A eletricidade para a Síria e o Líbano na dependência dos EUA | Steven Sahiounie

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Por Steven Sahiounie

No dia 8 de setembro, na Jordânia, os ministros da Energia do Egito, Síria, Líbano e Jordânia se reuniram e acordaram um plano para abastecer o Líbano com gás natural egípcio a fim de convertê-lo em eletricidade. A coletiva de imprensa conjunta confirmou que todos concordaram em reativar o Arab Gas Pipeline (AGP) que liga o gás egípcio à Jordânia, onde será utilizado para produzir eletricidade adicional para a rede que liga a Jordânia ao Líbano, via Síria.

Isto se dá após uma reunião em Damasco, em 4 de setembro, entre autoridades libanesas e sírias discutindo o pedido libanês de importação do gás do Egito e eletricidade da Jordânia através do território sírio.

Entretanto, as sanções dos EUA contra a Síria estão atrasando o processo de ajuda ao Líbano, onde o povo não tem acesso à eletricidade, ao gás e até à água é escassa.

O Egito e a Jordânia estão pressionando a administração Biden a levantar as sanções sírias da Lei César, para facilitar a realização do acordo regional multifacetado.  A Lei César foi aprovada pelo Congresso dos EUA para prejudicar o governo sírio, mas, em vez disso, fez a população síria sofrer de várias maneiras, desde a desvalorização da moeda até a hiperinflação.

Atualmente, a Síria está sofrendo de uma grave falta de eletricidade, com a maioria das casas sem energia de 3 a 4 horas por dia.  Os geradores a combustível não são uma solução, pois há também uma grave carência do produto que é racionado Por mais sofrível que seja a situação na Síria por causa das sanções dos EUA, a situação no Líbano é ainda muito pior.

O Banco Mundial se ofereceu para financiar o projeto, mas está preocupado com a corrupção entre a elite governante libanesa, que é responsável pela situação terrível no país, a qual o Banco Mundial classificou como a pior crise financeira dos últimos 150 anos.

Em uma entrevista coletiva em 4 de setembro, o Secretário-Geral do Conselho Superior libanês-sírio, Nasri Khoury, disse: “O lado libanês exigiu a assistência da Síria ao Líbano para obter gás egípcio e eletricidade jordaniana através do território sírio. O lado sírio afirmou que estavam prontos para atender a esse pedido”.

A crise do Líbano

O Líbano caiu em grave colapso depois que o povo se revoltou contra a corrupção sistêmica da elite dominante. O governo fracassou em fornecer até mesmo os serviços mais básicos: água, combustível, alimentos e eletricidade.  Muitos hospitais fecharam, e aqueles abertos estavam lutando para encontrar medicamentos.

Após o colapso libanês, foi feito um esforço para atrair energia elétrica da Jordânia através da Síria, fornecendo quantidades do gás egípcio para a Jordânia, permitindo que produzisse quantidades adicionais de eletricidade para ser instalada na rede que liga a Jordânia ao Líbano, via Síria.

O Egito havia fornecido gás ao Líbano em 2009 e 2010, mas os suprimentos terminaram logo em seguida, quando a produção de gás do Egito diminuiu. O Cairo reiniciou a exportação de gás através do gasoduto em 2018, mas o produto tem ido esmagadoramente para a Jordânia.

A Electricite du Liban assinou um acordo com o Iraque para comprar combustível pesado a ser convertido em eletricidade, o que deve cobrir cerca de um terço das necessidades da EDL, e abastecer o país por cerca de quatro meses.

O gás egípcio está planejado para chegar ao Líbano para operar centrais elétricas alimentadas a gás, que estão fora de serviço há 11 anos.

Também está sendo pedido a Washington que conceda uma licença separada à Jordânia para distribuir eletricidade de sua rede ao Líbano, que precisaria passar pela Síria.

A crise síria

O governo dos EUA colocou a Síria sob rigorosas sanções no setor petrolífero, o que torna o acordo do Arab Gas Pipeline (AGP) complicado para todas as partes regionais interessadas.


Ataques a dutos

Em 2011, quando a violência da “Primavera Árabe” começou, terroristas armados no Egito atacaram o lado egípcio do AGP inúmeras vezes.  O ataque a um oleoduto não visa mudar o governo, nem trazer liberdade e democracia para o Oriente Médio.  Esses ataques visavam ferir e aterrorizar a população civil, e muito provavelmente foram realizados por moradores locais que seguiam a ideologia política da Irmandade Muçulmana que justificava a matança de muçulmanos, como eles mesmos, para remover um governo secular, no caso da Síria, e estabelecer um Estado islâmico.

A seção Homs do oleoduto foi atacada em 2012, quando Arwa Damon da CNN foi infiltrada com os terroristas no local.

Em 2016, e em 2020 os terroristas atacaram o AGP na Síria. A população síria logo soube que os terroristas os via como inimigo.  É por isso que o Exército Livre da Síria, e seus afiliados da Al Qaeda perderam sua guerra contra o povo sírio, porque não receberam o apoio e a participação do público, que veio a desprezá-los.

A história do oleoduto

O AGP tem 1.200 km de extensão e é um gasoduto de exportação trans-regional construído para transportar gás natural do Egito para a Jordânia, Síria e Líbano.

As principais partes interessadas no AGP incluem a Egyptian Natural Gas Holding Company (EGAS), Engineering for the Petroleum and Process Industries (ENPPI), The Petroleum Projects and Technical Consultations Company (PETROJET), a Egyptian Natural Gas Company (GASCO) e a Syrian Petroleum Company (SPC).

O governo egípcio em 1995 permitiu que empresas nacionais e internacionais de petróleo e gás perfurassem ativamente em busca de gás. A demanda interna de gás foi satisfeita em 1999, e o governo começou a procurar mercados de exportação para o excedente.

Em 2001, o Egito e a Jordânia iniciaram diálogos, que mais tarde incluíram a Síria e o Líbano. Israel, Turquia e Iraque também assinaram acordos para cooperar no AGP.

O AGP tem quatro seções. A primeira seção se estende de Arish, no Egito, até Aqaba, na Jordânia.

A segunda seção vai de Aqaba a El Rehab, que fica perto das fronteiras entre a Jordânia e a Síria. A terceira seção se estende da Jordânia (El Rehab) até a Síria (Jabber).

O quarto trecho consiste de uma rede de gás na Síria, e está operacional desde 2008. Ela vai de Jabber (lado sírio das fronteiras entre a Jordânia e a Síria) até as fronteiras sírio-turcas, terminando no Líbano. Este trecho tem quatro segmentos. O primeiro segmento vai de Jabber a Homs na Síria, enquanto o segundo segmento liga as cidades de Homs e Aleppo, na Síria. O terceiro segmento se estende de Aleppo até as fronteiras sírio-turcas. O quarto segmento conecta Homs na Síria com Tripoli no Líbano, e esta seção inclui quatro estações de lançamento / recepção, 12 estações de válvulas e uma estação de medição.

O AGP também pode conectar a rede de gás do Iraque para facilitar a exportação de gás iraquiano para o mercado europeu.

Em janeiro de 2008, foi assinado um Memorando de Entendimento entre a Turquia e a Síria para a extensão do AGP de Homs, na Síria, até a cidade fronteiriça turca de Kilis. Da Turquia, é provável que o AGP seja conectado ao gasoduto Nabucco proposto para a entrega do gás egípcio na Europa. O Arab Gas Pipeline também deverá ser conectado à rede de gás do Iraque para facilitar a exportação de gás iraquiano para o mercado europeu.

O que vem por aí?

Os EUA vão renunciar às sanções para ajudar os povos sírio e libanês?  O Presidente Macron recentemente co-sediou uma reunião regional em Bagdá, e anteriormente organizou uma reunião para ajudar o Líbano a se recuperar. Será que Macron vai pedir a Biden que renuncie às sanções contra a Síria para fazer este acordo, ou a França vai continuar a receber ordens de Washington?  Biden tem poder político para fazer com que uma renúncia às sanções seja aceita pelo Congresso dos EUA? 

O Arab Gas Pipeline é um grupo de vizinhos tentando trabalhar em conjunto para resolver seus próprios problemas, mas os EUA mantêm o dedo sobre o interruptor de luz.

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Steven Sahiounie, jornalista e comentarista político premiado, residente na Síria

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