A batalha de Lepanto e os fantasmas da Europa | Fabio Reis Vianna

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Por Fabio Reis Vianna

Assim como o mundo antigo e seus impérios pré-modernos se viram alijados do jogo sistêmico quando um apêndice a oeste da grande eurásia revelava-se uma máquina de expansão e acumulação de poder cada vez mais violenta, hoje a Europa se vê em uma crise existencial sem precedentes.

Neste mês de outubro completam-se 450 anos da célebre batalha de Lepanto, quando o poderoso Império Otomano sofreu o primeiro grande baque que ao longo dos séculos seguintes o encaminhariam para um lento declínio, até a sua desintegração definitiva.

Ocorrida em 1571, Lepanto representou, em termos simbólicos, o embate mais característico entre a cristandade e o mundo muçulmano.

Naquele momento histórico, uma Europa ainda fragmentada e imersa em suas eternas lutas internas via-se sob a sombra de uma invasão que provavelmente mudaria os rumos do sistema interestatal tal qual conhecemos hoje.

Na primeira hora da manhã do dia 7 de outubro de 1571, as frotas da coalizão formada pelo império espanhol de Felipe II, os Estados Pontifícios e as decadentes repúblicas de Veneza e Gênova encontravam-se frente a frente à poderosa máquina de guerra naval do sultão otomano Salim II.

Não custa lembrar que apenas 30 anos antes os otomanos derrotaram a poderosa esquadra do almirante Andrea Doria em Preveza, na Grécia.

Podemos supor, portanto, que o expansionismo europeu iniciado pelos ibéricos, graças à recentralização do poder político em alguns impérios territoriais, teria sido abortado caso aquela crucial batalha não tivesse sido bem-sucedida, pois provavelmente, tanto a península italiana, quanto a península ibérica, teriam sido invadidas se o avanço otomano no mediterrâneo ocidental não tivesse sido contido.

Passados 450 anos, a instabilidade que se via restrita à Europa durante aquele “longo século 16”, hoje parece ter retornado, mas em escala global. Impulsos expansionistas se alastram desde a aurora da pandemia em meados de 2020.

Neste exato momento podemos observar claramente o aumento da pressão competitiva se alastrando pelo chamado Indo-Pacífico, com o acordo militar entre Estados Unidos, Reino Unido e Austrália para conter a China e um aumento considerável de movimentações perigosas que poderiam certamente sair do controle e levar a região a uma escalada sem precedentes.

Do movimento de frotas navais conjuntas entre Reino Unido, Estados Unidos, Holanda, Canadá, Japão e Nova Zelândia no mar do sul da China às incursões militares chinesas no espaço aéreo de Taiwan, tudo converge para um cenário de aumento das tensões para os próximos anos.

Na Europa, a “novidade” é a volta de um conhecido barril de pólvoras que parecia adormecido: os Bálcãs. Assim como na crise da Bósnia, no início do século 20, que pressagiaria o que viria a ocorrer poucos anos depois, tensões entre a Sérvia e o Kosovo refletem a ressurgência de sentimentos nacionalistas que muito se parecem com aquele período histórico.

Paradoxalmente, porém, se no período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial os antigos impérios pré-modernos estavam de joelhos para a Europa – inclusive com a desintegração total e definitiva do moribundo Império Otomano – atualmente o Ocidente observa perplexo a subida destes mesmos antigos impérios, agora em nova roupagem e adaptados ao jogo do sistema interestatal capitalista.

A fragmentação política da Europa há tempos não era tão aparente: o Rei está nu.

Na verdade o velho continente revela-se naquilo que no fundo sempre foi, salvo durante o esplendor do Império Romano e do curto império de Carlos Magno.

A humilhação francesa no caso Aukus e o adeus da “chanceler eterna” Angela Merkel apenas expõem a crise de identidade de uma União Europeia sem rumo e espremida entre a disputa hegemônica dos países baleia.

No recente encontro do Conselho Europeu, o chefe de política externa da UE, Josep Borrel, referiu-se à aliança Aukus entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos como uma “chamada de despertar” para a Europa, assim como Clement Beaune, ministro francês para os assuntos europeus, reforçou a ideia de que o Velho Continente necessita estabelecer seu próprio rumo estratégico.

450 anos depois da batalha que mudou o passado, o presente e o futuro, uma velha e fragmentada Europa volta a se ver assombrada por fantasmas de uma ancestralidade que se recusa a dizer adeus.

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Fabio Reis Vianna é escritor e analista geopolítico

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