Afeganistão: Os novos selvagens | Guadi Calvo

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Por Guadi Calvo

Estávamos nos acostumando à vitória do Talibã, já os tínhamos visto colocar “ordem” em Cabul depois de fazer um acordo com os americanos, assim também na área ao redor do Aeroporto Internacional Hamid Karzai na capital afegã, fato que deu origem a milhares de especulações sobre qual caminho os homens do Mullah Haibatullah Akhundzada finalmente seguirão, uma incerteza tão grande como a de quem adivinha qual número sairá na loteria.

Informações sobre o Afeganistão estão inundando as redações do mundo, e os “talibãnólogos” estão emergindo das sombras, obscurecendo tudo, para acrescentar talvez ainda mais confusão à que já existe. Embora suas interpretações errôneas não sejam sequer necessárias para confundir o mundo, apenas as informações provenientes das fontes mais confiáveis são suficientes.

O anúncio do Presidente Joe Biden de que a presença de seus “meninos” terminará em 31 de agosto fez com que milhares de pessoas desesperadas que ainda não conseguiram deixar o país acelerassem e arriscassem a aventura cada vez mais perigosa de chegar ao aeroporto. No início haviam “apenas” oito mortes, uma verdadeira insignificância, se levarmos em conta relatórios recentes confirmando que dois homens-bomba, acompanhados por vários homens armados, pertencentes ao núcleo afegão de Daesh (Estado Islâmico) conhecido como Wilāyat (província ou governo) Khorasan, conseguiram infiltrar-se nas fileiras dos desesperados tentando chegar a um dos vôos, acabaram matando até agora sessenta civis e cerca de uma dúzia de militares americanos, além de 150 feridos, o que foi descrito pelo General Frank McKenzie, comandante do Comando Central dos EUA e oficial encarregado da operação de evacuação, como se ninguém tivesse notado, como uma “falha” de segurança.

Este fato sem dúvida coloca o Presidente Biden em uma encruzilhada verdadeiramente insuperável, repensar o prolongamento da longa permanência no país da Ásia Central, o que provocará a raiva dos mulás, que já haviam advertido na reunião (secreta) da última terça-feira em Cabul entre o diretor da CIA William Burns e o líder político talibã Mullah Abdul Ghani Baradar, com quem avaliou o progresso da evacuação e das operações antiterroristas. Após isso, Baradar, para além das cenas fantásticas que estavam acontecendo no aeroporto, e nas proximidades, deixou claro que não toleraria a prorrogação do prazo da próxima terça-feira 31 para completar a retirada de todas as tropas estrangeiras: mais de 6.000 tropas americanas enviadas após a queda de Cabul, para controlar as operações de evacuação, juntamente com outros 600 soldados sobreviventes do Exército Nacional Afegão (ANA) que permaneceram no aeroporto com os americanos. Se o comando talibã permitisse uma prorrogação do prazo, que expira na próxima terça-feira, e se o quadro político cada vez mais exasperado do presidente dos EUA o tolerasse, é impossível calcular quanto tempo mais eles conseguiriam permanecer em Cabul.

Dada a negativa do Talibã, Biden terá que completar a retirada bem antes de terça-feira. Embarcando suas tropas e deixando o Talibã para resolver as velhas desavenças com o Daesh como eles acharem conveniente, e quanto aos 37 milhões de afegãos, bem, em solo sagrado, Deus os ajude. Os últimos relatórios indicam que o presidente dos EUA optou por manter sua palavra e finalmente encerrar este trágico e longo fracasso.

Se assim for, daquilo que estamos nos preparando para ver, certamente não veremos nada, a menos que algum valente usuário de telefone celular assuma o risco de registrar o pandemônio que está à espreita. Se for decidido que a evacuação terminou, os quase 300 mil afegãos, colaboracionistas e suas famílias, cujas vidas estão em sério risco, verão desde o solo decolar sua última esperança, ao lado de seus executores.

Até antes deste último ataque, as chances eram pequenas, com um avião saindo a cada 39 minutos e mais de 90 mil pessoas já evacuadas.  Os europeus, entretanto, alegaram que nem todos os afegãos em risco de serem punidos por colaborarem com os “infiéis” poderiam não conseguir escapar do rigor dos extremistas. Uma questão extra para aqueles que tentam fugir é que seus passaportes têm algum questionamento tanto pelas autoridades americanas quanto europeias que os verificam praticamente na porta dos aviões. O ataque sem dúvida mudou tudo e o acesso ao aeroporto será ainda mais rigoroso, o que em última análise significa mais tempo, que é mais escasso nesta situação.

Alegações de que o Talibã estava bloqueando o acesso ao aeroporto tinham começado a vir à tona já na terça-feira, uma alegação negada pelos mulás, e que o próprio Biden tinha dito que o Talibã estava tomando medidas para ajudar,  (“Coisas verás, Sancho, que não acreditarás”), observando que havia o risco cada vez mais “agudo e crescente” de um ataque da regional do Daesh, ou Estado islâmico. Ponto para o 46º ocupante da Casa Branca, ele finalmente acertou.

“Eu, o pior de todos”

Parece dizer o Isis Khorasan, agora enfrentando o campeão mundial de todos os pesos pesados do terrorismo internacional: o Talibã. Sabendo que esta disputa, que não será transmitida, será seguida com grande atenção – e o que mais importa para o Daesh, pela multidão de organizações que juraram baya’t (fidelidade) ao grupo em todo o mundo e que tem filiais desde a Nigéria às Filipinas e de Moçambique à China.

Sem dúvida, para Ibrahim al-Qurashi, líder da Daesh, após a morte em 2019 de seu fundador Abu Bakr al-Baghdadi, chegou sua hora mais crucial, colocar-se à altura dos campeões invictos, exemplo e guia de todos os mujahideen do mundo.

Muitos estão hoje descobrindo a presença do Estado islâmico no Afeganistão, ou como preferem chamar aquela região mítica conhecida como Khorasan (Terra do Sol), uma província do antigo Império Persa, que também compreendia partes do Irã, Tajiquistão, Uzbequistão e Turcomenistão, Paquistão e Índia, que na verdade está no país da Ásia Central desde 2015, depois de serem transportados para o norte do Afeganistão, segundo a inteligência iraniana, pelos norte-americanos, que do Iraque e da Síria trouxeram dessas guerras veteranos chechenos, azeris e turcomenos aos quais mais tarde se juntaram os comandantes descontentes do Movimento Talibã do Paquistão (TTP), e Talibãs afegãos de baixa patente.

Constituindo uma força de cerca de dois mil homens, travaram importantes batalhas com o Talibã, como a de Darzab, na província do norte de Jawzjā, entre 12 de julho e o primeiro de agosto de 2018, na qual a maioria dos participantes da Daesh foram executados. Também na província de Helmand, próxima ao Paquistão, o epicentro da produção de ópio e heroína, uma batalha entre as duas forças matou 150 combatentes.

O Willat foi recentemente reforçada por centenas de militantes mantidos nas prisões pelo regime do ex-presidente Ashraf Ghani, incluindo seu emir Aslam Farooqi, preso em março de 2020 após o ataque ao Sikh Gurdwara (templo) de Har Rai Sahib, que deixou 50 mortos. Farooqi sucedeu Abu Omar Khorasani em julho de 2019, após ter sido preso e, segundo o Talibã, executado na prisão em 20 de agosto.

Segundo alguns relatos, alguns contingentes do Willat Khorasan estão supostamente se reunindo na província de Nangarhar, perto da fronteira com o Paquistão, incluindo Farooqi, enquanto outras khatibas (brigadas) estariam na província de Laghman, a 150 quilômetros a leste de Cabul.

O Wilāyat Khorasan tem estado presente intermitentemente no Afeganistão, com grandes ataques, particularmente em Cabul, visando a minoria étnica Hazara de religião xiita. Suas operações incluem um ataque a um hospital pediátrico em um bairro da maioria xiita em maio do ano passado que matou pelo menos 24 pessoas, incluindo recém-nascidos e mães. Mais tarde naquele ano, um ataque à Universidade de Cabul em 2 de novembro matou pelo menos 22 pessoas e um ataque com foguetes ao aeroporto de Cabul um mês depois.

Segundo especialistas da ONU, nos primeiros quatro meses deste ano eles realizaram 77 ataques, incluindo o ataque de 8 de maio à escola feminina Sayed ul-Shuhada em Dasht-e-Barchi, um subúrbio a oeste de Cabul, habitado principalmente por Hazaras xiitas, no qual cerca de 65 pessoas foram mortas e mais de 130 feridas, a maioria delas estudantes da escola.

As ações do Willat Khorasan, e seu compromisso com a violência, deixam ainda mais distante a paz do Afeganistão, diferente daqueles que acreditavam que com a vitória o Talibã as coisas poderiam melhorar, já que os milicianos tem agora os novos selvagens como refúgio.

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Guadi Calvo é escritor e jornalista argentino. Analista internacional especializado em África, Oriente Médio e Ásia Central

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