A Revolta no Cazaquistão nos traz Grandes Lições | Fabio Sobral

1

Por Fabio Sobral

O Cazaquistão sofre uma revolta interna de grandes proporções. Uma revolta iniciada contra a elevação dos preços dos combustíveis.

A revolta evoluiu para confrontos sangrentos nas ruas das principais cidades. O presidente revogou os aumentos e pediu a renúncia do primeiro ministro. Mesmo assim, os manifestantes aumentaram seus ataques a prédios públicos e a forças policiais, quase como uma repetição do método utilizado para derrubar o governo Yanukóvych na Ucrânia, no que ficou conhecido como revolta da Praça Maidan.

O governo cazaque pediu o apoio militar dos outros países do Organização do Tratado de Segurança Coletiva (Rússia, Armênia, Bielorrússia, Tadjiquistão, Quirguistão). Forças militares foram enviadas para combater os manifestantes, que foram chamados de terroristas pelo governo do país.

Um fato que chama a atenção é que havia a clara intenção de derrubar o governo, sem que o atendimento das exigências iniciais detivesse a fúria da revolta.

Há muito o que refletir nesse episódio.

A primeira reflexão é sobre a geopolítica. O Cazaquistão é essencial para a Rota da Seda e, consequentemente, para a expansão do maior mercado do mundo. É essencial para a China. Obviamente desperta a fúria de corporações associadas ao poderio americano. Além disso, levar o Cazaquistão a tornar-se inimigo da Rússia traria enorme vantagem militar à OTAN. Ou seja, conquistar esse país obedece à doutrina militar americana de cerco à Rússia e à China.

A segunda reflexão é sobre um velho motivo das guerras do século XX e XXI: domínio de fontes de combustíveis fósseis e de minerais. O Cazaquistão possui enormes reservas de petróleo e gás, além de outros recursos minerais estratégicos, como urânio e potássio. Mesmo que companhias ocidentais participem da exploração, isso nunca foi garantia de satisfação para corporações petrolíferas e de outras commodities. Sempre é possível ganhar mais. E para isso, governos subservientes são mais adequados.

A terceira reflexão é de que várias revoluções têm sido organizadas por grupos de extrema direita dirigidos por órgãos de inteligência americanos e financiados por corporações internacionais. Revoluções do atraso, da xenofobia e do combate às conquistas sociais e trabalhistas. Inteiramente dedicadas ao retrocesso humano, social, econômico e político.

A pergunta central é: como isso foi possível?

O século XX observou uma imensa corrupção do pensamento, que foi capturado por financiamentos de órgãos de inteligência no período da Guerra Fria. Os financiamentos aos “pensadores” adequados a determinado sistema se expandiram. Os currículos de certos cursos nas universidades foram sendo transformados em divulgação ideológica grosseira. Basta ver os currículos da maioria dos cursos de economia no mundo. Uma devoção a princípios irreais e análises desconectadas da realidade. O resultado é que tivemos, desde o término da Segunda Guerra, uma corrupção do pensamento, uma subjugação da análise a interesses governamentais e empresariais. “Intelectuais” pagos para manter as populações subjugadas.

Temos assim uma repetição de análises em um círculo vicioso. Uma profunda incapacidade de entender os fenômenos e enxergar saídas para problemas urgentes que nos afetam.

Um desses problemas é a incapacidade de perceber que há uma base real para as revoltas populares, e que o problema econômico da apropriação do excedente continua central nas preocupações das populações.

A queda dos regimes do Leste europeu e da União Soviética pareceu ter eliminado o debate da exploração e da apropriação das riquezas. Os governos ocidentais, à esquerda e à direita, passaram a agir de forma igual na retirada de direitos previdenciários, trabalhistas e sociais. Aproximaram-se as políticas de imigração dos países mais ricos, diminuindo direitos para obter uma mão de obra temerosa e, por isso, extremamente barata.

Nos países do antigo bloco soviético forma incorporadas alegremente tais políticas. A desigualdade se ampliou e a miséria e a superexploração tornaram-se comuns.

Porém, a geopolítica volta a intervir; era preciso criar inimigos, afinal, as vendas de armas, de sistemas de inteligência, de sistemas de segurança e o controle de fontes de matérias-primas precisavam se expandir e manter as altas taxas de acumulação do capital.

A Rússia foi pega de surpresa. Vladimir Putin ainda hoje reclama da agressividade ocidental e do cerco promovido pela OTAN ao território russo e dos seus aliados, aparentemente sem entender que aderir ao capital não é garantia de segurança.

Os lados ocidental e oriental se irmanaram em políticas concentradoras de renda. A esquerda aderiu à proposta de gestão neoliberal do capital, perdendo sua capacidade de ser representante política e intelectual das camadas exploradas. Mas a desigualdade está lá e ainda com um imenso potencial de revolta.

No ocidente a revolta foi dirigida pela extrema direita para aspectos que não destroem a normalidade da acumulação do capital. O capital convive com as faces do progresso social e da barbárie. Apesar de que a barbárie é mais lucrativa. Mas ele pode ainda manter países socialmente organizados e aparentemente democráticos. É muito importante mantê-los. São imagens para a propaganda da normalidade capitalista. Algo como objetivos a serem visados por países “atrasados” ou insuficientemente capitalistas.

Porém, o avanço da necessidade de ampliar taxas de lucro das corporações tem desmontado a normalidade até nos países capitalistas centrais. E eis que aí surge a possibilidade da revolta. Então, para evitá-la como revolta de combate ao capital, é preciso dirigir a revolta para o atraso de extrema direita.

Uma esquerda pacificada e subserviente já não pode se contrapor à radicalização de direita. Pode apenas “resistir” e reagir à perda do processo civilizatório capitalista, sendo apanhada em uma armadilha em defesa do próprio capital humanizado e progressista. Eis um dos dilemas das lutas sociais no ocidente.

No oriente também os mecanismos econômicos se impõem. As duras condições de apropriação do excedente produtivo pelo capital também concentram as riquezas em poucas mãos. Porém, lá a direita não é usada para estabelecer somente a barbárie, mas para aprofundar a subserviência dos governos aos interesses das corporações. As populações são manobradas no ocidente e no oriente para a manutenção do controle do capital. Mas no oriente há interesses mais amplos e mais destrutivos.

A Rússia e seu presidente sabem dos interesses geopolíticos, mas não compreendem que a luta continua nos moldes seculares do combate entre capital e seres humanos. Não haverá paz nos países orientais enquanto não houver uma proposta de superação do domínio do capital por meio de suas corporações, setores militares e serviços de segurança e inteligência.

Ou seja, as revoluções de direita não serão detidas por armas e inteligência. A espada paira sobre governos que mantêm a desigualdade capitalista e a apropriação das riquezas pelos setores mais ricos.

Em última instância o alarme da urgência ainda é sobre o capitalismo e suas consequências nefastas e a necessidade de uma proposta teórica e prática para a sua superação.

***

Fábio Sobral é membro do Conselho editorial de A Comuna e professor de Economia Ecológica (UFC)

A Revolta no Cazaquistão nos traz Grandes Lições | Fabio Sobral 1

1 COMENTÁRIO

  1. Excelente artigo, Fabio. Gostei da relação do oriente e ocidente com o processo de acumulação e suas especificidades geoeconômicas e geopolíticas.
    Apenas como sugestão, como para o grande público ou mesmo para gente entendida, seria bom explicar mais o contexto dos países orientais. Para mim, por exemplo, achava que o Cazaquistão tinha entrado para a OTAN. PARABÉNS.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui