A derrota no Afeganistão e a ‘Glasnost’ Americana | Dmitry Orlov

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Por Dmitry Orlov

Os eventos recentes me forçaram a interromper a programação regular para lhes trazer um relato sobre os desenvolvimentos no Afeganistão e o que acredito que representam para os EUA. Os EUA e a OTAN finalmente deixaram o Afeganistão após uma ocupação de 20 anos. Neste momento*, ainda se mantém no Aeroporto Internacional Hamid Karzai em Cabul, do qual estão tentando repatriar seus cidadãos junto com os afegãos que serviram à ocupação. Estes colaboradores agora temem pela vida sob o Talibã, que rapidamente tomou conta de quase todo o país naquela que foi provavelmente a operação de mudança de regime mais sem derramamento de sangue que alguma vez experimentou uma parte do mundo.

A ocupação americana do Afeganistão foi racionalizada com base em todo um edifício de mentiras. Em seu alicerce foi posta a mentira do 11/9. Acima dela estava a mentira da luta contra o terrorismo (enquanto treinava e equipava os terroristas). Em algum ponto da estrutura, a mentira de ajudar o desenvolvimento do Afeganistão rumo a uma democracia vibrante e moderna com igualdade de gênero e outros penduricalhos foram acrescentados a esta estrutura já estupenda (enquanto o único desenvolvimento real era o do comércio de heroína). E, é claro, a sobreposição de tudo isso foi uma quantidade verdadeiramente assombrosa de corrupção e roubo.

Se você acredita na narrativa oficial, Osama bin Laden foi uma espécie de Jesus dos últimos dias que repetiu o milagre dos pães e peixes mas com arranha-céus, derrubando três deles (WTC 1, 2 e 7) usando apenas dois aviões. Outro de seus milagres foi fazer um jato de passageiros inteiro, pilotado por um amador, fazer algumas acrobacias verdadeiramente impressionantes que nenhum jato de passageiros fez antes ou depois, em seguida subir ao paraíso através em uma parede do Pentágono, motores, assentos, bagagens, corpos e tudo, deixando atrás de si apenas uma pequena abertura carbonizada com uma parte de míssil de cruzeiro que aparentemente tinha sido escondida a bordo e que posteriormente foi levada envolta em uma lona nos ombros de alguns cavalheiros muito nervosos e de aparência desagradável em trajes de escritório. Outro avião cheio de passageiros deixou um pequeno fosso carbonizado no solo e gravações de conversas telefônicas de celular bastante roteirizadas realizadas enquanto o suposto avião estava em uma área sem cobertura telefônica celular. Bin Laden orquestrou toda essa confusão por telefone satélite, ou por telepatia, sem nunca deixar o conforto de sua caverna no Afeganistão. Eu o encorajo a acreditar nesta narrativa porque acreditar na alternativa pode fazer com que você enlouqueça. Muitas pessoas já o fizeram.

E se você deseja ser teimoso e se recusa a acreditar na narrativa oficial, então torna-se bastante plausível pensar que o 11/9 foi um embuste americano: que os três arranha-céus foram minados por alguns americanos, que o Pentágono foi atingido por um míssil de cruzeiro americano disparado por mais alguns americanos e que Osama bin Laden era um agente da CIA que fazia vídeos e fitas de áudio arranhadas para inspirar os terroristas de estimação americanos (com a marca Al Qaeda, mais tarde rebatizada de ISIS/ISIL/Daesh/Califado Islâmico). Osama esperava uma aposentadoria confortável em algum lugar no amigável Paquistão – uma aposentadoria que foi cortada por um ataque de um grupo de fuzileiros navais algum tempo depois de sua morte por falência renal.

Por que os americanos fariam isto a si mesmos? Para governar o mundo, claro! Eles tinham comprado a teoria do “heartland” de Mackinder, segundo a qual qualquer poder do mundo que controle o heartland da Eurásia controlará o mundo. Se você acha que controlar uma pilha de rochas habitadas por nativos intratáveis e bélicos cuja mente está presa na idade média não é propício para governar o mundo inteiro, então você é definitivamente mais inteligente do que um nabo comum, mas ainda não é bom o suficiente para ser um dos brilhantes estrategistas geopolíticos da América.

Os desdobramentos do 11/9 forneceram a fundamentação para os 20 anos de ocupação militar EUA/OTAN no Afeganistão, que custou mais de 2 trilhões de dólares e causou cerca de meio milhão de mortes indevidas. Isso não foi de forma alguma uma pechincha – atacar alguém não custa nada perto de US$ 4 milhões por cabeça, não no Afeganistão  especialmente, bastante pobre e cheio de armas. Uma suposição conservadora é que muito desse dinheiro foi simplesmente roubado. De fato, ver relatos do antigo presidente afegão Ashraf Ghani fugindo do país em um helicóptero tão cheio de dinheiro que muito dele teve que ser abandonado na pista é uma clara indicação de como os fundos estavam sendo alocados no curso da ocupação americana.

É oficialmente sabido que pouco mais da metade do dinheiro foi para encher os cofres de cinco empreiteiros de defesa – Lockheed Martin, Raytheon, General Dynamics, Boeing e Northrop Grumman. Seus produtos foram utilizados livremente em toda a extensão do Afeganistão, resultando em fabulosas quantidades de danos colaterais. Alguns também armaram os militares afegãos, que se renderam ao Talibã sem luta, armas e tudo mais, exceto 22 jatos militares e 24 helicópteros militares que fugiram para o Uzbequistão junto com 585 soldados. Este equipamento, incluindo helicópteros BlackHawk de primeira linha com todos os aparelhos instalados recentemente, serão agora capturados, e provavelmente alvo de chacota de especialistas russos. (O propósito da aquisição de armas nos EUA não é produzir armas eficazes, mas obter lucros para Lockheed Martin, Raytheon, General Dynamics, Boeing e Northrop Grumman).

Mas, você pode perguntar: E quanto aos frutos do controle do heartland? E quanto ao controle do mundo inteiro, uma vez ali instalado? Uma vez na região, os americanos descobriram que o Afeganistão não oferecia muito exceto nativos mal-humorados e campos de papoilas. E enquanto os primeiros não tinham qualquer utilidade no que diz respeito a garantir o domínio mundial, os segundos, transformados em heroína, podiam ser usados estrategicamente para enfraquecer toda a Eurásia, transformando sua população em um bando de drogados. Para este fim, o Afeganistão foi transformado na fábrica mundial de heroína, produzindo 85% do fornecimento global estimado de heroína e morfina, um quase monopólio. Antes da invasão do Afeganistão pelos EUA/OTAN, o cultivo de papoula havia sido proibido pelo Talibã, portanto, esta era uma conquista inteiramente ocidental.

O plano era fazer com que a heroína afegã escorresse por toda a Eurásia circundante em caravanas de camelos que atravessavam enormes desertos inabitáveis, e parte disso de fato aconteceu, mas rapidamente se descobriu que havia mais dinheiro a ser ganho com o transporte aéreo usando aviões militares americanos voando para o Campo Bondsteel no Kosovo, que se tornou o principal ponto de transbordo de heroína. E assim grande parte da heroína acabou nos EUA e na UE, a um ponto em que há mais de 10 milhões de dependentes de opiáceos nos EUA e as mortes por overdose só nos EUA chegam a meio milhão por ano e crescem rapidamente, sendo as mortes relacionadas às drogas a principal causa de morte entre os não-geriátricos. Mas parece que estes são apenas os viciados em opiáceos que entram na conta, enquanto o abuso de opiáceos é muito mais difundido e, a julgar pela rápida queda da expectativa de vida geral, bastante severa.

Uma boa pergunta a ser feita é: O que acontecerá aos viciados em heroína depois que o Talibã, mais uma vez, se atrelar ao cultivo da papoula. Será fácil para eles agora que não há tropas dos EUA/OTAN guardando os campos de cultivo. Eles compensarão o déficit de receita vendendo armas americanas como troféu no mercado negro. A resposta provável é que os drogados mudarão (e já estão mudando) para o opiáceo sintético fentanil, que os chineses estão felizes em fornecer em quantidades arbitrariamente grandes. Qualquer sugestão de que os chineses possam querer parar de fazer isso pode levar a uma menção educada da Guerra do Ópio e a uma sugestão de que o que vai, volta. A certa altura, um quarto dos chineses eram viciados em ópio; vamos ver se os americanos conseguem bater esse recorde. Para ter certeza, a heroína afegã não é a única culpada pela epidemia de abuso de opiáceos nos EUA. A família Sackler fez muito para construir uma verdadeira esteira transportadora que primeiro viciou as pessoas em analgésicos receitados, depois as abandonou às drogas de rua quando as receitas acabaram. Mas a heroína afegã se qualifica como um grande bumerangue da política dos EUA, ao lado de muitos outros.

Outra boa pergunta a ser feita é: De onde vem o desejo de dominar o mundo, tomando o controle do heartland e o inundando com heroína (e refugiados afegãos)? Há certamente a necessidade de manter o complexo militar-industrial zumbindo e canalizando dinheiro para os cofres eleitorais do Congresso, e depois há a ambição megalomaníaca geral de vários Washingtonianos de ambos os partidos, mas isso está longe de ser tudo. A necessidade geral de interromper, degradar e geralmente causar estragos é um elemento chave do plano de negócios geral dos Estados Unidos, que é continuar a viver além de suas possibilidades simplesmente imprimindo dinheiro.

A única maneira de fazer este plano de negócios funcionar é os EUA se apresentarem como uma ilha de estabilidade em um mundo caótico e um porto seguro financeiro onde os oligarcas ladrões do mundo podem lavar com segurança seus ganhos ilícitos. Uma vez que este plano falhe, os EUA cairão no terceiro mundo e entrarão diretamente numa interminável encenação da Guerra Civil com munição real. Daí toda a atual Sturm und Drang sobre os EUA/OTAN, que se retira apressadamente do Afeganistão.

Por que quem se importa com o Afeganistão? Claro, ele tem heroína, mas o fentanil é ainda mais potente e não envolve toda a confusão com o cultivo de papoulas e a colheita e processamento de molho de papoula. E me desculpem se não acredito que os militares americanos mortos ou cidadãos americanos deixados para trás se qualificam como algum tipo de tragédia nacional; é o que normalmente acontece em uma retirada apressada. E quando foi que os americanos não abandonaram seus aliados locais? Os curdos do norte da Síria, que os americanos em retirada abandonaram aos sempre tão amigáveis turcos, são o último exemplo que me vem à mente; mas quantos americanos ainda se lembram mesmo assim tão distantes. É simplesmente o que os americanos fazem – sempre.

Esta retirada precipitada sinaliza, em algum lugar no subconsciente profundo (porque a compreensão é muito dolorosa) o fim da economia do algo-em-troca-de-nada da qual os EUA têm  dependido cada vez mais desde que Nixon tirou o dólar americano do padrão ouro 50 anos atrás. Esta doença pode ter sido lenta em se desenvolver, mas é crônica, incurável e invariavelmente fatal. O orçamento federal americano de 2021 é de US$ 6,8 trilhões e o déficit orçamentário é de US$ 3 trilhões. Esta é uma dosagem de morfina financeira em nível de cuidados paliativos.

Neste ponto, nenhuma quantidade de morfina financeira permitirá que o paciente americano se levante de sua cama, tire o soro de seu braço e vá causar ainda mais caos no mundo, semeando medo. O medo e o caos estão agora bem dentro dos próprios EUA. Os 753,5 bilhões de dólares que os EUA estão gastando na defesa em 2021 é mais do que os nove países que mais gastam juntos, mas não é o suficiente para causar caos suficiente para assustar o mundo inteiro e continuar a honrar o dólar americano no comércio internacional ou para investir em ativos denominados em dólares; tudo o que resta é inércia financeira e um pouco de excitação em torno da maior bolha de mercado do mundo, que o federal reserve americano está soprando desesperadamente.                                                                                                                     

A angústia mental produzida por esta situação resulta em imagens terríveis do aeroporto de Cabul. Ignorado é o fato de que o resto do Afeganistão tornou-se de repente bastante tranquilo, com os rapazes do Talibã de olhos brilhantes e barbudos armados com as últimas e maiores armas dos EUA patrulhando mercados e esquinas. O ISIS-K, os terroristas de estimação americanos no Afeganistão, do pedigree de Bin Laden/Al Qaeda, ficaram em silêncio. Costumavam organizar regularmente explosões de bombas em Cabul, matando rotineiramente centenas de habitantes locais, mas agora o único lugar onde eles ainda explodem pessoas é no aeroporto, que também é a única área ainda sob controle americano.

Os americanos foram simpáticos o suficiente para compartilhar seu inteligente plano de batalha com seus aliados da OTAN, razão pela qual o Lord Pedófilo da Inglaterra e Madame Petite-Pute da França (não posso me dar ao trabalho de procurar seus nomes reais) foram a público com notícias sobre este ataque terrorista bem antes de ele acontecer. Treze militares americanos morreram; muitos mais locais morreram porque os militares sobreviventes dos EUA abriram fogo sobre as vítimas. Ninguém foi a corte marcial e ninguém renunciou; como de costume. O motivo pelo qual os rapazes do ISIS-K foram acusados desta missão é óbvio. Os americanos precisam de uma razão para interromper a evacuação de seus nacionais e de seus servidores afegãos locais, como exigido pelo Talibã, e agora têm uma desculpa: a segurança de seus serviçais é primordial.

A retirada americana do Afeganistão era inevitável, mas o que tem surpreendido e aterrorizado o mundo inteiro é a simplesmente inimaginável estupidez da operação em todos os níveis. Em comparação com a retirada soviética, é uma profunda humilhação nacional. Os soviéticos se retiraram em ordem de batalha, bandeiras hasteadas, e deixaram para trás um governo funcional que permaneceu no poder por mais três anos, resistindo com sucesso aos esforços ocidentais para derrubá-lo, e só caiu quando o apoio soviético parou porque a URSS havia caído -essencialmente por causa da traição de Gorbachev. Mas os afegãos ainda se lembram e, como os russos, ainda os chamam de “Shuravi” (soviéticos) e são gratos à Rússia por tudo o que ela construiu ali. A embaixada russa em Cabul está totalmente equipada e funcionando normalmente, mantendo canais bem estabelecidos de comunicação com o Talibã. Em contraste, durante seus 20 anos de ocupação, os americanos não construíram nada, destruíram muito e são quase que universalmente odiados e desprezados.

Acredito que a extrema e aparente incompetência dos americanos no Afeganistão é o resultado do efeito corrosivo das mentiras. Uma base de mentiras é inevitavelmente instável e só pode ser evitada sob circunstâncias cuidadosamente controladas. Por exemplo, um certo oligarca sombrio pode promover uma certa vacina tão eficaz contra um certo vírus, enquanto sua real intenção é deter o crescimento populacional tornando as mulheres estéreis. Isto funciona porque as estruturas corporativas podem ser organizadas em torno de uma estratégia de gestão conhecida como teoria do cogumelo (mantê-las no escuro e alimentá-las com merda). Mas não funciona para todo um império militar em expansão, onde a verdade inevitavelmente vaza, as contradições se acumulam e a moral despenca. Uma mentira sempre merece outra, e então a prática de erros, os esforços para corrigir erros e os esforços para esconder os erros tornam-se em grande parte intercambiáveis. A certa altura, os terroristas da CIA estavam combatendo os terroristas do Pentágono na Síria. Isso foi realmente incômodo e difícil de esconder. Felizmente, os russos resolveram esse problema bombardeando todos eles para o esquecimento.

A ocupação do Afeganistão começou com as terríveis mentiras do 11/9 continuou com as ridículas desculpas forjadas para a invasão e depois continuou por 20 longos anos, cada um muito parecido com o anterior, com as mentiras de cada ano se acumulando sobre as mentiras dos anos anteriores. Os Estados Unidos tiveram que ficar por causa do terrorismo causado pelos terroristas que primeiro organizaram para combater os soviéticos, depois mantidos como pets. E agora falar a verdade na América é como gritar fogo em um teatro lotado. O pobre velho Joe Biden, seu cérebro fazendo cada vez mais barulho, lutando para formar uma frase coerente, trabalhando sob a carga esmagadora destas mentiras, não conseguiu fazer mais do que a posição fetal bem no meio de uma coletiva de imprensa. Você pode imaginar o que faria se de repente parasse de mentir? Eu estremeço só de pensar! Armazenar antes torazina seria prudente. Mas uma “glasnost americana” parece quase inevitável. Mais cedo ou mais tarde, a verdade vai aparecer sobre esta gigantesca barragem repleta de mentiras. A inundação que se seguirá certamente varrerá tudo em seu caminho.

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Texto publicado originalmente em 28.08.21

Dmitry Orlov é engenheiro e escritor russo-americano autor de livros como “Reinventando o Colapso: o Exemplo Soviético e as Perspectivas Americanas” (2008) e “As Cinco Etapas do Colapso” (2013). Seu novo livro é The Arctic Fox Cometh (A vinda da Raposa do Ártico) em 2021.

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