Afeganistão: somente deserto e sangue | Guadi Calvo

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Por Guadi Calvo

Em 1º de maio, as 2.500 tropas americanas junto com os 7000 parceiros da coalizão ocidental, que invadiram o Afeganistão em 2001, iniciaram a retirada total do país, conforme anunciado pelo presidente Joe Biden, em 14 de abril, sem cumprir os acordos de Doha (Qatar) de fevereiro de 2020, entre a administração Trump e o Talibã.

Neste acordo, os americanos prometeram que a retirada seria concluída até o dia primeiro de maio. Biden de forma unilateral alegou “problemas logísticos” para que somente nessa data começasse a evacuação das tropas, que terminará em 11 de setembro, quando será comemorado o vigésimo aniversário dos ataques às torres de Nova Iorque. O episódio que deu ao então presidente George W. Bush a desculpa para invadir o país da Ásia Central custou a Washington a vida de mais de 2.400 soldados e dois trilhões de dólares. Embora significasse para o Afeganistão a morte, além da devastação de seu território, segundo números “bastante” oficiais, de cerca de 241 mil pessoas, além das centenas de milhares de mortos que Bush Filho e seus sucessores na presidência, afogando nações inteiras em sangue, provocando sua guerra global contra o terrorismo, com a qual não conseguiram nada de bom para a humanidade.

Com a aproximação do mês de maio, relatórios de ataques, bombardeios e assassinatos em larga escala ou direcionados começaram a chegar a uma velocidade vertiginosa, com mais de cem ataques às forças de segurança e outras instalações governamentais em 26 das 34 províncias no dia 4 de maio.

Na sexta-feira, dia 30, um caminhão com explosivos explodiu ao sul de Cabul, matando 27 pessoas. No sábado, um professor da Universidade de Cabul foi morto a tiros como parte de uma campanha de assassinatos direcionados que começou há vários meses, na qual jornalistas, trabalhadores da saúde, funcionários públicos, juízes e intelectuais foram “selecionados”. Também no sábado, o aeroporto de Kandahar foi atacado por um pequeno grupo de forças norte-americanas que desmantelaram o pouco que restava de sua base. Na terça-feira, um oficial superior da polícia foi morto na província de Paktika. Na quarta-feira, cinco milicianos, após horas de luta, desalojaram homens do exército do distrito de Barka, na província de Baghlan, no norte do país.

Fatos que mostram claramente a vontade da liderança do Talibã, se recusando a aceitar o adiamento de Biden, considerando que, a partir de 1º de maio, tinham as mãos livres para atacar qualquer tropa estrangeira dentro do país, uma torpeza que a fina diplomacia do Talibã, não cometerá. Mas se, e como era de se esperar, cresceu a dura investida militar, que vem em escalada, particularmente desde a interrupção das conversações intra-Afeganistão em outubro passado se deu contra diferentes alvos do Exército Nacional Afegão (ANA), em quase todas as províncias do país, demonstrando assim, sua capacidade de operar nas diferentes frentes que se abrem e se fecham praticamente aos seus caprichos. As ações dos rebeldes durante 2020, segundo dados das Nações Unidas, causaram a morte de três mil civis, enquanto aproximadamente seis mil outros foram feridos. Somente na cidade de Cabul, a capital do país, o lugar mais protegido do país, com 4,5 milhões de habitantes, no ano passado houve 255 mortos e 562 feridos.

Os confrontos mais pesados, da escalada iniciada no dia primeiro, ocorreram na sempre disputada província de Helmand, onde ao longo destes vinte anos, tanto os britânicos quanto os americanos sofreram a maior parte de suas baixas, onde estão localizados os grandes campos de papoula, para a produção de ópio e heroína, cujo tráfico, cerca de dois bilhões de dólares por ano, é uma das mais importantes fontes de financiamento para os mujahideen, que estão atualmente em situação de força, como nunca antes desde a invasão americana em 2001.

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A luta mais feroz está sendo travada em torno da cidade de Lashkar Gah, a capital de Helmand, com cerca de 45 mil habitantes, onde, segundo relatórios oficiais, sempre pouco credíveis, o ENA matou uma centena de milicianos, sem revelar o número de suas próprias baixas. Os confrontos começaram em 3 de maio com o assalto à base conhecida como Camp Antonik, que os americanos haviam entregue às forças afegãs no dia anterior. A luta causou a fuga de cerca de mil famílias da área. De acordo com relatórios, a ofensiva também está ocorrendo em outras partes da província. Enquanto o Talibã relatou que matou dezenas de soldados, dados tão pouco confiáveis quanto os oficiais.

As operações em Helmand não são um caso isolado, pois desde o início do mês foram relatados ataques, sempre contra alvos da ENA, em pelo menos seis outras províncias, incluindo Ghazni, onde no sábado (1º), os rebeldes atacaram uma base militar, essencial para a segurança da província, matando vários soldados e fazendo prisioneiros quase uma centena.

O Pentágono, aparentemente não deu muita importância à luta, em suas declarações no terceiro dia, John Kirby, porta-voz do Departamento de Defesa, relatou: “Até agora não vimos nada que tenha afetado a redução (de tropas), ou que tenha tido um impacto significativo na missão em questão”. Assim, a retirada até o dia 4, estava entre dois e seis por cento e continuaria sem prorrogação. Todas as tropas, tanto americanas quanto européias, estão sendo enviadas para Bagram, a cerca de sessenta quilômetros de Cabul e a mais importante que os Estados Unidos ainda mantém no país, de onde serão transportadas para seus lugares de origem. Enquanto isso, já havia retirado do país o equivalente a 60 aviões C-17 e entregue para destruição mais de 1300 equipamentos de combate.

Nas últimas horas da sexta-feira, a trigésima, um carro-bomba que explodiu em Pul-e-Alam, a capital da província oriental de Logar, matou cerca de trinta soldados do ENA, enquanto outros dez foram mortos após a explosão de um dispositivo que as milícias conseguiram detonar sob um posto avançado do exército, introduzido através de um túnel, na província sudoeste de Farah, na segunda-feira (3).

Vinte anos não é nada

A retirada americana não significa apenas o reconhecimento de uma nova derrota, por mais que eles tentem escondê-la, como têm sido as do Iraque, Síria, Somália e Iêmen, e embora não possa ser definida como tal, o desastre que provocou na Líbia, não deixa de ser mais um elo na trágica seqüência de erros até agora neste século, o que faz com que o distante Vietnã pareça quase uma anedota.

O Afeganistão, talvez o símbolo da torpeza americana, após vinte anos de ocupação sangrenta e em uma guerra assimétrica como poucos em memória, fazendo uso de infinitos recursos materiais não só próprios, mas também de parceiros, como o Reino Unido, França, Alemanha entre outras potências militares, no momento em que a retirada começou, controlava apenas cinqüenta por cento do território. Uma das principais razões pelas quais aceita que está praticamente fugindo dali  se confirma  com o documento confidencial, que acaba de ser publicado e que Washington nega, apesar do acordado em Doha em uma cláusula secreta, que os talibãs não atacariam alvos americanos depois de feveriro de 2020, e que os mullah se comprometeriam a estebelecer “anéis de segurança” para prevenir ataques tanto do Daesh Koransam como de seus aliados “intermitentes” da Rede Haqqani, que muitas vezes operam independentemente das decisões do líder Talibã Mullah Hibatullah Akhundzada, embora o emir e filho do fundador da rede, Sirajuddin Haqqani, seja um dos comandantes mais altos da estrutura do Talibã.

Isto foi questionado com a chegada de maio, já que, segundo declarações do alto comando talibã: “Até agora, nosso compromisso de não atacar as forças estrangeiras é até 1º de maio, depois disso, se atacamos ou não é um assunto em discussão”. Embora seja improvável que o faça, já que seria uma provocação, para assediar um inimigo tão poderoso, pouco mais de cinco meses antes de se retirar derrotado e sem tempo para definir sobre os 17 mil afegãos, com diferentes graus de colaboracionismo, que estão esperando seus vistos para viajar para os Estados Unidos, sabendo que estão condenados à morte, sentenças que serão executadas mais cedo e não mais tarde.

Por outro lado, especialistas militares concordam que o Presidente Ashraf Ghani terá que abandonar o sul do país nas mãos dos mullahs se pretender manter outras regiões mais “pacíficas”.

Para além do que acontece com os acordos de Doha e as conversações intra afegãs após o 11 de setembro, o Afeganistão começa novamente um “ano zero”, cheio de turbulência, onde dois terços dos quase 40 milhões de habitantes vivem abaixo da linha de pobreza, com quase cinco milhões de deslocados internos, sem infraestrutura e sem industriais, tudo é apenas deserto e sangue.

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Guadi Calvo é escritor e jornalista argentino. Analista internacional especializado em África, Oriente Médio e Ásia Central

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