. Ninguém quer isso.

Talvez, entretanto, a partilha do poder entre o Presidente da República ( Cristão ), o Presidente do Governo ( Sunita ) e o Presidente da Assembléia ( Xiita ) possa ser alcançada. Com isto em mente, em 30 de julho, o Conselho Europeu adotou um quadro de sanções contra líderes políticos libaneses que se recusam a aceitar qualquer mudança estrutural. Por enquanto, ninguém foi nomeado, mas tal arma está pronta para ser usada.

A questão é ainda mais complicada pelo fato de a divisão de poder na administração ser entre três supercomunidades, mas não igualmente: 50% cristãos, 30% xiitas e 20% sunitas. No entanto, a composição da população não parou de mudar desde a guerra civil dos anos 1980. Hoje, tanto quanto sabemos, os cristãos são apenas 20%, os sunitas 35% e os xiitas 45%. O Presidente da República, o General Cristão Michel Aoun, defende suas “prerrogativas” com unhas e dentes, ou seja, o domínio histórico de sua comunidade sobre as demais.

A França planeja enviar um contingente para as eleições legislativas previstas para 8 de maio (logo após as eleições presidenciais francesas). Seus soldados garantirão a segurança dos postos de votação. Ninguém duvida que serão bem sucedidos, se nada mudar. Mas na primeira reforma, aqueles que chegaram sob aplausos serão tidos como ocupantes e expulsos. Que ideia bizarra ter eleições legislativas garantidas pelo antigo poder colonial! Todos se lembram que em 1983, duas terríveis explosões destruíram simultaneamente as sedes das forças francesas e americanas em Beirute – enquanto os chefes regionais da CIA se reuniam ali -; dois atos de guerra que deixaram 299 mortos. Bernard Emié, diretor da Direção Geral de Segurança Exterior (DGSE) e também encarregado do Líbano para o Palácio do Eliseu, estava otimista e assegurou que a Guerra Fria havia terminado e que este tipo de evento nunca mais aconteceria; a Guerra Fria certamente havia terminado, mas o desejo de independência do povo persistia.

Sem se dar conta, a França está lançando as bases para seu próximo fiasco: O Presidente Macron continua repetindo a retórica do Presidente Biden: não ajudará nenhum Estado a se construir, mas todos eles a lutar contra o terrorismo. Este é o slogan da Coligação Internacional no Iraque e na Síria, que há 7 anos não pára de massacrar civis e de nortear jihadistas. Foi também a dupla fala do Presidente Biden para justificar a tomada do poder do Talibã no Afeganistão e o ressurgimento do Daesh. Em resumo, é sempre a maneira de falar quando queremos devastar Estados.

Os libaneses construíram um sistema de corrupção que não tem nenhuma relação com o que existe em outros lugares. Os vários líderes das 17 comunidades confessionais se dão muito bem em extorquir coletivamente o máximo de dinheiro possível de seus respectivos protetores. Depois, redistribuem mais ou menos esse dinheiro para sua base. Por exemplo, se você quiser construir uma grande infra-estrutura, geralmente terá que pagar subornos para compensar as pessoas cujos direitos você está violando ou os funcionários responsáveis pela aplicação das leis locais. Não no Líbano. Ali, para ajudar uma comunidade, você tem que compensar as outras 16 por não ajudá-las. Cada ajuda tem que ser paga duas vezes: uma ao beneficiário, e outra aos 16 líderes das outras comunidades religiosas. Isto funciona enquanto os poderes externos estiverem envolvidos em suas rivalidades, mas se torna trágico se também concordarem entre si. De repente, não há mais dinheiro nenhum.

Na esperança de que o acordo entre os Estados Unidos e a Rússia perdure, a França pretende reconstruir o Líbano. Concedeu o porto de Beirute e o porto de Trípoli (e suas refinarias) à Rússia. Moscou havia proposto reconstruir tudo via leasing, mas alguns libaneses não querem os russos e se recusam a pagar duas vezes. Então, por que não a proposta francesa? Mas os israelenses pensaram que o porto de Haifa substituiria o porto de Beirute. Eles também vão pedir o dízimo.

Em todo caso, nada pode ser construído até que o Líbano tenha um governo. O governo de Hassan Diab renunciou desde… 10 de agosto de 2020. O ex-primeiro ministro Saad Hariri, que era esperado que o sucedesse, finalmente jogou a toalha. Outro ex-primeiro ministro, Najib Mikati, que desde então tem sido procurado, também pode fazer o mesmo. Ambos enfrentam o Presidente da República, General Michel Aoun, que pretende não apenas manter uma minoria de bloqueio no governo, mas também manter os Ministérios do Interior e da Justiça para que seus homens não possam ser julgados, e os dos Assuntos Sociais e da Economia para controlar as negociações com o FMI. Os sunitas querem reequilibrar as instituições, proteger seus homens e ter acesso à galinha dos ovos de ouro do FMI. Idem para os xiitas.

A única saída seria sacrificar um bode expiatório, Riad Salamé, o chefe do Banco Central, um cristão que se pôs a serviço da família sunita Hariri. Ele seria obrigado a assumir a responsabilidade pelos crimes coletivos e pela falência do país em troca da manutenção dos privilégios da comunidade cristã.

Única personalidade acima do resto, o Secretário Geral do Hezbollah (mas aparentemente não os outros líderes de seu partido) está tentando salvar seu país. Hassan Nasrallah tem comprado petróleo iraniano, apesar das sanções dos EUA, para que seus concidadãos possam abastecer seus carros, aquecer suas casas e trabalhar. 82% dos libaneses vivem agora abaixo da linha de pobreza de acordo com as Nações Unidas, embora um dia seu país fosse tão rico que chegou a ser apelidado de “Suíça do Oriente Médio”. Um protesto imediato das outras 16 comunidades que não receberão as propinas exigidas pelo sistema.

Dois petroleiros iranianos estão atualmente no Mediterrâneo. Os Estados Unidos não os apreenderam, nem os afundaram, como costuma fazer sem que ninguém proteste nem contra o ato de guerra nem contra suas conseqüências ambientais. Uma delegação de senadores americanos que visitou o Líbano na semana passada condenou levemente esta violação do embargo dos EUA e elogiou a iniciativa do embaixador americano. Propuseram a importação de gás egípcio. Uma delegação de ministros libaneses visitou Damasco, a primeira desde o início da guerra em 2011. Discutiram este projeto desde que o gás egípcio deva transitar pela Síria. Também um projeto para comprar energia elétrica da Jordânia, novamente via Síria. E talvez, mas isso não deveria ser dito, o desembarque de petroleiros iranianos no porto de Banias, em vez de no Líbano.

Na realidade, não é possível modificar o funcionamento do Líbano enquanto cada comunidade viver na memória da Guerra Civil e do medo de ser massacrada. A única solução é garantir a paz civil e depois mudar todo o sistema de uma só vez. Esta pode ser a ambição da França, mas não será possível por causa de seu passado. Outra solução seria organizar um regime militar, já que o exército é a única instituição que todos os libaneses apreciam. No entanto, o exército está na parte inferior da hierarquia social, mais que os trabalhadores domésticos imigrantes. Os soldados recebem 60 dólares por mês em comparação com os 200 dólares das mulheres que são forçadas a trabalhar. Em qualquer caso, seu líder, o General Joseph Aoun (sem relação com o Presidente) foi treinado nos EUA. Ele está a postos.

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Thierry Meyssan é jornalista e presidente-fundador da Rede Voltaire

Originalmente em Rede Voltaire

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