A árvore de dinheiro: a história não contada da ajuda norte-americana a Israel | Ramzy Baroud

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Por Ramzy Baroud

Em 21 de dezembro, o Congresso dos Estados Unidos aprovou o Pacote de Medidas contra a COVID-19, como parte de uma verba maior de 2,3 trilhões de dólares destinada a cobrir os gastos para o resto do ano fiscal. Como de costume, os representantes dos EUA alocaram uma enorme soma de dinheiro para Israel.

Enquanto o desemprego, portanto a pobreza, nos EUA está disparando como resultado de repetidos lockdowns, os EUA acharam essencial fornecer a Israel 3,3 bilhões de dólares em “assistência de segurança” e 500 milhões de dólares para a cooperação EUA-Israel de defesa antimísseis.

Embora um mísero pagamento de US$ 600 para ajudar famílias americanas em dificuldades tenha sido tema de vários meses de intenso debate, houve pouca discussão entre os políticos americanos sobre os grandes fundos distribuídos a Israel, para os quais não há retorno.

O apoio a Israel é considerado uma prioridade bipartidária e tem sido, durante décadas, visto como o item mais estável da agenda da política externa dos EUA.  O simples questionamento de como Israel utiliza os fundos – se a ajuda militar está sendo ativamente utilizada para sustentar a ocupação ilegal da Palestina por Israel, financiar assentamentos judeus, financiar a anexação de terras palestinas ou violar os direitos humanos palestinos – é um grande tabu.

Um dos poucos membros do Congresso a exigir que a ajuda a Israel seja condicionada ao respeito dos direitos humanos por parte deste último é o senador democrata Bernie Sanders, de Vermont, que também foi um dos principais indicados presidenciais pelo Partido Democrata. “Não podemos dar carta branca ao governo israelense… Temos o direito de exigir o respeito aos direitos humanos e à democracia”, disse Sanders em outubro de 2019.

Seu rival democrata, agora presidente eleito, Joe Biden, logo se opôs: “A idéia de que eu retiraria a ajuda militar, como outros sugeriram, de Israel, é bizarra”, disse ele.

Não é segredo que Israel é o principal beneficiário mundial da ajuda dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial.  De acordo com dados fornecidos pelo Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA, Israel recebeu 146 bilhões de dólares do dinheiro dos contribuintes americanos em novembro de 2020.

De 1971 a 2007, a maior parte desses fundos provou ser fundamental para ajudar Israel a estabelecer uma base econômica forte. Desde então, a maior parte do dinheiro foi alocada para fins militares, incluindo a segurança do empreendimento ilegal de assentamentos judeus de Israel.  

Apesar da crise financeira americana de 2008, o dinheiro americano continuou a ser canalizado para Israel, cuja economia sobreviveu à recessão global, em grande parte incólume.

Em 2016, os EUA prometeram ainda mais dinheiro. O governo democrata Barack Obama, que é freqüentemente – embora erroneamente – visto como hostil a Israel, aumentou o financiamento dos EUA para Israel por uma margem significativa. Em um Memorando de Entendimento para 10 anos, Washington e Tel Aviv chegaram a um acordo pelo qual os EUA concordaram em dar a Israel 38 bilhões de dólares em ajuda militar cobrindo os anos fiscais de 2019-2028. Este é um aumento enorme de US$ 8 bilhões em comparação com o acordo anterior de 10 anos, concluído no final de 2018.

Os novos fundos americanos estão divididos em duas categorias: US$ 33 bilhões em subsídios militares estrangeiros e US$ 5 bilhões adicionais em defesa antimíssil.

A generosidade americana tem sido há muito atribuída à influência incomparável de grupos pró-israelenses, liderando entre eles o Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel (AIPAC). Os últimos quatro anos, no entanto, exigiram pouca pressão desses grupos, já que agentes poderosos dentro da própria administração se tornaram os principais defensores de Israel.
A generosidade americana tem sido há muito atribuída à influência inigualável de grupos pró-israelenses, liderando entre eles o Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel (AIPAC). Os últimos quatro anos, no entanto, exigiram pouca pressão desses grupos, já que agentes poderosos dentro da própria administração se tornaram os principais defensores de Israel.

Além das aparentemente intermináveis “liberdades políticas” que a administração Donald Trump deu a Israel nos últimos anos, está agora considerando formas de acelerar o cronograma de entrega do restante dos fundos dos EUA, conforme determinado pelo último Memorando de Entendimento, uma quantia que atualmente é de US$ 26,4 bilhões. De acordo com documentos oficiais do Congresso, os EUA “também podem aprovar vendas adicionais do F-35 para Israel e acelerar a entrega de aeronaves KC-46A de reabastecimento e transporte para Israel”.

Estes não são todos os fundos e benefícios que Israel recebe. Muito mais não é relatado, pois é canalizado indiretamente ou simplesmente promovido sob o título flexível de ‘cooperação’.

Por exemplo, entre 1973 e 1991, uma enorme soma de US$ 460 milhões de fundos norte-americanos foi alocada para a reinstalação de judeus em Israel. Muitos desses novos imigrantes são agora os próprios militantes israelenses que ocupam os assentamentos ilegais na Cisjordânia. Neste caso particular, o dinheiro é pago a uma instituição privada de caridade conhecida como United Israel Appeal que, por sua vez, dá o dinheiro à Agência Judaica. Esta última desempenhou um papel central na fundação de Israel em cima das ruínas das cidades e vilarejos palestinos em 1948.

Sob o disfarce de doações beneficentes, dezenas de milhões de dólares são enviados regularmente a Israel na forma de “doações dedutíveis de impostos para assentamentos judeus na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental”, informou o New York Times. Muito do dinheiro, falsamente promovido como doações para fins educacionais e religiosos, muitas vezes encontra seu caminho para financiar e comprar moradia para colonos ilegais, “assim como cães de guarda, coletes à prova de balas, escopos de fuzil e veículos para proteger postos avançados (ilegais) nas áreas ocupadas (palestinas)”.

Com bastante freqüência, o dinheiro dos EUA acaba nos cofres do governo israelense sob falsas pretensões. Por exemplo, o último Pacote de Estímulo inclui 50 milhões de dólares para financiar os Fundos da Parceria para a Paz no Oriente Médio Nita M. Lowey, supostamente para fornecer investimentos em “intercâmbios de pessoas e cooperação econômica … entre israelenses e palestinos com o objetivo de apoiar uma solução negociada e sustentável de dois Estados”.

Na verdade, esse dinheiro não serve a nenhum propósito em particular, já que Washington e Tel Aviv se esforçam para assegurar o fim de um acordo de paz negociado e trabalham em conjunto para matar a agora defunta solução de dois Estados.

A lista é interminável, embora a maior parte desse dinheiro não esteja incluída nos pacotes oficiais de ajuda dos EUA a Israel, portanto, recebe pouco escrutínio, muito menos cobertura da mídia.

Em fevereiro de 2019, os EUA retiveram todos os fundos para a Autoridade Palestina na Cisjordânia, além de cortar a ajuda à Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos (UNRWA), a última linha de apoio necessária para fornecer educação básica e serviços de saúde a milhões de refugiados palestinos.

A julgar por seu legado de apoio contínuo à máquina militar israelense e à expansão colonial em andamento na Cisjordânia, Washington insiste em servir como principal benfeitor de Israel – se não como parceiro direto – enquanto ignora completamente os palestinos. Esperar que os EUA desempenhem um papel construtivo para alcançar uma paz justa na Palestina não só reflete uma ingenuidade indefensável, mas também uma ignorância deliberada. 

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Ramzy Baroud é jornalista e o editor do The Palestine Chronicle. Ele é o autor de cinco livros. Seu último é “These Chains Will Be Broken”: Histórias Palestinas de Luta e Desafio nas Prisões Israelenses” (Clarity Press). Dr. Baroud é pesquisador sênior não-residente no Centro para o Islã e Assuntos Globais (CIGA) e também no Centro Afro-Médio Oriente (AMEC). Seu site www.ramzybaroud.net

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