A sinofobia se junta ao trabalho prisional em um Think Tank australiano | Pepe Escobar

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Por Pepe Escobar

O Ocidente foi literalmente inundado por uma ofensiva de propaganda ininterrupta sobre os campos de trabalho forçado uigures – e completamente desmascarado, por exemplo, aqui. Agora vamos examinar o outro lado – ocidental – da história.  

No início de 2021, a Defense for Children (DCI) levou o Australian Strategic Policy Institute (ASPI) à justiça em Nova Gales do Sul (New South Wales). O processo da DCI denuncia que o ASPI pode ter recebido fundos de vários fabricantes de armas e agências governamentais nos EUA e no Reino Unido lucrando com o trabalho prisional.  

Embora os advogados do ASPI tenham garantido que esses fundos seriam cortados se alguma prova séria surgisse, o caso ficou mais obscuro, e há dúvidas de se alguma vez irá a julgamento.  

Fontes que preferem permanecer anônimas insistiram no fato de que o ASPI exerceu uma séria pressão diretamente na sede da DCI em Genebra para que o caso fosse arquivado.

Então, por que isto é tão importante?

Como muitos de seus pares da Constelação Five Eyes, o Instituto Australiano de Política Estratégica (ASPI) se propõe a ser um “think tank independente e não partidário”.

O ASPI, com sede em Camberra, foi fundado em 2001 – o ano do 11 de setembro. Seu financiamento vem de um pacote misto de instituições australianas, especialmente o Departamento de Defesa australiano, bem como de “agências governamentais estrangeiras”, incluindo o Departamento de Estado dos EUA, o Pentágono e até mesmo a OTAN, que financiou um peculiar “projeto de pesquisa de mídia social”.

O complexo militar industrial dos EUA é bem representado pela Lockheed Martin, Northrop Grumman e Raytheon. Também aparecem outros baluartes da OTAN como a BAE Systems, Thales e Saab.  

O resultado final é que, como uma série de outros grupos de pesquisa da Five Eyes, o ASPI é diretamente financiado pela indústria de armas.

O ASPI teve pelo menos 56 fontes de renda em 2018-19 – descritas de forma branda como “patrocínios” ou “renda comissionada”. No entanto, o que chama a atenção é que uma parte significativa desses fundos de pelo menos 11 doadores pode estar direta e indiretamente ligada ao trabalho prisional, que é equiparado em todo o Ocidente industrializado como escravidão moderna.

Pelo menos 4 doadores do ASPI – Lockheed Martin, Boeing, Raytheon e BAE Systems – foram ligados ao uso de mão-de-obra prisional na fabricação de componentes para suas peças militares.

A Raytheon, por exemplo, pode ter explorado a mão-de-obra prisional diretamente para a montagem de peças eletrônicas para mísseis terra-ar Patriot. Um relatório mostrou como “custa aos presos 23 centavos por hora para fazer peças para o míssil”, e a administração penitenciária tem o direito de reter alguns ou todos os salários dos presos à vontade.

O relatório federal americano sobre o trabalho prisional afirma, sem ambigüidade, que “todos os prisioneiros condenados com poder corporal” são requeridos para o trabalho. A palavra operacional é “requerido”.

A UNICOR, que opera nada menos que 110 fábricas em 65 prisões federais, é descrita de forma branda como o nome comercial de Federal Prison Industries (FPI) nos EUA, uma “corporação governamental auto-sustentável que vende serviços a preços de mercado e bens de qualidade feitos por detentos”, incluindo, é claro, armas para o complexo industrial-militar.  

De acordo com os números de 2019, o governo americano – que de fato opera as fábricas penitenciárias – financiou o ASPI com US$ 1,37 milhões.

A Unisystems, uma empresa de TI que vende interfones para prisões americanas, também financiou o ASPI de 2005 a 2019. O trabalho dos detentos pode ser barato, mas se eles quiserem fazer uma ligação para seus advogados ou para sua família, eles precisam gastar até $24 por 15 minutos.

A BAE Systems financiou o ASPI entre 2014 e 2019. A BAE lucra com os componentes feitos pelo trabalho prisional no sistema aeroespacial do famoso veículo de combate de infantaria Bradley.

A indústria armamentista está totalmente no comando

Complicando a imagem de um sistema dos Five Eyes militarizado e lucrando com desastres em série durante anos no Afeganistão, os militares australianos também foram expostos a um sério escrutínio.      

Em novembro de 2020, o comandante da Força de Defesa Australiana, Angus Campbell, confirmou que as Forças Especiais Australianas estão envolvidas em crimes graves no Afeganistão. Um inquérito prolongado recomendou que 25 soldados, a maioria dentro da elite SAS, deveriam ser investigados por um punhado de casos que levaram ao assassinato de 39 prisioneiros afegãos, incluindo civis – mulheres e crianças – bem como à tortura de outros dois.  

Como se as acusações de soldados australianos cometendo assassinatos no Afeganistão enquanto doadores corporativos a uma empresa australiana lucravam com o trabalho prisional já não fosse uma mistura tóxica o suficiente, “a reviravolta principal é que o ASPI é considerado como a fonte mais autorizada e ‘independente’ para assuntos chineses na Austrália”.

Semelhante a suas contrapartes americanas, o ASPI como uma filial da “Weapons Inc” (indústria das armas). persegue uma agenda clara. Um vetor da pesada literatura para demonizar a China – complementado com detalhados relatórios de “trabalhos forçados” uigures – e promover ativamente o espectro de uma “ameaça estratégica da China”.

O outro vetor são lobbies  – para que mais – para o aumento dos gastos com a defesa, especialmente em mísseis. Isso é território do Quad (EUA, Japão, Índia, Austrália). O Quad precisa conter a China a todo custo.

E é isso que qualifica o ASPI como um lobby de fato para a “Weapons Inc.”, muito mais do que um think tank.

Fica cada vez mais curioso quando se aprende que o governo australiano quer se equipar com o Míssil Anti-Navio de Longa Distância AGM-158C (LRASM) fabricado por ninguém menos que o doador do ASPI,  a Lockheed Martin.  

Portanto, divirta-se com nosso pequeno conto dos Five Eyes, em que um “think tank” australiano focado em demonizar a China 24 horas por dia, 7 dias por semana, recebe alguns de seus empurrões financeiros de uma indústria armamentista que lucra com o trabalho prisional ocidental.

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Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Originalmente em almayadeen.net

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