Celso Amorim: Lula e a força dos BRICS | Ekaterina Blinova

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O ex-presidente Lula irá reformular a atual política brasileira se concorrer e vencer, começando por revitalizar o sistema de saúde do país e combater a desigualdade, reforçando os BRICS, migrando para moedas nacionais no comércio e liderando a reintegração da América do Sul, é o que diz o ex-ministro das Relações Exteriores brasileiro Celso Amorim em entrevista ao site Sputnik, de Moscou.

Por Ekaterina Blinova

Em entrevista à emissora de televisão portuguesa RTP, em 2 de abril, o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, 75 anos, afirmou que concorreria à presidência do Brasil em 2022, se “necessário”. O veredicto de março do Supremo Tribunal Federal invalidando a condenação do ex-presidente brasileiro se tornou uma grande mudança na política do país ao abrir a porta para Lula se candidatar à reeleição.

O fato alarmou o Presidente Jair Bolsonaro e seus poderosos apoiadores. Entretanto, é improvável que os militares, que apoiaram Bolsonaro em 2018, tentem impedir a campanha de Lula em caso de candidatura, diz o diplomata e político brasileiro Celso Luiz Nunes Amorim, que ocupou duas vezes o cargo de ministro das Relações Exteriores entre 1993 e 1994 sob o Presidente Itamar Franco e depois entre 2003 e 2010 sob o Presidente Lula da Silva. Mas e se Washington e as corporações multinacionais tentarem colocar um entrave nos planos de Lula?

Sputnik: Quais são as chances de Lula vencer a disputa?

Celso Amorim: Lula como muitos outros, como muitos de nós – digo isto porque me sinto pessoalmente ligado a ele, também – estamos agora concentrados no que pode ser feito para melhorar a vida dos brasileiros por causa da pandemia. O Brasil tem um número recorde de mortes por dia. É um país que detém o maior número do mundo. Isto, naturalmente, é acompanhado de recessão, desemprego e falta de renda para os pobres. Portanto, todas estas coisas agora concentraram sua atenção. É claro que, se você fizer a pergunta, ele dirá “Bem, eu posso concorrer”, não sei exatamente o que ele disse à televisão [portuguesa], mas já o ouvi dizer em algum outro momento: “Bem, se houver um pedido do meu partido e das forças progressistas, as que estão mais ligadas aos ideais sociais no Brasil com mais independência na política externa, se essas forças pedirem, eu me candidatarei”. Mas, como já disse, é um pouco cedo.

É claro que Lula é uma força gigantesca na política brasileira, portanto, ele terá uma grande influência de qualquer maneira. E, é claro, muitas pessoas, como eu, esperam que ele se candidate. Mas, claro, como digo, estamos um pouco distantes, e estamos no meio da pandemia, uma grande crise de saúde, uma forte crise econômica, uma grande crise social em potencial, também. Portanto, é um pouco difícil fazer uma previsão precisa.  

Sputnik: Que tipo de reação Lula pode esperar de Washington, dado que a administração Biden está em desacordo com o governo Bolsonaro? Washington tentará  intervir na campanha de Lula?

Celso Amorim: Washington não é de uma definição tão simples. Há forças diferentes nos Estados Unidos que agem de maneiras diferentes. Certamente, se você tivesse a administração Trump, elas apoiariam o governo Bolsonaro. Com a administração Biden – ainda não sabemos. Até agora, suas políticas em relação à América Latina não têm mostrado muito progresso. Mas você sabe, quando Lula foi presidente tivemos boas relações, e isso foi com o presidente Bush e o presidente Obama. É claro que pode haver interesses de empresas americanas no Brasil. Pode haver alguns outros interesses estratégicos. Mas, não é mais o que acontecia nos anos 60 ou 70.

Mesmo o tipo de intromissão é diferente: acho que se acontecer acontecerá por meio da mídia brasileira, da elite econômica brasileira. E essa elite econômica está um pouco desconcertada porque, é claro, apoiaram Bolsonaro e agora, pelo menos, muitos deles se arrependem.

Portanto, não vejo realmente por que eles tentariam fazer algo para bloquear a campanha de Lula, porque na verdade Lula sempre foi uma pessoa aberta ao diálogo, mesmo em relações com questões difíceis como a Venezuela, para falar aqui de um aspecto regional.

Sputnik: As corporações multinacionais poderiam tentar impedir a campanha de Lula, dado que ele se opõe a mais privatizações?

Celso Amorim: Certamente, existem, no Brasil, forças mais ligadas a este neoliberalismo que quer privatizar e pode ganhar com este processo também, no Brasil. E, é claro, pode haver outras empresas internacionais que podem estar interessadas no Brasil, mas não têm poder de domínio. Elas podem ter algum apoio, internacionalmente falando, para se opor a Lula porque querem mais privatizações, mais espaço para obter ganhos, e ganhos imediatos.

Por outro lado, mesmo por causa da pandemia, do alto desemprego, das políticas que têm a ver com o preço do petróleo, há um sentimento crescente no Brasil – que vai além das tradicionais forças progressistas – de que precisamos de uma presença do Estado brasileiro na economia para fazê-la deslanchar. Isto está acontecendo até mesmo nos Estados Unidos. O que Biden está fazendo agora nos Estados Unidos é algo que não acontece desde Franklin Delano Roosevelt, na época da [Grande] Depressão, na forma como ele está injetando dinheiro, inclusive aumentando impostos, impostos sobre os ricos, impostos sobre as corporações.

Portanto, o mundo está mudando um pouco. Não podemos pensar apenas nos modelos que tínhamos, mesmo os modelos que tínhamos até dez anos atrás, eles já se tornaram, de certa forma, superados, ultrapassados. Portanto, há um novo mundo. Penso que o fato de termos os BRICS, por exemplo, temos a possibilidade e a Rússia acaba de propor isso. Vi meu bom amigo [Ministro das Relações Exteriores russo Sergei] Lavrov, com quem interagi durante muitos anos como ministro das relações exteriores e antes como embaixador na ONU, propondo que a Rússia pudesse abandonar o dólar.

Não sei se o Brasil pode abandonar o dólar, mas poderíamos ter nosso comércio entre os países BRICS com nossas moedas. Portanto, acho que é muito importante reforçar os BRICS. 

Acho que o Brasil tem que trabalhar dentro dos grupos como os BRICS e, é claro, ter relações normais com os Estados Unidos também. Não é fácil porque a América Latina é vista por muitas pessoas nos EUA como seu quintal, como de alguma forma estava implícito em sua pergunta. Mas acho que isso também está mudando: temos governos progressistas no México, na Argentina, na Bolívia. Portanto, se Lula for eleito… e eu acho que se ele se candidatar, ele tem uma grande chance de ser eleito, é quase certo de que seria. Se ele for eleito, poderemos trabalhar tanto com a integração da América do Sul quanto com grupos como os BRICS, também com os Estados Unidos, e também com a União Européia.

Sputnik: Que questões internas Lula abordará imediatamente se ele chegar à presidência? Que mudanças na política externa se pode esperar se Lula vencer?            

Celso Amorim: A questão imediata que ele está tratando agora [é a pandemia], porque Lula é uma grande figura no Brasil, o que ele diz e faz tem uma influência. Mesmo, por exemplo, quando Lula criticou o ministro da saúde, Bolsonaro o demitiu. Ele não criticou o ministro, ele criticou a política, e o ministro foi demitido alguns dias depois. Bolsonaro nunca havia usado uma máscara, e quando Lula falou sobre estas coisas, ele começou a usar, porque sabe que Lula tem grande influência e quer se antecipar a ele.

O Brasil tem um sistema de saúde fantástico, um dos melhores do mundo – não foi devidamente utilizado por Bolsonaro, pelo atual governo – mas graças ao SUS, a situação não é ainda pior. É mais ou menos como o National Health [Service] na Grã-Bretanha. Claro que somos um país em desenvolvimento e não temos o mesmo tipo de recursos, mas ele permeia a sociedade.

Em termos de política externa: bem, é claro, o mundo muda, então não posso dizer que ele fará exatamente as mesmas coisas que fez há 10 anos quando estava no poder. Mas certamente, vamos tentar trabalhar em duas ou três linhas, acabo de mencionar: ter um mundo mais multipolar, reforçando grupos como os BRICS, isso é essencial para o Brasil e acho que é essencial para os outros grupos membros. Trabalharemos na integração na América do Sul e desenvolveremos relações multipolares com todo o mundo, com grande ênfase na África, pois o continente está muito próximo ao Brasil.

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*Ekaterina Blinova é jornalista 

Originalmente em Sputnik Mundo

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3 COMENTÁRIOS

  1. Infelizmente quem escreveu este texto nao está bem informado. Se Lula for Presidente, o que nao vai acontecer, acabará de vez com o Brasil. Um Brasil que a 130 está acostumado a ser Maltratado pelos politicos egomanicos. O brasileiro já se acostumou desde geracoes a ser maltratado e crescer achando que é normal ser assim e viver assim, pensando só em si e tirando proveito só para si e deixar os outros se ferrarem. O BRASIL DE BOLSONARO É O CONTRARIO E QUER LIMPAR ESTA GANGRENA!!!Quem da esquerda ainda pensa em um Lula, tem doenca mental de “ENORME EGOCENTRISMO e que o pais se ferre”. Cada esquerista só pensa em seus proveitos. Quem esqueceu o Que Lula e Dilma fizeram ao Brasil, necessitam urgente de voltar a escola (uma que dê as informacoes corretas) e URGENTE tomar aula de GEO POLITICA!!! E por terminar urgente ir ao Psyquiatra.

  2. 130 anos de horror politico. Qdo o brasileiro vai a Europa, acha tudo lindo e organizado e pensa até ficar por lá. Porque? Porque brasileiro de esquerda, voce quer ficar na Europa? Ora nao tem socialismo esquerdista regido por egocentricos que só tiram proveito e roubam bilhoes?!. Ao contrario, tem muita clareza nas financas e no juridico e pouca roubalheira, sabe? Como o Bolsonaro está tentando fazer agora. Mas voce está precisando de terapia e entao ainda nao se livrou do seu egomanismo para entender o Bolsonaro.

  3. Nossa, como tem pobres de direita jumentos no Brasil. O cara defende o pior presidente da história do país, analisado por todos os cientistas políticos sérios e ainda vem falar que o Bolsonaro está tentando limpar o Brasil. Espero que vc seja um agropecuarista, pois estes são os únicos que estão se dando bem no desgoverno, mas se tivesse que apostar, diria que vc, senhor Hirte, deve ser mais um desses pobretões reacionários que sonham com a ditadura e não tem nem senso crítico suficiente pra perceber que os oficiais milicos odeiam pobres. Desprezam e fazem tudo que podem pra esmagar as classes baixas, tudo em nome de uma sociedade vertical e profundamente hierarquizada onde o pobre só tem direito de dizer sim senhor. Jumento direitista estúpido, vai estudar, seu asno.

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