A guerra arde no norte de Moçambique | Guadi Calvo

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Por Guadi Calvo

Desde o mês de março, as tropas das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) vêm travando uma importante batalha contra as milícias do Ahlu Sunnah Wa-Jamaa (Seguidores do Caminho Tradicional ou Defensores da Tradição), tributários do Daesh, pela estratégica cidade de Palma, a 1800 quilômetros de Maputo, na província de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, local bastante próximo da península Afungi, onde a francesa Total, está construindo uma fábrica de gás natural liquefeito, com um investimento, em 2019, de 4 bilhões de dólares (26%) com um horizonte final de 15 bilhões, e que está absolutamente estagnada. Esperava-se iniciar os envios do produto em 2024, mas a deterioração da situação de segurança está tornando essa meta inatingível. Na área de gás de Cabo Delgado, mais investimentos estão sendo negociados com outros seis grupos internacionais além da Total, entre eles a italiana ENI e a americana ExxonMobil. Este projeto se tornou um dos mais importantes do continente, contudo, se as operações terroristas continuarem, poderá entrar em colapso.

O assalto a Palma começou 24 horas depois que a empresa francesa anunciou o reinício dos trabalhos, o que  se deu depois de os ataques terroristas terem sido suspensos em janeiro passado. Estes já geraram centenas de mortos, algumas fontes informam que tanto nas ruas de Palma, como em suas praias havia centenas de cadáveres, muitos deles decapitados, uma característica distintiva dos mujahedines moçambicanos.

O ataque à cidade foi lançado após semanas de operações terroristas, que conseguiram isolá-la do restante da província, bloqueando suas rotas de acesso, de modo que o único meio de abastecer seus 75.000 habitantes foi reduzido ao aeroporto, que já foi atacado pelos foguetes dos insurgentes, assim como também  o porto.

No início do ataque, cerca de cem terroristas conseguiram chegar ao centro de Palma, onde assaltaram vários bancos e tomaram conta de um hotel, onde pelo menos duzentas pessoas foram mantidas reféns.

O governo do Presidente Filipe Nyuss estabeleceu um raio de “segurança especial” de quatro quilômetros ao redor da planta da Total, Palma está a dois quilômetros desse limite, sendo oprimida pela situação, já que as ações dos helicópteros armados que atacavam os terroristas pareciam não estar fazendo diferença em suas fileiras.

Pouco se pode saber do que estava acontecendo dentro da cidade já que os takfirists conseguiram cortar as comunicações com Palma e seus arredores, embora alguns residentes tenham conseguido se comunicar por telefones via satélite, de modo que que muitos residentes escaparam para as florestas vizinhas, enquanto centenas de trabalhadores estrangeiros, principalmente sul-africanos, britânicos e franceses se refugiaram em diferentes hotéis que estavam sendo atacados pelos insurgentes. De acordo com alguns relatórios locais, as forças governamentais abandonaram a cidade, de modo que poderia ser tomada pelos fundamentalistas, como aconteceu em agosto passado com a cidade portuária de Mocimboa da Praia, cinqüenta quilômetros ao sul de Palma.

Acredita-se que somente no Hotel Amarula, se refugiaram cerca de duzentas pessoas, enquanto helicópteros do governo tentaram criar um corredor de segurança para resgatá-los. Os relatórios não confirmam se os “hóspedes” foram finalmente liberados, embora existam algumas versões, que insistem que entre eles houve várias baixas, só no domingo passado foram mortos pelo menos sete. Naquela sexta-feira (26) também, cerca de dezessete veículos militares, com trabalhadores estrangeiros, tentaram chegar a um lugar na costa para serem resgatados, mas dado o intenso fogo a que o comboio foi submetido, apenas sete teriam chegado à praia, sem saber o destino dos dez restantes. Enquanto no domingo, soube-se que um barco com 1400 pessoas, que conseguiu escapar do local de Afungi, na noite anterior, chegou a Pemba, a capital de Cabo Delgado, a cerca de 200 quilômetros de distância, incluindo trabalhadores estrangeiros e residentes de Palma, enquanto outras embarcações menores, como veleiros particulares e até canoas, continuavam a chegar carregadas de refugiados ao mesmo porto.

O Presidente Filipe Nyusi não tem certeza de quanta ajuda estrangeira necessita, mas tem certeza de que não quer “botas estrangeiras no terreno”, afirmou o analista Alexandre Raymakers. Isso convém a potências ocidentais como Portugal e França, que têm certeza de que não querem enviá-las.

Atualmente se trata de uma das frentes mais ativas do grupo e particularmente desde o início de 2020, sua atividade se multiplicou, com inúmeros ataques contra a população civil, destacamentos militares e centros tanto da administração pública como privada. A pilhagem de pequenas aldeias incluiu seqüestros e assassinatos em massa, como o que aconteceu em abril de 2020 na aldeia de Xitaxi, onde cerca de cinqüenta aldeões foram executados. Algo semelhante aconteceu em novembro passado, quando um grupo de quinze crianças, acompanhadas por cinco mais velhas, foram surpreendidas por um terrorista khatiba, quando estavam praticando uma cerimônia de iniciação na área florestal do distrito de Muidumbe, após a qual foram todas assassinadas. Com mais de 3.000 mortos e cerca de um milhão de desalojados, os takfiristas se tornaram um novo flagelo para a já bastante castigada população moçambicana.

Particularmente em Cabo Delgado, com uma população de quase 2,5 milhões de pessoas, um quarto delas teve que abandonar tudo e recuar para áreas mais seguras. Esta situação, segundo analistas da Anistia Internacional, e o clima de terror que se instalou na população, está provocando uma verdadeira “epidemia” de doenças mentais, enraizada nos traumas derivados das experiências de violência a que foram submetidos. Segundo alguns relatos, não são apenas os mujahedins que cometem ações contra a população civil, mas em muitas ocasiões se sabe que os regulares das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) também cometeram abusos contra civis, em muitos casos devido ao puro autoritarismo e em outros porque são suspeitos de colaborar com os terroristas. Assim, há casos de extrema aflição, como testemunhar um ente querido ser desmembrado vivo, ou mulheres que tiveram que escolher entre um filho ou outro para serem incorporados às fileiras das milícias.

Como parte da campanha de expansão do Ahlu Sunnah Wa-Jama, se sabe que os rebeldes vêm travando uma feroz batalha contra as tropas das FADM pelo controle da estratégica cidade de Palma, na qual dezenas de civis já foram mortos e as ruas da cidade estão repletas de cadáveres. O destino de dezenas de trabalhadores do setor de energia estrangeiros também era desconhecido.

Cabo Delgado recebeu pouca atenção ou desenvolvimento do governo até a descoberta de pedras preciosas e reservas de gás em 2009. Em janeiro, a empresa francesa de energia Total suspendeu as operações no projeto de gás Afungi em Cabo Delgado por questões de segurança.

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Guadi Calvo é escritor e jornalista argentino. Analista internacional especializado em África, Oriente Médio e Ásia Central

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