Brasil: Carta aos sobreviventes

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Reproduzimos abaixo carta anônima com reflexões sobre o atual cenário brasileiro na crise da Covid-19. Em números atualizados em 09 de março de 2021, a pandemia no país já superou a marca de 266 mil mortes pela doença, com mais de 11 milhões de casos confirmados, um dos piores quadros da pandemia em todo o planeta. Confira abaixo.

09 de março de 2021. Fortaleza-Brasil.

Os leitos de minha cidade estão praticamente lotados. Pessoas morrem como moscas. Estamos em uma “quarentena” que mudou o sentido da palavra. Não mais quarenta dias. Já se foram mais de quarenta semanas. Nas mídias, fotos, números, estatísticas, esperanças. E desespero. O que você fez, você que me lê estas palavras deve estar se perguntando agora. Digo: quase nada. Mantive-me em isolamento social, usei máscaras, lavei as mãos infinitas vezes, vacinei-me ( e este meu quase nada seria muito se não houvesse tantos negacionistas … ). Escrevi.

Vi valas comuns serem abertas para que se pudessem enterrar mortos, soube da morte da vizinha devido ao covid-19. Ou uma de suas cepas. Não sei. Fui tomada de assalto por várias mortes. Todos os dias. Houve gente que se acostumou. “O que são 200 milhões para a população total do Brasil?”, escutei, assombrada, este disparate. Bem, uma pessoa é única, insubstituível, cara aos seus. Ensaiei dizer, porém, o espanto congelou-me. O terror percorreu-me os ossos, com um frio súbito de rastro. Todas as vidas valem. Por uma inversão das coisas, elas passaram a ser números. São CPF’s, carteiras de identidade, títulos eleitorais. Especialmente títulos eleitorais. Há mais de dois anos está na Presidência um homem insensato, eu diria, utilizando-me de um gigantesco eufemismo. Eleito por menos de 34% da população. Sim: nosso sistema eleitoral é cheio de falhas. Nem de longe somos uma democracia. O povo sempre esteve de fora. Primeiro, os invasores praticamente massacraram os povos nativos. Depois, dividiram a terra em capitanias hereditárias entre si, ao bel prazer, como se aqui fosse terra de ninguém. Mas as armas souberam muito bem articular o nosso “processo civilizatório “. Mataram quase todos, para ser breve em palavras.

Forjou-se depois um império, em seguida uma “República”, ditadura, houve o “milagre” ( mas não dividiram o bolo), República … E a nossa era do inconcebível. Era do inominável. Era da insensatez; do absurdo paroxístico. Não parece que eventos, falas, atitudes e, principalmente, não-atitudes, estejam se passando. Libertaram “O Messias” Tornaram-no elegível. Mas não porque Pilatos não tenha lavado as mãos ou porque o povo mesmo o escolhera. Quem venceu em 2020 foi um outro Messias. As autoridades romanas decidiram que seria melhor colocar “O Messias” novamente no poder. Ficaram temerosos. Os sacerdotes do templo também. Os doutos Fariseus participaram, ou melhor, tomaram a decisão. Mas a estória aqui está mal contada. Não serve para o que quero lhe dizer. Desde o início não houve Messias algum. Ecce Homo: não existiu! Mas adapto o enredo. Colocarão no poder um homem com vestes do povo, com fala do povo, mas … eis que não é verdadeiramente a alma do povo.

O povo continua explorado, espoliado e extraviado. Sim! Fomos todos extraviados. “Um homem fincou uma cerca na terra, disse ‘isto é meu’ e outros acreditaram”. Assim começa a estória. Ou a pré-história, para lembrar alguém a quem já não se recorre. Ou se o fazem, fazem-no a arremedas mal feitos, costurando remendos de “Democracia”. Estão sempre aquém, aqueles à esquerda. Que agora inclui os do centro. E até uns da direita. Continuaremos escravos, com “pão e circo”. Escolheremos “O Messias” e, ainda outra vez, a roda da história esmagará aqueles sempre esmagados. Voltaremos à “Democracia” felizes, plenos e satisfeitos por termos dado “o melhor”, feito “o melhor”, abraçado “o melhor”. Não temos armas para fazer o impossível, o necessário, o justo. Ainda assim, até que não tenha mais forças para falar, e quede rouca, eu gritarei:

Ainda somos escravos! 

Brasil: Carta aos sobreviventes 1

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