Afeganistão: nuances de uma explosão expansiva silenciosa | Fabio Reis Vianna

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Por Fabio Reis Vianna

Quando o sistema mundial ainda engatinhava naquele apêndice do continente eurasiático que hoje conhecemos como Europa, Babur, o Rei de Cabul, entrava na Índia pelo noroeste para estabelecer o Império Mogol, em 1526, delineando um império que seria posteriormente consolidado por seu neto Akbar (1556–1605).

O esplendor das grandes civilizações orientais deu-se num período histórico em que a economia, as atividades culturais e o poderio bélico mundial se concentravam em lugares como China, Índia, e o antigo Império Persa, hoje conhecido como Irã.

A retirada estratégica da China dos Ming – civilização mais avançada dentre os grandes impérios pré-modernos – do grande jogo expansionista talvez tenha sido o ponto delimitador entre o antes e o depois da subida geopolítica daqueles, como diria o historiador Paul Kennedy, “povos dispersos e relativamente pouco sofisticados que ocupavam a parte ocidental da massa terrestre euroasiática”, nomeadamente, os europeus.

O vazio chinês ainda permanece um grande mistério para muitos historiadores: por que teria o almirante Cheng Ho recolhido sua esquadra, e aquela grande civilização em ascensão aberto mão de sua expansão rumo a um hegemonismo incontestável no sistema mundial eurasiano?

Passados mais de 500 anos de tais acontecimentos, vemos o atual hegemon do sistema mundial moderno, herdeiro do expansionismo violento e predatório inventado pelos europeus, se retirando de maneira improvisada e atabalhoada daquele território que no passado faria parte do grande Império Mogol do Rei Babur e seu neto Akbar, o Afeganistão.

De acordo com a maioria dos analistas da mídia ocidental, a saída dos Estados Unidos do território afegão deveria ter sido feita de maneira coordenada com o governo títere, aliados, e depois que todos os afegãos que colaboraram com a invasão e ocupação já tivessem saído de cena.

Ocorre que, tanto a saída abrupta do Afeganistão, quanto o primeiro discurso de Biden justificando a saída, confirmariam algo que análises centradas numa liderança americana do passado já não acompanham.

A atual explosão expansiva do sistema mundial, que se iniciou nos anos 70 e moldou-se em contornos imperiais depois do colapso da URSS, parece encontrar-se em um momento único e certamente gerado pelo caos pandêmico.

É verdade que mesmo antes da crise da Covid-19, o aumento da pressão competitiva já era visível, reflexo da entrada no jogo das novas potências emergentes, em especial Rússia e China.

O acirramento da competição interestatal, portanto, teria levado os Estados Unidos a abrir mão de sua liderança global fundada nos valores difusos da chamada “Ordem Liberal” instituída no pós Segunda Guerra Mundial.

A estratégia de segurança nacional de 2017, publicada durante a administração Trump, que na prática já vinha se delineando e aprofundando desde a primeira incursão no Iraque em 1991, agora se revelaria sem máscaras. O rasgar da fantasia do falecido hegemon benevolente estava concretizado.

A grande novidade que o ocorrido no Afeganistão revela configura-se então na recente reunião do G7, em que líderes europeus cobram dos Estados Unidos uma postura mais responsável e de liderança.

No entanto, o que ainda custa aos aliados europeus entenderem, ou aceitarem, é que os Estados Unidos desistiram de qualquer liderança global, e nessa nova configuração estratégica – que não era um ponto fora da curva criado pela errática administração Trump – o interesse nacional, e só o interesse nacional dos Estados Unidos, será a prioridade.

Sendo assim, e levando em consideração que a presença militar dos Estados Unidos no Afeganistão, paradoxalmente, não estaria afetando negativamente os projetos econômicos chineses, e pelo contrário, os favoreceu ao garantir estabilidade na região, é absolutamente plausível a linha de raciocínio que justificaria a saída: instaurar o caos numa região onde aos inimigos eurasiáticos interessaria a estabilidade.

A quarta explosão expansiva do sistema mundial revela-se em aparências assustadoras ao indicar, além do aumento da pressão competitiva e da escalada dos conflitos em si mesmo, um deslocamento daquilo que o professor da UFRJ José Luís Fiori chamaria “buraco negro” de força destrutiva.

O buraco negro, portanto, estaria neste exato momento se deslocando para um novo epicentro bélico que seria provavelmente o Indo-Pacífico, bem como, regiões até então impensáveis como a própria América do Sul.

A recente pesquisa do jornal USA Today indicando um aumento no índice de impopularidade de Joe Biden após o ocorrido no Afeganistão, erroneamente, poderia indicar um passo atrás na saída americana; ocorre que, infelizmente, o que deverá acontecer é justamente o contrário: um dobrar na aposta pelo acirramento do caos sistêmico e da desestabilização global.

O sistema mundial se alimenta da expansão permanente do poder, e isso se torna ainda mais claro quando quem está no topo do sistema se vê desafiado e perdendo terreno para os adversários.

Mais do que nunca talvez tenha chegado a hora dos eurasiáticos ocuparem aquele vazio deixado pela esquadra do almirante Cheng Ho em 1433.

Referências:

ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX: dinheiro, poder e origens do nosso tempo. Rio de janeiro: Unesp,1996.

FIORI, J.L. História, estratégia e desenvolvimento: para uma geopolítica do capitalismo, São Paulo: Boitempo, 2014.

FIORI, J, L. Guerra do Afeganistão: um enigma e quatro hipóteses. Carta Maior. 29 de julho de 2010.

KENNEDY, Paul. Ascensão e queda das grandes potências: Volume I, Lisboa: Publicações Europa-América, 1988.

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Fabio Reis Vianna é escritor e analista geopolítico

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