Alianças eleitorais secretas no Iraque: Moqtada al-Sadr é predominante | Elijah J. Magnier

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Por Elijah J. Magnier

Novas alianças surgiram das reuniões intra-xiitas em Bagdá entre os grupos partidários que representam o número mais significativo de assentos parlamentares que lhes são permitidas, em parceria com líderes eletivos sunitas e curdos, para escolher o futuro Primeiro Ministro, o Presidente da República e o Presidente do Parlamento. Entretanto, as alianças não declaradas antes das eleições parlamentares geraram indignação em outros partidos políticos xiitas, não convidados. Estes não foram chamados a aderir à coalizão dos grupos mais vitais. Portanto, foi considerada uma tentativa de isolá-los e reeleger Mustafa Al-Kadhemi como primeiro-ministro e rejeitar a candidatura do ex-primeiro-ministro Nuri Al-Maliki. Entretanto, a reeleição de al-Kadhemi só é possível se Muqtada Al-Sadr continuar empenhado em dar apoio, como prometido.

Os líderes dos principais partidos políticos Sayyed Muqtada al-Sadr, Sayyed Ammar al-Hakim e Sr. Haider al-Abadi realizaram uma reunião para criar uma nova aliança política para as próximas eleições parlamentares. Entretanto, a grande surpresa ocorreu quando Hadi Al-Amiri aderiu ao grupo. Todos os líderes assinaram um documento de solidariedade para formar uma nova aliança, acreditando que alcançariam a futura maioria parlamentar xiita. Com uma coalizão tão forte, os partidos curdo e sunita inevitavelmente selecionariam o Presidente Sunita e o Presidente Curdo com a mais robusta parceria de acordo.

Entretanto, Nuri al-Maliki, Faleh al-Fayyad e Sheikh Qais al-Khazali, todos eles parte do movimento al-Fath liderado por Hadi al-Amiri, ficaram surpresos e descontentes – já que agora representam uma coalizão parlamentar xiita minoritária – com este acordo xiita-xiita que os excluiu. Não formarão uma força parlamentar eficaz, nem poderão alcançar muitos deputados para criar uma influência política e atrair outros partidos políticos curdos e sunitas.

De acordo com a constituição, os partidos xiitas têm 189 dos 329 assentos parlamentares. É de conhecimento comum que os partidos curdos seguirão a mais forte aliança xiita para nomear o presidente curdo. Embora os partidos curdos (a maioria representada pela família Talibani em Sulaymaniyah e a família Barzani, em Erbil) tenham direito a 60 assentos parlamentares, eles podem influenciar o curso das eleições a menos que os Barzani, os Talibani e outros partidos curdos não cheguem a um acordo entre si sobre uma posição unificada em relação a um candidato à presidência.

O Iraque tem pouco entusiasmo para ir às primeiras eleições com a nova lei eleitoral, a quinta eleição parlamentar no Iraque desde 2005. A nova lei estipula que os expatriados em seus países de residência não podem ser eleitos a menos que retornem para casa. Este novo procedimento foi implementado para evitar fraudes, que supostamente estão ocorrendo nos centros eleitorais e embaixadas espalhadas por diferentes países do Oriente Médio, como foi durante as últimas eleições de 2018.

Nos últimos meses houve ceticismo: as eleições parlamentares seriam certamente adiadas por causa de uma série de boicotes. O mais destacado foi o de Sayyed Muqtada al-Sadr, o candidato com maior probabilidade de ganhar o número mais significativo de assentos, embora não o suficiente para alcançar os 165 deputados necessários para selecionar o futuro Primeiro-Ministro. Entretanto, Al-Sadr retraiu o boicote após assinar um acordo com os outros partidos xiitas, que formaram a nova aliança. Al-Sadr surgiu como um “pioneiro da reforma no Iraque”, mas não liderará a coalizão mais potente sem a parceria e desde que seus novos parceiros mantenham sua parte no acordo.

Em cada eleição, as coalizões são formadas quando todos os parlamentares aceitam sua nova representação. Isto quando as alianças são construídas para que os mais fortes possam nomear os líderes. Os seguidores de Sayyed Moqtada esperam chegar a mais de 100 deputados. No entanto, é meramente um desejo, não refletindo a realidade. Sayyed Moqtada conseguiu 52 deputados nas últimas eleições, e os observadores duvidam que ele conseguiria o mesmo número de assentos nas próximas eleições, em vez de um resultado muito inferior.

O movimento Sadrista não precisa trazer outros grupos políticos pra perto ou atrair mais seguidores porque está quase fechado em si mesmo. Seu líder é considerado sagrado, e tudo o que ele diz tem justificativas inalteráveis. Sayyed Muqtada goza de grande popularidade, que herdou de seu pai. Muitos líderes iraquianos tentaram atrair esses seguidores sem afetar a base Sadrista.

Al-Sadr emprega conselheiros que ele freqüentemente substitui, de modo que ninguém brilha por muito tempo. Sayyed Muqtada é o único comandante deste grande grupo que tem o direito de desenhar uma política para o futuro, mudá-la algumas semanas depois, dizer que se apresentará às eleições e depois volta atrás sem explicar nada aos seus seguidores. A sociedade tribal iraquiana, especialmente a base do movimento Sadrista, que foi construída por Sayyed Muhammad al-Sadr, o pai de Muqtada, é sólida e depende de um gigantesco reservatório humano em Bagdá e no sul do Iraque, especialmente entre os pobres e humildes da sociedade iraquiana, embora isto não implique que não existam quadros instruídos dentro do movimento.

Sayyed Muqtada foi capaz de sequestrar a “revolução iraquiana” recebendo o apelido de “surfista”. Também foi capaz de expulsar os mesmos manifestantes da “revolução iraquiana” das praças sem que ninguém entre os serviços de segurança ou o primeiro-ministro o enfrentasse. É o tomador de decisões que todos temem, ninguém contesta e aquele que influencia dramaticamente a nomeação do primeiro-ministro. Sayyed Moqtada tem o hábito de apoiar um novo primeiro-ministro e se manifestar contra ele alguns meses depois. Se o primeiro-ministro não atender imediatamente às exigências do movimento Sadrista, ele pede a um “milhão de manifestantes” para invadir as ruas.  Não poderia jamais alcançar este número de manifestantes, apesar de que apenas um dia ele tenha conseguido o que pediu, em muito tempo: o dia do assassinato dos dois mártires, Abu Mahdi Al-Muhandis e o Major General Qassem Soleimani. Isso só foi possível devido à unanimidade sem precedentes de todas as partes, se juntando às manifestações pela primeira vez.

Sayyed Muqtada também foi capaz de trazer Al-Amiri para seu lado na nova coalizão, mas tal aliança pode desmoronar se os resultados das eleições trouxerem surpresas. Mas como Al-Amiri aceitou se juntar à nova parceria sem seu companheiro na atual coalizão que está liderando, justificou suas ações como pessoais. Ele, portanto, não forçou o bloco “Al-Fateh”. A ação de Al-Amiri causou grande aborrecimento às partes, que se sentiram traídas e isoladas. Entretanto, as alianças iraquianas nunca são respeitadas antes das eleições. Elas são reconstituídas após a emissão dos resultados que determinam o tamanho e a força eleitoral de cada partido com base no número de assentos que ele obtém.

Nas eleições de 2018, Sayyed Muqtada al-Sadr ganhou 54 assentos, o número mais significativo para uma única parte, enquanto a Aliança Al-Fateh ganhou 48 assentos, mas alegou mais tarde incluir o maior bloco de 60 assentos. No momento, nenhuma autoridade legislativa ou legal definiu se o maior bloco do partido mais proeminente que detém a maioria dos deputados tem o direito de nomear o primeiro-ministro. Esta é uma das principais razões que exigem uma emenda constitucional para proporcionar uma resolução.

 Nem todos os grupos políticos ou indivíduos aceitarão os resultados das próximas eleições parlamentares. Espera-se que os derrotados acusem os resultados de serem fraudulentos, não obstante o pedido iraquiano e a provisão de observadores árabes, europeus e da ONU. Se aqueles que contestarem os resultados estiverem sub-representados nas ruas iraquianas, isto não causará uma mudança no processo eleitoral e o surgimento de um novo parlamento. Mas se grupos sólidos como o movimento Sadrista não obtiverem as cadeiras que desejam, não podemos descartar que as eleições possam ser rejeitadas e adiadas para o ano seguinte.

Qualquer que seja a direção que o leme tome, para aceitar ou rejeitar os resultados eleitorais, Mustafa Al-Kadhemi tem as mais substanciais chances de permanecer no poder, desde que Sayyed Al-Sadr cumpra seu compromisso de apoiá-lo.

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Elijah J Magnier é correspondente de guerra veterano e analista de risco político sênior com mais de três décadas de experiência

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