As avaliações mútuas entre Putin e Erdogan | Pepe Escobar

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Por Pepe Escobar

Todos na mesa perceberam, e todos na Eurásia também notaram.

Na recente cúpula da Organização de Cooperação de Shanghai (SCO) em Dushanbe – onde o Irã foi aceito como membro pleno e o principal tópico de discussão foi o Afeganistão – a Turquia esteve praticamente ausente. Como se não fosse mais do que um jogador menor, periférico da Eurásia.

A Turquia, no entanto, é um país observador na SCO – no mesmo nível que o Afeganistão.

Essa não foi exatamente um pré-ingresso triunfal para o que, na quarta-feira em Sochi, foi a primeira reunião presencial entre os presidentes Recep Tayyip Erdogan e Vladimir Putin desde que se encontraram em março de 2020 no Kremlin.

Conversaram por um pouco menos de três horas. Nenhuma declaração à imprensa. Nenhum vazamento substancial, exceto por uma conversa informal sobre Covid liberada pelo Kremlin.

Erdogan: “Qual é o seu nível de anticorpos?

Putin: “15-16”.

Erdogan: “É muito baixo”.

Putin: “Nossos cálculos são diferentes. Você deve obter a Sputnik V para fortalecer sua imunidade”.

Erdogan: “Eu recebi minha terceira dose”.

Bem, pelo menos eles parecem estar bem protegidos. Outra – apócrifa – poderia ter ido nesta direção:

Erdogan: “Preciso de mais S-400s”.

Putin: “Agora, quanto a esses rebeldes moderados que você está armando em Idlib…”.

Afinal, estas foram as duas questões no centro da discussão:

– O notório ziguezague de Erdogan entre a OTAN e um compromisso total com o que a Rússia define como a Grande Parceria Eurasiática, e

– O que exatamente ele pode estar fazendo na Síria.

Tudo passa por Idlib

Durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, Erdogan disse que a Crimeia fazia parte da Ucrânia, uma “anexação que não reconhecemos”. Muito mais do que expressar seu desejo de restabelecer um protetorado que os otomanos mantiveram até o final do século 18, Erdogan era mais um papagaio de marca registrada da OTAN.

Erdogan e Putin também tiveram que tocar na cooperação militar-técnica de Ancara com Kiev, especialmente a questão ultra-sensível dos drones que podem ser usados contra as repúblicas populares no Donbass.

Num ato típico de Erdogan, antes da reunião de Sochi, ele já havia expressado à mídia americana sua frustração como aliado da OTAN, chegando ao ponto de lembrar uma das Unidades de Mobilização Popular (PMUs) (xiitas) no Iraque. Se tivesse escolha, gostaria que os EUA “saíssem da Síria e do Iraque, da mesma forma como se retiraram do Afeganistão”.

Em Sochi, o Kremlin jogou muito bem, com a versão oficial enfatizando como Putin destacou a “cooperação bem sucedida” entre Moscou e Ancara na Síria e na Líbia.

Outras gentilezas se seguiram, com Putin agradecendo a Erdogan por sua “posição consistente” na construção do principal gasoduto TurkStream, do qual Ankara tanto precisa. Compare sua consistência com o fato de a UE se apunhalar pelas costas, não concordando com contratos de preço fixo de longo prazo com a Gazprom quando tiveram a oportunidade.  

Erdogan, por sua vez, esteve delirante com a construção pela Rosatom da primeira usina nuclear na Turquia, em Akkuyu, na costa sul, que entrará em operação em 2022.

Mas o cerne da questão tinha que ser Idlib.

O Ministro das Relações Exteriores russo Sergey Lavrov, nos bastidores da Assembléia Geral da ONU, foi direto ao ponto em relação ao acordo especial turco-russo que exige que Ancara lute contra os terroristas em Idlib:

“A questão de como esta obrigação é implementada será considerada em detalhes. É evidente que está sendo encaminhada lentamente”.

Fala-se de um eufemismo estrondoso que define uma diferença praticamente irreconciliável. Os russos sabem tudo sobre Idlib estar infestada de jihadis, enquanto Ankara só se preocupa com o presidente sírio Assad e o Exército Árabe Sírio (SAA) lançando a ofensiva definitiva sobre Idlib com um apoio aéreo russo massivo.

Está chegando o dia, e rápido, em que o SAA irá à falência na retomada de toda a província.  

O exército turco, por sua vez, mantém mais de 60 “postos de observação” em Idlib.

Um gargalo chave para observar é Al-Zalwiya, na zona rural do sul de Idlib. Esse é um importante centro para o Hay’at Tahrir al-Sham (HTS) – oh, aqueles “rebeldes moderados” pensados no Beltway – e um alvo de ataques aéreos russos praticamente diários que atravessam a Grande Idlib.

Putin certamente terá questionado Erdogan sobre violações de cessar-fogo ininterruptas por parte das nebulosas da Al-Qaeda. Até recentemente, as forças militares turcas em Idlib estavam basicamente contidas nesses “postos de observação” – checkpoints – e infiltradas entre o exército por procuração turco de notoriamente conhecido, por anos, como o “Exército Sírio Livre”.

Mas agora há soldados turcos regulares no terreno – cerca de 3.000. Os russos argumentam que isto equivale oficialmente à ocupação de território soberano sírio.

Lavrov tem sido consistentemente intransigente há meses. Logo após a Assembleia Geral das Nações Unidas, ele disse que a Grande Idlib era o último “posto avançado terrorista” na Síria – e isso é tecnicamente correto.

Não é irrealista imaginar Erdogan em frente a Putin em Sochi tentando desesperadamente defender sua versão do cessar-fogo – menos implorar que os ataques aéreos russos não esmaguem as cerca de 3.000 tropas turcas em Idlib.

Cada grão de areia na zona rural de Idlib sabe que Ankara está fazendo menos do que zero para respeitar o cessar-fogo, já que a gangue “rebelde moderada” é protegida de fato pelos militares turcos.

Portanto, Sochi, no final das contas, não resolveu nada. Mas pelo menos Putin pode ter tido uma compreensão sobre o que o Sultão anda fazendo. 

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Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Originalmente em Asia Times

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