AUKUS tensiona a Ásia e prejudica alianças dos EUA | Eduardo Vior

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Por Eduardo Vior

Na quarta-feira, dia 15, o presidente Joe Biden, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson e seu homólogo australiano Scott Morrison anunciaram o acordo AUKUS, sob o qual Washington fornecerá a Camberra seis submarinos movidos a energia nuclear que usará para patrulhar áreas do Mar Do Sul da China reivindicadas pela República Popular chinesa.

As embarcações são equipadas com sistemas de propulsão nuclear que oferecem alcance ilimitado e operam de forma tão silenciosa que são difíceis de detectar. “Trata-se de investir em nossa maior fonte de força, nossas alianças, e atualizá-las para melhor enfrentar as ameaças de hoje e de amanhã”, disse Biden na Sala Leste da Casa Branca ao anunciar a nova aliança.

No entanto, o acordo rompe com outros em vigência. Ao fechar o negócio com os EUA para comprar seis submarinos nucleares, a Austrália cancelou um contrato de 55 bilhões de euros com a França para construir 12 navios subaquáticos movidos a diesel. “É uma verdadeira punhalada nas costas. Tínhamos construído uma relação de confiança com a Austrália que foi traída”, disse Jean-Yves Le Drian, Ministro das Relações Exteriores da França, na quinta-feira 16. Os franceses estão trabalhando neste acordo há anos e ninguém os consultou sobre este pacto. Além disso, de acordo com o The Telegraph de Londres no domingo 19, os detalhes finais do acordo foram fechados durante a cúpula do G7 em Cornualha, no início de junho. Embora o presidente francês Emmanuel Macron estivesse presente, ele não recebeu nenhuma informação sobre o assunto.

Em Paris, já há grandes reflexões sobre uma possível segunda retirada da estrutura militar da OTAN, semelhante à ordenada em 1966 pelo Presidente Charles De Gaulle. Foi somente em 2009 que Nicolas Sarkozy decidiu voltar ao plantel atlanticista. Entretanto, esta não parece ser uma opção realista, dado que a Alemanha – principal parceiro da França – está elegendo o sucessor de Angela Merkel no final do mês e os candidatos em disputa não parecem dispostos a se distanciar de Washington.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês Zhao Lijian chamou o AUKUS de “extremamente irresponsável” e exortou os Estados-membros a “abandonar a obsoleta mentalidade de soma zero da Guerra Fria e os conceitos geopolíticos mesquinhos”.

Ao negociar este pacto, Scott Morrison está assumindo um grande risco. Os submarinos movidos a energia nuclear vêm sem custo estimado, sem cronograma de entrega preciso (sabe-se que só estarão disponíveis em décadas), sem decisão sobre qual modelo será escolhido e sem definição do envolvimento australiano em sua construção. O governo conservador mantém laços com a vizinha Nova Zelândia (firmemente anti-nuclear), aumenta as tensões com a China, prende o país em um compromisso dispendioso por décadas, e não está claro qual será o benefício.

Por sua vez, ao estreitar sua aliança com a Austrália e o Reino Unido, ao mesmo tempo em que se confrontam cada vez mais com a China, os EUA estão voltando à estratégia de Barack Obama do “pivô Ásia-Pacífico” de cercar a República Popular. Após a derrota no Afeganistão, o Pentágono procura concentrar forças e promover indústrias militares para reanimar a economia, mas alienando os aliados europeus, fará com que eles se retirem do confronto com a Rússia e da luta contra o terrorismo na África. A longo prazo, os Estados Unidos pagarão caro por sua aquiescência inquestionável à manobra “astuta” da Grã-Bretanha.

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Eduardo Vior é cientista político argentino

Originalmente em telam.com.ar

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