Afeganistão, do caos a um futuro possível | Fabio Sobral

0

Por Fabio Sobral

As tropas dos Estados Unidos e da Otan têm prazo até 31 de agosto para deixar o Afeganistão. Saem derrotadas e deixam atrás de si um país destroçado e, aparentemente, sem perspectiva. Será real esse futuro desastroso?

Precisamos ver as potencialidades do Afeganistão. Há imensas reservas de terras raras, indispensáveis à indústria de alta tecnologia. Há reservas de cobre. Há terras férteis que podem produzir para o ávido mercado chinês. Até mesmo a produção da papoula pode sair do domínio do tráfico internacional e servir à produção legal de opioides para uso hospitalar. Em suma, há um futuro possível.

Lembremos que a China constrói aceleradamente a Rota da Seda 2, um imenso modal logístico que liga o Pacífico ao Mediterrâneo, ou o Extremo Oriente à Europa, com rotas para o Paquistão, Irã, Iraque, Síria, Líbano, além de Rússia e países da Ásia Central. O grande obstáculo era o Afeganistão, que agora parece ir sendo integrado.

A China busca integrar esses mercados e fazê-los voltar à dimensão que tinham até o século XV. Ali era o centro da cultura e do comércio mundiais, por mais que a visão eurocêntrica não queira admitir. Ali se localizava a cidade de Merv, a maior metrópole do mundo, no que é hoje o Turcomenistão, vizinho do Afeganistão.

Aquela é uma região de contato entre Ocidente e Oriente e sempre foi sede de grandes impérios. A China busca uma alternativa para evitar o Estreito de Málaca, entre a Malásia e Sumatra. Esta é uma área de fácil bloqueio, e em caso de guerra com os EUA o comércio chinês morreria ali. É preciso ter rotas terrestres alternativas, e o Afeganistão é uma saída.

As potências ocidentais jogaram o Afeganistão no caos. Há 40 anos financiaram Bin Laden para atacar o governo aliado à União Soviética. O projeto ocidental era o caos. Depois atacaram o Talibã em 2001, antigo aliado que fora financiado e armado pelos EUA. Uma tragédia para a população, mas um paraíso para a lavagem de dinheiro, as vendas de armas e o tráfico internacional de ópio.

Com o fim das guerras talvez o Afeganistão possa progredir e superar até o atraso cultural dos grupos tribais com seus senhores da guerra.

***

Fábio Sobral é membro do Conselho editorial de A Comuna e professor de Economia Ecológica (UFC)

Originalmente em Diário do Nordeste

Afeganistão, do caos a um futuro possível | Fabio Sobral 1

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui