A conta iraniana está muito cara para que Israel consiga pagar | Elijah J. Magnier

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Por Elijah J. Magnier

Durante décadas, Israel teve a primeira e última palavra no Oriente Médio. Após a derrota dos exércitos árabes em 1967, os líderes israelenses acreditaram por muitos anos que uma pequena força militar israelense poderia ocupar qualquer país árabe e que Israel poderia atacar qualquer alvo no Oriente Médio sem ser responsabilizado ou dissuadido. Israel manteve sua superioridade aérea e desfrutou de inteligência e apoio militar ilimitados dos EUA e do Ocidente. Juntos não imaginavam que a Resistência no Oriente Médio, habituada a receber golpes e a estar sob ataque contínuo, estava de fato aprendendo a arte da guerra. Lições de guerras anteriores e experiências compartilhadas têm sido desenvolvidas para alcançar um equilíbrio de dissuasão entre os beligerantes. Por isso, Israel está agora  fracassando regularmente em manter a superioridade em cada batalha.

A “pressão máxima” dos EUA e as duras sanções não conseguiram subjugar o Irã desde a vitória da “Revolução Islâmica”, impuseram um caminho de auto-suficiência e o forçaram a desenvolver suas capacidades militares. Ao longo dos anos, o Irã tem acumulado experiências e capacidade militar, e conseguiu criar um cinturão de aliados que compartilham a rejeição à hegemonia dos EUA e os planos expansionistas de seu aliado Israel. O Irã conseguiu chegar a um ponto em que diz a seus parceiros: Eu vou para o campo de batalha à sua frente e você está atrás de mim ou ao meu lado. O Irã se tornou um adversário aberto de Israel, respondendo a qualquer sabotagem ou assassinato com um golpe semelhante. Não só isso, mas o Irã também pode ser o primeiro a atacar (quando e se necessário), já que armou e equipou seus aliados com a mais moderna tecnologia de guerra, criando uma grave ameaça tanto para Israel quanto para os interesses e planos dos EUA no Oriente Médio. A conta iraniana é muita cara para que Israel consiga pagar. 

No último fim de semana, um míssil disparado de um drone atingiu um navio comercial que havia deixado o porto de Jeddah em direção ao porto de Jebel Ali, nos Emirados Árabes Unidos. Inicialmente, a notícia foi dada a respeito de um navio israelense de propriedade do empresário israelense Eyal Ofer, proprietário da Zodiac Maritime (navegando sob o nome de CSAV TYNDALL).  De fato, descobriu-se que o navio foi vendido vários meses antes à JP Morgan, uma empresa sediada no Reino Unido para a EMEA, POLAR 5 Ltd.

Este ataque ocorreu depois que o Irã foi submetido a um ataque suicida com drone no mês passado em Kharaj, onde um centro de fabricação de centrífugas pertencente à Organização de Energia Atômica do Irã foi atingido. Israel, através dos boatos de seus funcionários, assumiu o ataque, como noticiado na mídia hebraica. Assim, o segredo de Tel Aviv em suas “batalhas entre as guerras” não está mais preservado (na verdade desde a chegada de Benjamin Netanyahu ao poder e de seu ex-chefe da Mossad, Eli Cohen).

Consequentemente, as operações secretas israelenses foram reveladas. Assim, Israel não usa mais a mídia norte-americana para divulgar as notícias de sua “responsabilidade” pela sabotagem das atividades de inteligência, como costumava fazer no passado. Em vez disso, isto se tornou um jogo aberto, que serve à imagem pública de Netanyahu.

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O Irã também seguiu o mesmo método ao vazar a notícia de que o navio foi atingido horas antes do anúncio oficial. O objetivo é transmitir uma mensagem a Israel de que qualquer ataque será enfrentado com um golpe semelhante e que a cartela de objetivos do Irã não é pequena. O Estreito de Hormuz, o Mediterrâneo e o Oceano Índico oferecem um terreno perfeito para o “olho por olho” no quintal do Irã.

O Irã está enviando mais de uma mensagem: a primeira é para seus aliados que respondem diretamente a Israel, e não há necessidade de sua intervenção neste caso. Cada um desses aliados tem sua política interna, e não há necessidade de maiores implicações. O Irã enviou esta mensagem em voz alta ao bombardear a mais extensa base militar dos EUA no Iraque em 2020 com 16 mísseis de precisão. Este é o comportamento de um país forte que está preparado para enfrentar a responsabilidade, as consequências ou se engajar em um confronto maior. O Irã está dizendo a Israel que responderá a cada ataque sem hesitar e escolherá o alvo para corresponder ao ataque que o atingiu. Esta mensagem também é dirigida aos EUA se o acordo nuclear vacilar e as questões estiverem abertas a potenciais possibilidades militares.

O Irã e seus aliados aprenderam com experiências anteriores a melhor maneira de enfrentar tanto os EUA quanto Israel. Durante a guerra do Líbano em 2006 e a guerra da Síria em 2011, Israel mostrou como poderia ir longe demais com seus ataques e fanfarronice sobre eles se não for imposta uma regra de engajamento e se não houver uma dissuasão estratégica. Na Síria, Israel atingiu mais de mil alvos porque Damasco não quer dispersar seus esforços e sim concentrar-se em libertar o país inteiro e reconstruir as cidades liberadas após a guerra, e não em um novo conflito. Entretanto, no Líbano, o “Hezbollah” impôs o poder de dissuasão e destruiu o prestígio israelense ao ameaçar o seu exército, o forçando a desaparecer ao longo da fronteira com o Líbano. O exército israelense se escondeu por vários meses após o assassinato de um membro de sua organização em Damasco. Na Palestina, a “Espada de Jerusalém” impôs a Israel uma nova política dissuasiva que o impede de atacar Jerusalém e as famílias palestinas do bairro Sheikh Jarrah.

A segunda mensagem vai para os países do Oriente Médio (Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Bahrein) que normalizaram ou mantiveram um bom relacionamento com Israel. O Irã está dizendo que está monitorando de perto todos os movimentos e que nenhum navio israelense está seguro, todos eles estão expostos a ataques e são considerados alvos potenciais.

Seria um desafio concluir quem começou? Durante anos, Israel contribuiu para aumentar as sanções dos EUA contra o Irã: matou cientistas nucleares iranianos, contribuiu para o assassinato do Major General Qassem Soleimani e atingiu postos militares iranianos na Síria, instalações nucleares em diferentes partes do Irã, sabotou navios e atingiu petroleiros. Por outro lado, o Irã armou e apoiou o Hezbollah desde os anos 80, impediu a queda da Síria em 2011, armou Gaza e investiu nos Houthis no Iêmen desde 2015, impedindo a divisão do Iraque e o controle pelo ISIS do país.

Os ganhos do Irã são estratégicos: criaram aliados fortes e permanentes causando uma ameaça real à “mão solta” e à agressão de Israel, enquanto os ataques israelenses são táticos e não afetam a força e o progresso do Irã. Israel está agora ciente de que o Irã responderá a cada ataque contra qualquer alvo iraniano, onde quer que ele esteja localizado. Consequentemente, os ataques israelenses se tornaram nada mais do que um show, uma mensagem sem sentido.

A resposta iraniana foi estrondosa: reverberou porque o mundo não está acostumado a ver nenhum país enfrentando Israel cara a cara. Além disso, neste confronto, o Irã parece ignorar o forte aliado de Israel (os EUA) mesmo durante uma negociação crítica em Viena sobre o acordo nuclear, e certamente está rompendo o prestígio que Israel desfruta há décadas. O Irã transformou os ataques israelenses em uma oportunidade de mostrar sua força e ousa responder diretamente – além disso vaza as notícias para a mídia sem declarar sua responsabilidade.

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Elijah J Magnier é correspondente de guerra veterano e analista de risco político sênior com mais de três décadas de experiência

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