África Ocidental na rota do terror | Guadi Calvo

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Por Gualdi Calvo

Daquilo que havia sido pouco mais que um evento policial no norte de Mali durante os dias confusos do golpe contra o presidente Amadou Touré, surgiram grupos forjados entre o crime comum e o fundamentalismo islâmico, usando as sempre imprecisas fronteiras sahelianas, particularmente as baseadas ao sul da fronteira argelina, no norte de Mali e no oeste do Níger, liberadas de seu maior inimigo, o coronel Gaddafi, que sempre procurou impedir o crescimento do fundamentalismo dentro e ao redor das fronteiras da Líbia.

A Operação Barkhane, que manteve mais de 5.000 soldados franceses destacados por dez anos, inclusive com o apoio das forças americanas européias e do Grupo 5 Sahel (G5S), formado por tropas dos exércitos de Burkina Fasso, Chade, Mali, Mauritânia e Níger, não conseguiu impedir a transformação dessas quadrilhas em organizações perfeitamente estruturadas: financiadas pelo Golfo Pérsico e seus fundos próprios provenientes da pilhagem de populações inteiras, sequestros extorsivos e, em algumas áreas, como  resultado de comissões acertadas com os traficantes de ouro, que não só estão autorizados a montar operações ilegais, mas também recebem segurança. As fluidas rotas de fornecimento de armas, equipamentos de comunicação e veículos de última geração, incluindo centenas de motocicletas se tornaram parte indivisível das khatibas terroristas, bem como o constante recrutamento de novos combatentes, que recebem pagamentos superiores aos dos militares africanos que tentam combatê-los. Dado o fracasso do Barkhane, a junta de coronéis que governa Mali expulsou os franceses de seu país para incorporar na Guerra contra os terroristas o Grupo Wagner, de origem russa. Numa tentativa de manter sua presença em suas antigas colônias, a França manteve as tropas da Operação Barkhane em Burkina Faso, que ocupa o primeiro lugar em termos de atividade terrorista na região da União Econômica e Monetária da África Ocidental (UEMOA) e o segundo no continente, mostrando que a presença francesa não se mostrou eficaz. Desde 2020, a França e seus parceiros europeus estabeleceram a Operação Takuba, que até agora tem sido muito ineficiente e tem apresentado mais intenções e desculpas do que resultados concretos.

A franquia da Al-Qaeda, Jama’a Nuṣrat ul-Islam wa al-Muslimīn (Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos), assim como seus rivais do Daesh congregados no Estado Islâmico para a Grande Savana conseguiram conquistar vastas áreas no norte de Burkina Faso, avançando até o centro do Mali, por vezes se aproximando de Bamako, a capital do país, e no oeste do Níger, um país que também sofre com operações frequentes dos grupos nigerianos Boko Haram e suas facções; e do Estado Islâmico na África Ocidental (ISWAP) no sul, em áreas próximas à região do Lago Chade.

Grupos terroristas no Sahel se espalharam pela Costa do Marfim, onde as primeiras mortes de militares marfinenses foram registradas no primeiro semestre de 2021, e suas ações têm aumentado desde então. Operações mais esporádicas também estão se expandindo para outros países do Golfo da Guiné, onde também há um alto nível de atividade de pirataria marítima.

Em Benin, onde entre o final de novembro do ano passado e fevereiro uma série de ataques de baixa intensidade levou a algumas baixas entre militares e de segurança, sendo a mais significativa a que ocorreu entre 8 e 10 de fevereiro no parque transfronteiriço W, chamado assim por seu formato – compartilhado por Burkina Faso, Níger e Benin – quando uma coluna de veículos transportando guarda-parques beninenses passou sobre um dispositivo explosivo improvisado (IED), matando nove oficiais e um “instrutor” francês e ferindo uma dúzia de outros.

Dado o aumento da atividade terrorista, os países costeiros, no âmbito da Iniciativa de Acra, um grupo de vinte nações da região ocidental do continente com os países limítrofes do Golfo da Guiné como epicentros, lançaram desde 2018 uma série de operações militares conhecidas como Koudanlgou, que em sua última versão, a IV, em novembro de 2021, e que incluía seis mil soldados de Burkina Faso, Costa do Marfim, Gana e Togo, conseguiu prender quase trezentos suspeitos de serem extremistas. Essas forças regionais poderiam ser incrementadas com a chegada de militares franceses expulsos do Mali.

As duas últimas paradas

Togo e Gana têm sido até agora os dois países que permaneceram à margem da crise de segurança que envolve o resto da região.

Mas esse equilíbrio acabou de ser quebrado no Togo, que registrou seu primeiro ataque terrorista quando milicianos de Burkina Faso tentaram tomar um posto fronteiriço na região de segurança do norte, na vila de Sanloaga, em novembro passado, um ataque que foi repelido com sucesso. Meses depois, em 19 de fevereiro, mujahideens ocupando a região de Savanes ordenaram aos moradores de Lalabiga que deixassem suas casas, dando-lhes três dias para fazê-lo.

Sem mais ações, a presença terrorista parecia ter sido extinta no país até o primeiro ataque mortal no Togo na quinta-feira 12 de fevereiro, quando pelo menos oito militares foram mortos e outros treze ficaram feridos em um posto avançado da Operação Kondjouaré na vila de Kpinkankandi, por um grupo de sessenta homens armados não identificados, embora algumas fontes insistam que o Jama’a Nuṣrat ul-Islam wa al-Muslimīn, cujos combatentes chegaram ao acampamento por volta das 3 da manhã em motocicletas de Burkina Faso, abriram fogo, atiraram granadas e escaparam. Sabe-se que vários lotes de IED foram previamente plantados nas entradas do acampamento.

Esta expansão do terrorismo Wahhabi em diferentes regiões do continente não só responde a questões ligadas à extrema pobreza que continua a se aprofundar em praticamente todo o continente empurrando milhares de jovens que não têm outra opção a não ser migrar para a Europa em direção à radicalização.

Por sua vez, as agências de segurança de Gana conclamaram o governo a iniciar um plano de contingência, já que a atividade terrorista em torno de todas as suas fronteiras está cercando o governo do presidente ganense Nana Addo, apesar de ter desenvolvido planos importantes de contenção de grupos fundamentalistas que resultaram em apenas dois ataques registrados até 2021.

No início do ano, um estranho incidente ocorreu nos estúdios da Rádio Ada FM, no qual um grupo de desconhecidos atacantes espancou e ameaçou vários trabalhadores e jornalistas após assumir o prédio, embora o incidente tenha sido associado mais a uma disputa sindical do que a um ato terrorista.

Enquanto isso, em 13 de abril na área de Yendi, na Região Norte de Gana, assaltantes não identificados atacaram várias aldeias nas quais pelo menos oito pessoas foram mortas, várias propriedades queimadas e um número não especificado de gado roubado. Alguns jornalistas atribuíram este episódio à vingança após a morte de um jovem e não ao terrorismo. Embora Yendi, Bimbilla, Kpatinga e Saboba, todos no norte de Gana, estejam sob o rigoroso controle das autoridades de Acra, que declararam toque de recolher obrigatório devido a frequentes incidentes de insegurança e violência tribal.

Embora haja um alto grau de tolerância religiosa em Gana, onde os casamentos entre cristãos e muçulmanos são comuns e há entendimento entre os líderes religiosos, o país é ameaçado pelo avanço dos Khatibas rigoristas, que parecem querer conquistar toda a África Ocidental.

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Guadi Calvo é escritor e jornalista argentino. Analista internacional especializado em África, Oriente Médio e Ásia Central

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